Da ‘cantada’ às críticas: o que está por trás da troca de farpas entre Trump e Giorgia Meloni


Meloni volta a defender papa de críticas de Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou em atrito com mais uma liderança mundial. Desta vez, o alvo é a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Antes aliados próximos, os dois passaram a trocar críticas nos últimos dias.
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Em um primeiro momento, o papa Leão XIV aparenta ser o pivô da crise. Meloni criticou Trump após o presidente norte-americano chamar o pontífice de “fraco”, no domingo (12), por condenar a guerra no Irã.
“Considero inaceitáveis as palavras do presidente Trump em relação ao Santo Padre. O papa é o líder da Igreja Católica, e é correto e natural que ele peça paz e condene todas as formas de guerra”, afirmou a premiê, em comunicado divulgado na segunda-feira (13).
A resposta veio um dia depois. Em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, Trump disse estar “chocado” com a postura da líder italiana e afirmou acreditar que ela não tinha coragem.
“Ela não é mais a mesma pessoa, e a Itália nunca mais será o mesmo país.”
Apesar do episódio envolvendo Leão XIV, o distanciamento entre Trump e Meloni começou meses antes.
Analistas ouvidos pelo jornal The New York Times avaliam que a premiê aproveitou o momento para sinalizar ao público interno um afastamento do presidente norte-americano, em meio a pesquisas que indicam aumento da impopularidade de ambos entre eleitores italianos.
👉 Entenda a seguir como Trump e Meloni se aproximaram e se afastaram.
Ponte com os EUA
A premiê italiana, Giorgia Meloni, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em abril de 2025
REUTERS/Evelyn Hockstein
Meloni sempre foi vista como uma das líderes europeias mais próximas de Trump. Os dois compartilhavam posições semelhantes em temas como combate à imigração ilegal e críticas a agendas progressistas, classificadas por eles como “woke”.
A aproximação começou antes mesmo de Meloni chegar ao poder.
Em 2018, ela recebeu o ex-conselheiro de Trump Stephen Bannon em uma conferência conservadora na Itália, quando ainda era considerada uma política em ascensão.
No ano seguinte, Meloni participou de um evento conservador nos Estados Unidos. Ela discursou no mesmo dia que Trump.
Quando Trump retornou à Casa Branca, em 2025, Meloni foi a única líder europeia presente na cerimônia de posse, em Washington. A premiê elogiava com frequência as políticas do republicano e passou a ser vista como um nome de confiança dos EUA na Europa.
O clima começou a mudar em abril do ano passado, quando Trump anunciou tarifas comerciais contra dezenas de países, incluindo aliados europeus. Meloni afirmou que os Estados Unidos estavam tomando a decisão errada ao taxar produtos do continente.
Ainda assim, naquele mesmo mês, a premiê viajou a Washington e se reuniu com Trump na Casa Branca. O encontro, realizado diante de jornalistas no Salão Oval, foi marcado por elogios mútuos. Meloni chegou a ser apontada como uma possível ponte entre EUA e Europa.
Em outubro, os dois protagonizaram um momento inusitado durante um evento no Egito para a assinatura de um acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza.
“Na América, se você disser a uma mulher que ela é bonita, sua carreira política acabou. Mas eu assumo o risco”, disse Trump durante o discurso. Em seguida, virou-se para Meloni, que estava atrás dele, e disse:
“Você não vai se ofender se eu disser que você é linda, vai? Porque você é.”
A premiê sorriu e manteve o bom humor enquanto Trump a descrevia como “incrível” e “bem-sucedida”. Em outros momentos do evento, porém, ela aparentou estar entediada.
Crise
Premiê italiana, Giorgia Meloni, e presidente dos EUA, Donald Trump, se cumprimentam na ‘cúpula de Gaza’, em Sharm el-Sheikh, no Egito
Suzanne Plunkett/Pool/Reuters
A relação ganhou novos contornos em janeiro, quando Trump voltou a defender a anexação da Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca.
A proposta foi rejeitada por países europeus, que chegaram a enviar militares para exercícios na ilha. Questionada sobre o assunto em uma coletiva de imprensa, Meloni tentou se equilibrar entre um tom conciliador e outro mais firme.
“Não acredito na hipótese de os EUA iniciarem uma ação militar na Groenlândia, com a qual eu não concordaria”, afirmou. “Acredito que o governo Trump, com seus métodos muito assertivos, está chamando a atenção para a importância estratégica da Groenlândia.”
Em fevereiro, quando os EUA atacaram o Irã em uma ação conjunta com Israel, a Itália foi surpreendida. O ministro da Defesa italiano estava de férias nos Emirados Árabes e precisou ser resgatado em um jato militar. O caso virou alvo de deboche da oposição.
“Por meses nos contaram que Meloni era a ponte entre Trump e a Europa. Hoje descobrimos que a Casa Branca avisou sobre a operação no Irã britânicos, franceses, alemães e até poloneses. Todos, menos nós, italianos. Que vergonha!”, escreveu o líder da oposição, Matteo Renzi.
Rapidamente, pesquisas apontaram que os italianos não apoiavam a ofensiva norte-americana. Além disso, a guerra fez os preços de gás e energia subirem no país. Tudo isso ocorreu no mesmo mês em que a Itália iria às urnas para votar uma reforma do Judiciário apoiada por Meloni.
Diante desse cenário, a premiê passou a condenar a guerra.
Nos primeiros dias do conflito, ela afirmou estar preocupada com o conflito e disse que os Estados Unidos agiram sem consultar aliados europeus.
Dias depois, Meloni declarou que a Itália não participaria da guerra.
Além disso, o ministro da Defesa italiano afirmou que o ataque contra o Irã “ocorreu fora das normas do direito internacional”.
Em mais um gesto, Meloni se recusou a permitir que caças dos Estados Unidos utilizassem uma base aérea na Sicília em operações de combate no Irã.
Ainda assim, a premiê acabou derrotada no referendo sobre a reforma judicial. O resultado fortaleceu a oposição, que enfrentava dificuldades em combater as políticas do governo.
Oportunidade
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, em 15 de abril de 2026
REUTERS/Remo Casilli
Segundo o The New York Times, especialistas avaliam que Meloni pode ter se aproveitado da crise entre Trump e o papa para romper com o presidente norte-americano. Analistas acreditam que um afastamento definitivo poderia mudar a percepção de eleitores italianos incomodados com os EUA.
Na terça-feira (14), em mais um movimento nesse sentido, ela anunciou que a Itália não renovaria um acordo de defesa com Israel. A medida foi adotada após disparos de advertência atingirem um comboio italiano que integra a missão de paz da ONU no sul do Líbano.
🔎 A decisão, segundo analistas ouvidos pela Associated Press, foi motivada mais pela política interna do que por uma mudança estratégica.
Enquanto isso, o ministro das Empresas e do Made in Italy, Adolfo Urso, afirmou que as relações entre Estados Unidos e Itália não serão abaladas pela controvérsia envolvendo o papa Leão.
“Itália e Estados Unidos são países aliados e mantêm sua relação e aliança dentro das instituições internacionais, começando, obviamente, pela Aliança Atlântica”, disse em entrevista à Radio 24.
Já Trump insistiu nesta quarta-feira que a relação entre os dois países se deteriorou. “Ela tem sido negativa”, disse em entrevista à Fox News.
“Qualquer um que se recusou a nos ajudar nessa questão do Irã não tem mais o mesmo relacionamento conosco.”
Por outro lado, Mariangela Zappia, ex-embaixadora da Itália nos Estados Unidos, afirmou que a crise pessoal entre Meloni e Trump não deve afetar as relações entre os dois países. Segundo ela, Trump tem agido de forma impulsiva após se frustrar com a Europa em relação ao Irã.
“A Europa considera absolutamente os Estados Unidos um aliado histórico, mas, de certa forma, quer participar das decisões que são tomadas”, disse Zappia à Associated Press.
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