Quando assistir descarrilamentos era diversão popular nos EUA

Imagem colorizada por inteligencia artificial do momento do impacto de duas locomotivas.. (Crédito da foto: Jervis C. Deane/ Wikimedia Commons via Domínio Público)

Ter um hobby é muito importante, porém, durante quase quatro décadas, milhares de pessoas em diferentes regiões dos Estados Unidos cultivaram um passatempo bastante incomum, e nada tranquilo e usual. Elas se reuniam para assistir a colisões de trens encenadas.

Mas por que isso atraía tanta gente?

Primeiro, havia o fator novidade. No fim do século XIX, o trem era o símbolo máximo da modernidade e da velocidade, os carros ainda estavam em desenvolvimento e aviões sequer existiam. Imagine só, para aquelas pessoas ver duas máquinas gigantes se destruindo era algo quase “apocalíptico” para a imaginação da época.

Segundo, existia uma lógica de espetáculo muito forte nos Estados Unidos daquele período. Feiras, circos e shows itinerantes competiam por atenção. E o “choque” visual de uma colisão de trens era garantia de público — um tipo de entretenimento extremo antes da televisão, do cinema de ação ou dos esportes modernos.

Terceiro, havia um elemento psicológico simples: o ser humano é atraído por eventos de destruição controlada. O mesmo impulso que hoje explica o sucesso de vídeos de acidentes, explosões ou esportes radicais também estava lá desde sempre..  

A colisão na Feira Estadual da Califórnia de 1913, em Sacramento. (Foto McCurry/Biblioteca Estadual da Califórnia)

E, por fim, havia marketing puro. Alguns desses eventos eram promovidos por companhias ferroviárias como propaganda, para atrair passageiros e vender ingressos para cidades inteiras montadas ao redor do evento. O famoso “Crash at Crush”, no Texas, chegou a reunir cerca de 40 mil pessoas

Mas é preciso dizer que esse era um passatempo bem perigoso, por exemplo, em um dos mais famosos acidentes ferroviários encenados aconteceu em 15 de setembro de 1896, nos arredores de Waco. Duas locomotivas avançaram uma contra a outra em alta velocidade. No momento da colisão, ambas as caldeiras explodiram, lançando destroços a centenas de metros de distância.

Pelo menos duas pessoas que assistiam ao evento morreram devido ao impacto. Outro espectador teve o olho perfurado por um pedaço de metal arremessado pela explosão. Fragmentos das máquinas também deixaram diversas outras pessoas gravemente feridas e desfiguradas. Ainda assim, o perigo não afastou o público. Pelo contrário: mais de 40 mil pessoas compareceram para testemunhar o espetáculo, apesar dos riscos evidentes envolvidos.

Colisão de trens nos arredores de Waco, Texas, em 15 de setembro de 1896. (Crédito da foto: Jervis C. Deane / Wikimedia Commons, domínio público)

Esta colisão de trens realizada em setembro de 1896 foi liderada por William George Crush. Apesar do enorme sucesso do espetáculo, Crush não foi o primeiro empresário a apostar nesse tipo de atração. Meses antes, um homem chamado A.L. Streeter já havia organizado o primeiro evento de colisão ferroviária ao vivo. Na época, um jornal descreveu a apresentação de Streeter como “o espetáculo mais realista e caro já produzido para o entretenimento do público americano”.

O evento organizado por A.L. Streeter fez tanto sucesso que empresários, entre eles William George Crush, rapidamente começaram a planejar novas colisões ferroviárias.

A maioria dessas apresentações seguia praticamente o mesmo modelo. Os organizadores instalavam um trecho de trilhos exclusivo para o espetáculo, que podia variar entre cerca de 550 metros e mais de 1,5 quilômetro de extensão. Em cada extremidade da linha, posicionavam duas locomotivas antigas, muitas vezes já fora de uso comercial. Não eram máquinas novas, justamente porque o objetivo era o espetáculo, não o transporte. Essas locomotivas eram cuidadosamente abastecidas com combustível e água suficientes para garantir potência máxima no momento da colisão.

O mais interessante é o método de preparação. As máquinas eram colocadas de frente uma para a outra, alinhadas com precisão. Em alguns casos, os trilhos eram reforçados apenas o suficiente para suportar a aceleração, mas não necessariamente o impacto final, a intenção era garantir o maior dano possível no acidente.

As locomotivas eram então levadas para trás até os pontos de partida, e liberadas simultaneamente. Muitas vezes, dois maquinistas eram contratados apenas para acelerar até o limite e saltar das locomotivas pouco antes do choque, uma prática extremamente perigosa.

O público ficava a uma distância considerada “segura” (para os padrões da época), mas ainda assim relativamente próxima. Havia arquibancadas improvisadas, barracas de comida, fotógrafos e até bandas tocando para entreter a multidão enquanto aguardavam o impacto.

Uma multidão explora os destroços de duas locomotivas após uma colisão frontal que terminou em explosão, 1896. (Crédito da foto: Jervis C. Deane / Wikimedia Commons, domínio público)

Quando as locomotivas finalmente colidiam, o resultado era dramático: metal retorcido, vapor explodindo, peças voando e um som descrito como “um trovão de aço”. Era esse momento que justificava o ingresso pago, uma mistura de curiosidade tecnológica com puro espetáculo de destruição. Depois do acidente as pessoas lotavam o local para olhar de perto o resultado da colisão e até tirar fotos.

Homens posam com trens retorcidos na Feira Estadual da Califórnia em Sacramento, por volta de 1914–1916. McCurry Foto/Biblioteca Estadual da Califórnia

O mais incrível e que esse não era um evento que aconteceu uma ou duas vezes, eram eventos que aconteciam com bastante frequência.

Para se ter uma ideia, somente um dos organizadores que se chamava Joe Connelly, organizou pelo menos 70 acidentes ferroviários encenados entre 1896 e 1932. Durante esse período, ele teria destruído mais de 146 locomotivas, o que lhe rendeu o apelido de “Head-On Joe”(“Joe da Colisão Frontal).

Esta curiosa fascinação dos Estados Unidos por colisões de trens começou a perder força somente na década de 1930. O principal motivo foi a Grande Depressão. Com menos dinheiro, o público já não conseguia pagar para assistir a esses eventos que eram caros, e a destruição de locomotivas passou a ser vista como um desperdício em tempos de crise e depois em tempos de guerra.

As duas locomotivas a vapor destruídas intencionalmente durante as filmagens de Denver and Rio Grande, em 1951.Reprodução

Em 1932, “Head-On Joe” finalmente se aposentou e realizou seu último acidente ferroviário encenado na Feira Estadual de Iowa. Porém, o último “desastre” de trem encenado para o público realmente aconteceu em 1935, embora duas locomotivas a vapor ainda tenham sido destruídas intencionalmente durante as filmagens de Denver and Rio Grande, em 1951.

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