Você consegue imaginar um navio de quase 2.500 anos sendo puxado do fundo do mar com o casco, o leme e até a carga ainda no lugar? Isso aconteceu de verdade em três mares diferentes. Um deles estava tão preservado que os arqueólogos encontraram 381 ânforas e 9.000 amêndoas que ainda mantinham a forma original após 24 séculos submersas.
Por que o Navio de Kyrenia é o mercante mais estudado da Antiguidade?
Em novembro de 1965, o mergulhador cipriota Andreas Cariolou avistou, a cerca de 30 metros de profundidade na costa norte de Chipre, uma forma estranha no leito marinho. Era o que seria chamado de Navio de Kyrenia, uma embarcação mercante grega do século IV a.C. e um dos achados mais notáveis da arqueologia náutica.
As escavações formais, conduzidas pelo arqueólogo Michael Katzev entre 1968 e 1969, trouxeram à superfície um retrato vivo das rotas comerciais mediterrâneas. A diversidade de origem dos artefatos revela até onde esse navio circulava antes de afundar. Os principais itens recuperados foram:
- 381 ânforas de transporte originárias de Rodes, Cnido, Samos, Cós, Palestina, Egito e Chipre
- Mais de 9.000 amêndoas perfeitamente preservadas, encontradas em jarras e dentro do casco
- 29 mós de pedra da ilha de Cós, com letras de identificação gravadas pelos pedreiros, posicionadas sobre a quilha como lastro
- Lingotes de ferro e utensílios pessoais da tripulação
Uma revisão publicada em 2024 no periódico Radiocarbon, usando nova curva de calibração do carbono-14, apontou que a última viagem do navio ocorreu entre 294 e 290 a.C. O casco restaurado está exposto no Museu de Naufrágio Antigo de Kyrenia, no norte de Chipre.

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Por que o naufrágio do Mar Negro é considerado o navio intacto mais antigo já encontrado no mundo?
Em 2018, o projeto internacional Black Sea MAP, liderado pelo professor Jon Adams da Universidade de Southampton, anunciou uma descoberta sem precedentes: um navio mercante grego de aproximadamente 400 a.C., encontrado a mais de 2.000 metros de profundidade e a 80 km da costa de Burgas, na Bulgária.
O segredo de sua conservação está na natureza única do Mar Negro: abaixo de 200 metros, a água é completamente anóxica, sem oxigênio, impedindo a decomposição de matéria orgânica por bactérias. O estado em que o navio foi encontrado contrariou qualquer expectativa razoável da equipe de pesquisadores.

Como foi descoberto o naufrágio grego confirmado na Croácia em 2025?
Em 2025, arqueólogos do Instituto Croata de Conservação confirmaram oficialmente o achado de um navio mercante grego do século IV a.C. nas águas próximas à ilha de Vis, no Mar Adriático. O local, avistado inicialmente em 2023 a 30–50 metros de profundidade, revelou um conjunto de artefatos que ilumina o cotidiano dos colonos gregos naquela região. Os principais itens encontrados foram:
- Ânforas com azeite de oliva, especiarias e alimentos preservados
- Cerâmica helenística fina em bom estado de conservação
- Itens pessoais e restos humanos da tripulação
- Seção do casco em madeira notavelmente intacta
“Alguns itens emergindo do sedimento parecem ter sido feitos ontem”, declarou o mergulhador Marko Lete à televisão pública croata. O arqueólogo-chefe Jurica Bezak afirmou: “Este sítio não tem igual na região.” Os artefatos recuperados serão exibidos no museu da ilha de Vis ao fim das escavações, que devem se estender por vários anos.
O que preservou esses navios por mais de dois milênios?
Cada um dos três naufrágios deve sua sobrevivência a condições ambientais muito específicas. Não se trata de sorte: trata-se de química, profundidade e sedimentação agindo como guardiões involuntários durante séculos. A tabela abaixo compara os fatores de preservação e o estado de cada embarcação:
| Navio | Localização | Profundidade | Fator de preservação |
|---|---|---|---|
| Navio de Kyrenia (~290 a.C.) | Costa norte de Chipre | 30 m | Sedimentação protetora sobre o casco |
| Navio do Mar Negro (~400 a.C.) | Costa da Bulgária | 2.000 m | Água anóxica sem oxigênio abaixo de 200 m |
| Navio de Vis (~séc. IV a.C.) | Mar Adriático, Croácia | 30–50 m | Sedimentação e baixa perturbação do local |
Juntos, os três navios formam um painel privilegiado das rotas comerciais gregas: conexões que uniam Rodes, Atenas, Chipre, as colônias adriáticas e as margens do Mar Negro. A técnica de construção “shell-first” (casca antes da estrutura interna), confirmada em Kyrenia e no naufrágio de Antikythera, escavado em 2025, demonstra a sofisticação da engenharia naval grega. O Navio de Kyrenia, em particular, transformou o que os arqueólogos sabiam sobre a construção naval mediterrânea.
Madeira de 2.400 anos emerge do fundo do mar pronta para zarpar
O que mais impressiona nesses achados não é apenas a antiguidade dos navios, mas o estado em que foram encontrados. Madeira que deveria ter se dissolvido há séculos permanece firme. Ânforas com alimentos ainda identificáveis. Utensílios pessoais de tripulantes que navegaram o Mediterrâneo antes de Cristo.
Cada novo navio encontrado no leito marinho é um arquivo histórico que sobreviveu por acaso às condições certas. E, à medida que a tecnologia de exploração subaquática avança, a arqueologia encontra cada vez mais desses arquivos intactos, esperando para contar o que os livros de história não puderam registrar.
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