Durante séculos, ninguém sabia que um dos maiores tesouros da porcelana chinesa medieval estava submerso a poucos metros de profundidade, a menos de um dia de navegação de Singapura. O naufrágio do século XIV batizado de Temasek Wreck carregava a maior quantidade de porcelana azul e branca da Dinastia Yuan já recuperada de uma única embarcação, e só foi encontrado em 2015 por um mergulhador comercial.
Quatro anos de mergulhos em visibilidade zero para escavar o naufrágio
Equipes trabalharam no sítio entre 2016 e 2019 numa escavação que parecia simples pelo local ser raso, mas que se revelou extremamente lenta: as fortes correntezas e a visibilidade quase zero limitavam as imersões a aproximadamente uma vez a cada quatro semanas.
Ao final de quatro anos, foram recuperadas cerca de 3,5 toneladas de fragmentos cerâmicos da embarcação, provavelmente um junco chinês, tipo de navio de vela amplamente usado no comércio marítimo asiático medieval.

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Os 136 kg de porcelana Yuan que fazem deste navio um caso único
Do total cerâmico recuperado, 136 quilos, ou 3,9% do peso total, correspondem à porcelana azul e branca da Dinastia Yuan (1271–1368), produzida nos fornos imperiais de Jingdezhen, na província de Jiangxi. Os fragmentos identificaram ao menos 300 tigelas, além de peças quase intactas com padrões decorativos legíveis.
Os pesquisadores dataram a carga entre 1340 e 1352, uma janela que a torna especialmente rara. A instabilidade da Rebelião dos Turbantes Vermelhos, que antecedeu a queda da dinastia, reduziu drasticamente a produção e exportação da porcelana azul e branca nesse período.
O que mais estava no porão do naufrágio do século XIV?
A porcelana Yuan era apenas o item mais valioso de um carregamento muito mais amplo. A carga completa incluía peças de origens e estilos distintos, reforçando o perfil comercial da rota:
- Celadon Longquan (esmalte verde), maior fatia do carregamento, com cerca de 44,5% do peso cerâmico total.
- Louças qingbai e shufu de Jingdezhen.
- Porcelana branca de Dehua.
- Louças verdes de Fujian.
- Grandes jarros de armazenamento de Cizao e Fujian.

Por que a ausência de grandes pratos revela o destino desse achado?
A investigação do arqueólogo marinho Dr. Michael Flecker, do HeritageSG, chegou a uma conclusão reveladora: a ausência de grandes pratos rituais azuis e brancos, itens típicos de exportação para o Oriente Médio e o Oceano Índico, indica que o destino provável era Temasek, o assentamento pré-colonial de Singapura.
Recipientes menores identificados no naufrágio têm paralelos diretos com artefatos escavados em sítios terrestres singapurianos, como Fort Canning, reforçando essa conclusão.
O canal The Straits Times, com mais de 774 mil inscritos, publicou um vídeo que detalha a descoberta dos dois naufrágios encontrados nas proximidades de Pedra Branca, incluindo o Temasek Wreck e o navio mercante Shah Munchah, de 1796:
O naufrágio que reescreveu o papel de Singapura no comércio medieval
Até essa descoberta, o papel de Singapura nas rotas da Rota da Seda Marítima era reconstituído sobretudo por fontes textuais. O naufrágio transforma hipótese em evidência concreta: navios carregados com as porcelanas mais sofisticadas da China imperial tinham Temasek como destino, não apenas como escala.
Conforme os estudos publicados pela ScienceDirect e cobertos pela CNN, o achado oferece a primeira prova material robusta de que o assentamento pré-colonial já operava como entreposto comercial ativo em meados do século XIV, cerca de 650 anos antes de o mundo saber o que estava guardado naquelas águas rasas.
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