Após mais de 50 dias, Juiz de Fora enfrenta cenário de destruição

Carro está preso em morro desde deslizamentos em Juiz de ForaDaniel Leite Andrade/iG

Ruas estão fechadas, casas interditadas e moradores sem saber quando poderão voltar para casa em Juiz de Fora, em Minas Gerais. Mais de cinquenta dias após as chuvas de 23 de fevereiro, a cidade ainda opera em ritmo de emergência, com liberação lenta de áreas atingidas e obras sem prazo definido.

O impacto afeta diretamente aa rotina, com circulação restrita em pontos críticos, famílias fora de casa e parte das intervenções ainda em fase de projeto ou busca de recursos, segundo a prefeitura. Por sua vez, o governo municipal não dá detalhes sobre os processos.

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A espera de quase dois meses

A tragédia deixou 65 mortos na cidade e faz parte de um cenário mais amplo na Zona da Mata mineira, com 72 vítimas. Desde então, a limpeza e o monitoramento da situação avançam, mas a reconstrução da estrutura da cidade, de quase 600 mil habitantes, não saiu do papel em várias áreas.

Nos bairros atingidos, a realidade é desigual. Há locais onde a retirada de terra e entulho já ocorreu, mas a liberação de circulação não veio. Ao todo, cerca de 34 mil metros cúbicos de resíduos foram removidos, segundo a administração municipal. Em outros bairros, nem isso foi feito. 

Rua Ewbank da Câmara, em Juiz de ForaDaniel Leite Andrade/iG

Na rua Ewbanck da Câmara, no bairro Mariano Procópio, na região central, a encosta segue coberta por lona, sem previsão de intervenção definitiva.

Curva da Miséria no bairro Cerâmica no fim de marçoDaniel Leite Andrade/iG

Perto dali, na chamada Curva da Miséria, no bairro Cerâmica, um dos trechos mais afetados na cidade, a liberação acontece de forma parcial e lenta. Cada avanço depende de nova vistoria técnica.

Carro pendurado no morro 

Nascente no bairro Jardim Natal estava com árvore tombada um mês após a tragédiaDaniel Leite Andrade/iG

No bairro Jardim Natal, onde houve deslizamentos e enchentes, equipes ainda fazem limpeza e acompanham a situacao do solo, com interdições definidas caso a caso.

No local, as imagens são impressionantes. Um carro segue parado em um deslizamento, dando a impressão de que pode cair a qualquer momento. 

Bairro Bom Jardim, em Juiz de ForaArquivo pessoal/Juliana Silva

No bairro Bom Jardim, a moradora Juliana Silva, bacharel em Direito, conta que vizinhos ainda estão fora de casa:

A prefeitura afirma que não há prazo único para liberação das áreas. Cada ponto depende de análise própria de risco.

Deslizamento no Morro do Cristo ainda trava acesso e obras

Uma das imagens mais marcantes da tragédia ainda não teve resposta. A encosta do Morro do Cristo, “cortada” por um deslizamento durante o temporal, permanece sem qualquer sinal de obra, quase dois meses depois das chuvas.

Chuva ”rasga” montanha em Juiz de ForaDivulgação/Prefeitura de Juiz de Fora

Na época, a tempestade chegou a quase 200 milímetros em menos de 24 horas e abriu uma faixa na montanha. O trecho bloqueia o acesso a uma das principais áreas da cidade, na Zona Oeste.

Segundo a prefeitura, as intervenções ainda estão em fase de projeto e captação de recursos. Para os moradores, a notícia não anima: não há qualquer prazo para as obras começarem.

Em bairros do entorno, os impactos continuam. No Vale do Ipê, imóveis sob risco foram totalmente interditados e seguem sem liberação.

A Estrada Engenheiro Gentil Forn, principal acesso ao morro, permanece fechada desde o deslizamento. A reabertura depende de laudo técnico que ateste segurança.

Durante o temporal, o ponto concentrou parte dos deslizamentos que também atingiram bairros como o Paineiras, com registros de soterramento.

Hoje, a área segue isolada e sem previsão de liberação.

Casas interditadas e demolições sem prazo

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu no bairro Jardim Natal. Sem acesso à casa interditada, uma família entrevistada pelo iG escreveu o próprio telefone no portão para tentar contato com a Defesa Civil.

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A resposta veio um mês depois com a confirmação de que o imóvel seria demolido.

A cena se repete em outras regiões. Casas permanecem fechadas, algumas sem vistoria concluída, outras já com decisão de demolição.

A prefeitura afirma que as definições são individuais e baseadas em análise técnica. Segundo o município, nenhuma família deve retornar a imóveis interditados sem liberação formal.

Na prática, isso mantém moradores fora de casa por tempo indefinido.

Mesmo com o fim das chuvas, o risco continua. A infiltração de água nas encostas mantém a possibilidade de novos deslizamentos dias ou semanas depois.

Cinquenta dias depois, a cidade ainda não saiu da fase de resposta à tragédia. A reconstrução, em vários pontos, ainda não começou.

O iG procura a Prefeitura de Juiz de Fora desde o dia 2 de março, para esclarecer pontos como o número atualizado de desabrigados e desalojados, o andamento da entrega de moradias, a situação das interdições viárias, e o cronograma de obras nas áreas mais atingidas. Até a última atualização desta reportagem, não houve retorno.

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