Carfentanil: anestésico para elefantes eleva mortes por overdose

Carfentanil: anestésico para elefantes eleva mortes por overdose nos EUAArte gerada por IA

Uma substância usada para sedar animais de grande porte registrou um aumento de 720% nas mortes nos Estados Unidos entre o primeiro semestre de 2023 e o mesmo período de 2024. O carfentanil, um análogo do fentanil, é cerca de 100 vezes mais potente que o próprio fentanil e até 10 mil vezes mais forte que a morfina.

Após praticamente desaparecer depois dos surtos de overdose registrados entre 2016 e 2017, a substância voltou a aparecer em novos registros. A partir de 2023, as mortes com detecção de carfentanil aumentaram cerca de sete vezes, segundo o Relatório Semanal de Morbidade e Mortalidade dos EUA.

Diferentemente do período anterior, quando os casos eram mais localizados e apenas 25% estavam associados ao fentanil, os registros recentes foram identificados em 37 estados, com 87% das mortes envolvendo múltiplas substâncias.

Em muitos casos, o carfentanil é utilizado como adulterante em heroína e pode estar presente também em comprimidos falsificados e outros produtos ilegais. Em setembro de 2025, a Administração de Repressão às Drogas dos EUA emitiu um alerta sobre a presença da substância no mercado de drogas recreativas, frequentemente disfarçada como heroína.

O que é o carfentanil

Comprimidos de carfentanil apreendidos por agentes do Departamento da Administração de Combate às Drogas dos EUA Divulgação/Administração de Combate às Drogas dos EUA

O carfentanil é um dos opioides mais potentes já desenvolvidos. Ele foi sintetizado em 1974 pela farmacêutica Janssen e introduzido como anestésico veterinário para animais de grande porte, como elefantes e rinocerontes.

Antes de ganhar notoriedade no tráfico de drogas, a substância chegou a ser estudada como possível arma química por diversos países, incluindo Estados Unidos, Rússia e China. Seu uso em conflitos é proibido pela Convenção sobre Armas Químicas.

Embora a dose letal exata seja desconhecida, estimativas indicam que uma quantidade inferior a uma semente de papoula, cerca de 2 miligramas, pode ser suficiente para causar a morte de um adulto.

Caso histórico: crise dos reféns em Moscou

O carfentanil também é associado a um episódio marcante ocorrido em 2002, durante a crise dos reféns no teatro Dubrovka, em Moscou.

Na ocasião, cerca de 50 combatentes chechenos invadiram o local e fizeram mais de 900 pessoas reféns, exigindo a retirada das forças russas da Chechênia. Após dias de impasse, forças especiais russas lançaram um gás no sistema de ventilação do teatro antes de invadir o local.

A operação resultou na morte da maioria dos sequestradores, mas também provocou a morte de dezenas de reféns, principalmente devido à falta de preparo médico para lidar com a substância utilizada.

Dias depois, autoridades russas confirmaram que o gás era derivado do fentanil. Estudos posteriores indicam que a composição provavelmente incluía carfentanil e remifentanil, segundo um artigo publicado na revista Military Medicine. 

Produção e circulação internacional

Em 2016, investigações da imprensa internacional apontaram que empresas chinesas comercializavam carfentanil para exportação. A Associated Press identificou ao menos 12 companhias que ofereciam a substância para países como EUA, Canadá e Reino Unido.

A China é frequentemente citada por autoridades americanas como uma das principais origens de drogas sintéticas. Em 2017, o país incluiu o carfentanil em sua lista de substâncias controladas.

Mais recentemente, em 2025, o governo chinês reforçou medidas de controle, restringindo a produção, venda e exportação de compostos relacionados ao fentanil, que passaram a depender de autorização e licenciamento específicos.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.