Quem em Teerã influencia as negociações entre os EUA e o Irã

Desde 8 de abril, os Estados Unidos buscam um acordo com o Irã para encerrar a guerra. No entanto, as conversações, conduzidas por meio de mediadores, estão estagnadas.
O impasse se agravou no fim de semana passado, depois que o ministro do Exterior do Irã, Abbas Araghchi, deixou o Paquistão sem demonstrar qualquer intenção de dialogar com Washington, que, por sua vez, cancelou a viagem a Islamabad dos enviados especiais Steve Witkoff e Jared Kushner.
Segundo o portal de notícias Axios, o Irã apresentou aos EUA uma nova proposta de negociação para reabrir o Estreito de Ormuz, pôr fim à guerra e adiar as negociações sobre o programa nuclear iraniano.
O presidente dos EUA, Donald Trump, vê a razão para o impasse na situação caótica da política interna iraniana.
“O Irã está tendo grandes dificuldades para descobrir quem realmente é o seu líder”, escreveu ele na quinta-feira passada (23/04) na rede social Truth Social. Haveria uma disputa de poder entre os “linhas-duras” e os “moderados, que nem são tão moderados assim, mas que vêm ganhando aceitação”.
No mesmo dia, a emissora CNN informou que os militares dos EUA estariam planejando, entre outras ações, ataques direcionados contra líderes militares iranianos específicos, bem como contra outras pessoas que, na avaliação americana, estariam sabotando ativamente as negociações.
No topo dessa lista deve estar Ahmad Vahidi, que desde março de 2026 está à frente da Guarda Revolucionária do Irã.
Ahmad Vahidi, comandante-chefe da Guarda Revolucionária
Como comandante-chefe da Guarda Revolucionária do Irã, Vahidi, de 68 anos, sucedeu Mohammad Pakpour, que foi morto em 28 de fevereiro de 2026 junto com vários comandantes de alto escalão da Guarda Revolucionária, durante uma reunião com o então líder supremo, Ali Khamenei.
Vahidi não é um desconhecido nem no Irã nem fora do país. Desde 2007, a Interpol, uma organização internacional de cooperação policial criminal, o procura por seu suposto envolvimento no atentado a bomba contra o centro comunitário judaico Amia (Asociación Mutual Israelita Argentina), em Buenos Aires.
Investigadores argentinos consideram Vahidi um dos mentores daquele ataque, que deixou 85 mortos e mais de 300 feridos. À época do atentado, Vahidi era comandante da Força Quds, uma unidade de elite da Guarda Revolucionária do Irã que é responsável por operações no exterior.
Vahidi ingressou na Guarda Revolucionária aos 20 anos e fez carreira durante a Guerra Irã-Iraque (que ocorreu entre 1980 e 1988). Posteriormente tornou se comandante da Força Quds, cargo que ocupou até 1997.
Ele é considerado um aliado próximo dos linha duras. Sob o presidente Mahmoud Ahmadinejad (2009 2013), foi ministro da Defesa. Sob o presidente Ebrahim Raisi, Vahidi foi ministro do Interior entre 2021 e 2024.
Durante o movimento de protesto Mulher, Vida, Liberdade, após a morte da mulher curda iraniana Jina Mahsa Amini sob custódia policial em 2022, Vahidi foi considerado uma das figuras centrais na repressão dos protestos e um defensor ferrenho da obrigatoriedade do uso do véu.
Segundo fontes iranianas, Vahidi também faria parte do círculo interno das pessoas que mantêm contato direto com o novo líder supremo da revolução islâmica, Mojtaba Khamenei.
Na avaliação dos think tanks americanos Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) e Critical Threats Project (CTP), a atual situação no Irã indica que Vahidi pode se fortalecer na disputa interna de poder mais do que o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, que é associado ao campo moderado, o qual defende negociações diretas com os EUA.
Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento
Ghalibaf é um dos políticos mais influentes do país, também com ligações estreitas com a Guarda Revolucionária. Desde 2020, ele é o presidente do Parlamento iraniano.
Nascido em 1961, juntou se à Guarda Revolucionária após a revolução. Durante a guerra entre o Irã e o Iraque, foi comandante da Guarda Revolucionária e posteriormente ascendeu ainda mais no aparato de segurança.
Como presidente do Parlamento, ele conduziu as primeiras negociações diretas com os EUA no Paquistão. Ainda não está claro se continuará exercendo esse papel.
Conflitos internos com forças ultrarradicais sobre o rumo das negociações são oficialmente negados. Na disputa interna de poder, Ghalibaf teria alertado internamente de forma contundente sobre a influência de figuras como Saeed Jalili, que, segundo ele, “destruirão o Irã”. De acordo com o portal iraniano de notícias Jamaran, um assessor do presidente do Parlamento negou essas informações.
Said Jalili, o linha dura
A emissora americana Fox News informou em 26 de abril que Jalili, um “ultralinha dura que zombou de Trump”, estaria prestes a assumir as negociações sobre as questões nucleares. Não há confirmação oficial do Irã sobre uma mudança na equipe de negociação.
Jalili, que nasceu em 1965, é um dos linhas-duras mais conhecidos do sistema político iraniano e rejeita qualquer aproximação com o Ocidente. Como muitos de sua geração, alistou se voluntariamente no Exército durante a Guerra Irã-Iraque e perdeu parte da perna direita em combate. Após a guerra, iniciou sua carreira no Ministério do Exterior em 1989.
Mais tarde, trabalhou no gabinete do líder supremo e foi, de 2007 a 2013, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional e, simultaneamente, chefe negociador do programa nuclear. Nesse papel, conduziu as negociações com o Ocidente numa direção cada vez mais confrontacional, contribuindo para novas sanções da ONU contra o Irã.
Após as recentes declarações de Trump, posicionou se de forma demonstrativa ao lado do governo e apoiou a linha oficial iraniana. Jalili e outros dirigentes publicaram nas redes sociais mensagens praticamente idênticas, afirmando: “No nosso Irã não existem linhas duras nem moderados”.
A mensagem continuava: “Todos nós somos ‘iranianos’ e ‘revolucionários’, e com a unidade de ferro entre povo e Estado, em completa lealdade ao Líder Supremo da Revolução, obrigaremos o agressor criminoso a se arrepender”.
Mojtaba Khamenei, o líder supremo do Irã
O líder supremo é Mojtaba Khamenei, nascido em 1969, segundo filho do ex-líder supremo iraniano Ali Khamenei. Após a morte do pai, em fevereiro de 2026, ele foi escolhido pela Assembleia dos Peritos, composta por 88 membros, como sucessor e novo líder supremo.
Desde que assumiu o cargo, em 8 de março de 2026, seus apoiadores aguardam um sinal público. Até hoje, porém, não há vídeo oficial nem gravação de áudio dele. Ao contrário de seu pai ou do líder da Revolução, o aiatolá Ruhollah Khomeini, Mojtaba não é conhecido como orador e sempre atuou nos bastidores.
Muitos se perguntam se ele de fato sobreviveu ao ataque com cerca de 30 mísseis contra os complexos residenciais e de escritórios de seu pai.
Segundo uma reportagem do New York Times, ele estaria gravemente ferido e sendo tratado num local secreto, sem comunicação eletrônica e sob a supervisão de um pequeno círculo de médicos de confiança. De acordo com a reportagem, o presidente Masoud Pezeshkian, cirurgião cardíaco, também estaria envolvido em seu tratamento.
Masoud Pezeshkian, o presidente
Pezeshkian é presidente do Irã desde julho de 2024. Nascido em 1954 em Mahabad, é cirurgião cardíaco de formação e foi ministro da Saúde entre 2001 e 2005, durante o governo do presidente Mohammad Khatami. Mais tarde, foi por muitos anos deputado por Tabriz e, de 2016 a 2020, vice-presidente do Parlamento.
No sistema político do Irã, o presidente está hierarquicamente abaixo do líder supremo, que detém o controle efetivo sobre as Forças Armadas, a Guarda Revolucionária, o Judiciário e a política externa estratégica.
Pezeshkian enfatiza repetidamente a necessidade de negociações com os EUA e defende “conversas justas e em pé de igualdade”. Ele apoia oficialmente Ghalibaf, que, como presidente do Parlamento, estabeleceu os primeiros contatos diretos nas negociações com os EUA no Paquistão.
Abbas Araghchi, o ministro do Exterior
Araghchi também reforça essa mensagem em suas declarações públicas. Nascido em 1962, Araghchi é ministro do Exterior do Irã desde 2024 e o rosto público das negociações com os EUA.
Ainda adolescente, participou da Revolução Iraniana e lutou na Guerra Irã-Iraque como membro da Guarda Revolucionária. Araghchi ingressou no Ministério do Exterior em 1989 e foi, entre outros cargos, embaixador na Finlândia (1999-2003) e no Japão (2007-2011), além de ter ocupado diversas vezes os cargos de vice-ministro e porta voz do ministério. Em 2015, foi o chefe negociador do Irã nas conversações que levaram ao Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), conhecido como o acordo nuclear iraniano.
Nos últimos dias, Araghchi viajou para o Paquistão e Omã e, nesta segunda feira (27/04), para a Rússia, para manter conversações. Ao mesmo tempo, encontra se no centro de intensas atividades diplomáticas.
A agência de notícias iraniana Fars, próxima à Guarda Revolucionária, informou ainda que o Irã teria enviado “mensagens escritas” ao governo dos EUA por meio do Paquistão. Essas mensagens tratariam das “linhas vermelhas da República Islâmica do Irã”, incluindo o programa nuclear e o Estreito de Ormuz. Segundo a reportagem, porém, esses temas não fazem parte das negociações oficiais.
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