Por que o preço dos combustíveis demora a cair? Especialista explica a cadeia do setor

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A formação do preço dos combustíveis no Brasil é resultado de uma equação composta por diversos fatores ao longo da cadeia de produção e comercialização. Embora o debate público frequentemente simplifique o tema, o valor final pago pelo consumidor envolve custos estruturais que vão desde a produção e importação do combustível até impostos, logística e margens de comercialização.

Na prática, os preços dos combustíveis na bomba são influenciado por variáveis como o câmbio, o preço internacional do petróleo e a necessidade de importação para atender à demanda nacional.

Para Pedro Rodrigues, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), que participou recentemente do programa BM&C Strike, o principal problema do debate público é tratar um mercado complexo como se fosse uma relação direta entre refinaria e consumidor.

“O mercado de combustíveis é complexo. Não é só a Petrobras e o consumidor. Existe a produção de petróleo, o refino, a distribuição, a logística até o posto e só então o consumidor final.”

Segundo o especialista, a percepção de que o preço deveria cair imediatamente na bomba ignora as dinâmicas operacionais e comerciais que existem ao longo da cadeia.

Diesel no radar: principais componentes dos preços dos combustíveis

A composição do preço do diesel pode ser dividida em cinco blocos principais. O maior deles corresponde ao custo do produto, que inclui produção, refino e importação, representando aproximadamente 55% do valor final pago pelo consumidor.

Os impostos estaduais e federais também compõem uma parcela relevante, somando cerca de 17% do preço final. Nessa categoria estão tributos como PIS, Cofins e ICMS, que incidem ao longo da cadeia.

Outro componente relevante é o biodiesel, cuja mistura ao diesel fóssil é obrigatória por legislação. Esse item responde por aproximadamente 13% do valor do combustível comercializado nos postos.

A revenda, responsável pela comercialização final ao consumidor, representa cerca de 10% do preço total, enquanto a distribuição responde por aproximadamente 5% da composição final. Essa etapa envolve logística, armazenamento e transporte do combustível até os postos em todo o território nacional.

Componente do preço do diesel Participação aproximada O que inclui
Custo do produto (produção, refino e importação) 55% Produção do petróleo, processamento nas refinarias e importação do diesel necessário para atender à demanda nacional
Impostos (federais e estaduais) 17% Tributos como PIS, Cofins e ICMS, cobrados ao longo da cadeia de comercialização
Biocombustíveis (biodiesel) 13% Mistura obrigatória de biodiesel ao diesel fóssil, definida por legislação
Revenda (postos) 10% Custos operacionais dos postos e margem de comercialização ao consumidor
Distribuição 5% Logística, transporte, armazenamento e entrega do combustível aos postos em todo o país

Rodrigues destaca que, muitas vezes, a discussão pública concentra críticas nas etapas finais da cadeia, sem considerar a estrutura completa de custos.

“Quando você tem uma redução no refino, a cadeia muitas vezes não repassa totalmente. O preço do combustível no Brasil é livre. Cada posto de gasolina tem o direito de colocar o preço que entende colocar.”

Influência do mercado internacional

A dinâmica recente do mercado mostra que grande parte da pressão sobre os preços não está nos elos finais da cadeia, mas sim no cenário internacional.

O Brasil precisa importar cerca de 30% do diesel consumido no país, o que torna o preço doméstico sensível às oscilações externas. Em um contexto internacional adverso, o custo do diesel importado registrou aumentos expressivos, chegando a cerca de 65% desde o início da guerra no cenário global.

Além disso, no último mês, o diesel internacional chegou a custar entre R$ 1,30 e R$ 2,70 por litro a mais do que o combustível produzido no Brasil, com variações diárias de preço.

Nesse ambiente, decisões ao longo da cadeia também consideram o chamado custo de reposição, fator importante para a formação do preço.

“O custo não é o preço de compra do produto. O custo é o custo de reposição do estoque”, afirma Rodrigues.

Papel das distribuidoras no preço dos combustíveis

Diante das restrições de oferta e da necessidade de garantir o abastecimento, as distribuidoras passaram a ampliar a importação de combustível. Esse processo envolve custos adicionais relevantes, como o pagamento de prêmios no mercado internacional, diferenças de custo em relação ao produto nacional e ampliação da logística.

Entre os principais fatores envolvidos estão a contratação de navios, custos de armazenamento em tancagem, seguros e a mobilização de capital para viabilizar as operações de importação.

Embora esses movimentos não alterem a lógica da formação de preços, eles são considerados fundamentais para evitar riscos de desabastecimento em um país que depende parcialmente do mercado externo para atender sua demanda por diesel.

O debate sobre a composição do preço

Dados da cadeia de combustíveis indicam que a distribuição representa cerca de 5% do preço final na bomba, enquanto a maior parte da composição está relacionada ao custo do produto, impostos e fatores globais.

Rodrigues observa que, em muitos momentos, a discussão pública passa a direcionar críticas para agentes da cadeia, o que, segundo ele, pode gerar distorções no entendimento do funcionamento do setor.

“Começa a se criminalizar o empresário, o dono da distribuidora, o dono do posto. Mas o que é preço abusivo?”

Para o especialista, intervenções diretas no funcionamento do mercado também podem gerar efeitos colaterais.

“O governo muitas vezes parece desconhecer essa lógica do mercado. Esses subsídios acabam desarrumando o mercado.”

Impactos para a economia

O diesel é um insumo estratégico para a economia brasileira, especialmente para setores como transporte de cargas, agronegócio e logística. Qualquer interrupção na oferta pode gerar impactos relevantes nas cadeias produtivas e no funcionamento do mercado interno.

Nesse contexto, especialistas apontam que o debate sobre o preço dos combustíveis precisa considerar não apenas a variação de preços, mas também a necessidade de garantir o abastecimento em um mercado conectado às oscilações globais de energia.

Rodrigues resume que, independentemente das discussões políticas ou econômicas, o impacto final tende a recair sobre o consumidor.

“A conta sempre vem no final. Quem paga sou eu, você e o consumidor brasileiro.”

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