Você já sentiu que quanto mais livre parece ser, mais exausto fica? É exatamente essa contradição que o filósofo Byung-Chul Han passou décadas tentando explicar. Para ele, o problema não está no chefe que te pressiona, mas na voz interna que nunca deixa de cobrar. E a solução, surpreendentemente, começa em casa.
Quem é Byung-Chul Han e por que ele importa agora?
Byung-Chul Han é um filósofo sul-coreano radicado em Berlim e professor da Universidade das Artes de Berlim. Em 2025, recebeu o Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades pelo conjunto de sua obra crítica sobre a sociedade do cansaço e o capitalismo digital, consolidando um reconhecimento internacional que já vinha crescendo desde a tradução de seus livros para o espanhol e o português.
Sua recepção no Brasil foi especialmente intensa nos círculos acadêmicos de ciências sociais, psicanálise e educação, onde o conceito de autoexploração passou a ser mobilizado para discutir burnout docente, trabalho remoto e saúde mental de estudantes.

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O que é a sociedade do desempenho segundo Byung-Chul Han?
O argumento central de Han, desenvolvido em A Sociedade do Cansaço (publicado em alemão em 2010 e em português pela Vozes em 2015), parte de uma inversão histórica. Michel Foucault descreveu a modernidade como “sociedade disciplinar”, em que o poder opera de fora para dentro, por meio de normas e punição. Han argumenta que passamos para outro modelo:
| Modelo | Como o poder opera | Sintoma principal |
|---|---|---|
| Sociedade disciplinar (Foucault) | De fora para dentro, via normas e vigilância | Obediência forçada |
| Sociedade do desempenho (Han) | De dentro para fora, via autoexigência voluntária | Burnout, ansiedade e depressão |

Por que o smartphone nos recruta sem que percebamos?
Na fase mais recente de seu pensamento, Byung-Chul Han expandiu a crítica para o capitalismo de plataforma. Cada post, cada like e cada tempo de tela gera valor para as plataformas sem que o usuário receba compensação ou sequer perceba que está trabalhando. O smartphone, nesse diagnóstico, não simplesmente nos serve: nos recruta como trabalhadores não remunerados.
Os sintomas dessa condição, segundo Han, se manifestam de formas distintas no cotidiano:
- Burnout e ansiedade crônica, tratados como falha pessoal quando são respostas sistêmicas à autoexploração.
- Incapacidade de entediar-se, resultado da superestimulação permanente que elimina o espaço para reflexão.
- Perda do sentido narrativo, quando nada dura tempo suficiente para ser transformado em experiência real.
O que Han quer dizer com “ficar em casa” como resistência?
O capitalismo contemporâneo, diz Han, “despreza o vazio e o silêncio” precisamente porque são irredutíveis ao desempenho e à monetização. A casa, quando se transforma em espaço de desconexão voluntária, torna-se o que ele chama de bastião de liberdade: o único lugar onde não é preciso performar, publicar ou justificar como o tempo é gasto.
Han é explícito em distinguir essa proposta do isolamento. Ficar em casa não é esconder-se do mundo, é reconstruir um ponto de apoio interno a partir do qual seja possível reengajar com o trabalho e a comunidade com mais clareza. Em termos práticos, o filósofo sugere cultivar o tédio criativo, recuperar rituais pessoais e redescobrir o valor da demora, o que ele chama, em outros textos, de “práxis da demora”.
Para entender em profundidade o pensamento de Byung-Chul Han sobre a sociedade do cansaço, o canal CLINICAND, com mais de 10,4 mil inscritos, legendou o documentário completo de 2015 que acompanha o filósofo entre Berlim e Seul:
Como o pensamento de Han é aplicado no Brasil?
O conceito de autoexploração de Byung-Chul Han encontrou terreno fértil no debate brasileiro sobre saúde mental. Pesquisas publicadas na SciELO mobilizam sua obra para discutir burnout docente, adoecimento no trabalho remoto e pressão por produtividade em ambientes acadêmicos, temas que ganharam urgência depois da pandemia.
Conforme detalhado em entrevistas concedidas após o Prêmio Princesa das Astúrias, Han resume o diagnóstico com uma frase que inverte o senso comum: o explorador e o explorado são a mesma pessoa, e a liberdade que achamos ter é muitas vezes a gaiola que construímos para nós mesmos.
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