Flávio prova que extrema-direita é um projeto de enriquecimento

Cenas de Dark Horse, que conta a história de Jair BolsonaroReprodução/redes sociais

Jair Bolsonaro, quando era ainda um tenente do Exército nos anos 1980, já demonstrava “excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente”. Quem diz isso não é um adversário do campo progressista, mas a Diretoria de Cadastro e Avaliação do extinto Ministério do Exército, na época comandado por Leonidas Pires Gonçalves.

Aos 28 anos, segundo os superiores, ele dava “mostras de imaturidade ao ser atraído por empreendimento de ‘garimpo de ouro’”. Tudo porque, durante as férias, ele foi até a cidade de Saúde, próximo de Jacobina, na Bahia, na companhia de três tenentes e dois sargentos paraquedistas cooptados, e que “estavam sob seu comando”, em busca de metais preciosos. A brincadeira rendeu um processo daqueles.

Superior de Bolsonaro, o coronel Carlos Alfredo Pellegrino até tentou demovê-lo da ideia, mas foi vencido pela “grande aspiração” demonstrada pelo futuro presidente. O sonho de Bolsonaro era  “desfrutar das comodidades que uma fortuna pudesse proporcionar”.

Bolsonaro, até onde se sabe, não ficou rico com o empreendimento irregular. Mas nem por isso desistiu do sonho.

Sob risco de expulsão, ele pavimentou ainda no Exército um caminho sem volta até a política, onde trabalhou pouco e ganhou muito. Inclusive projeção nacional.

Mesmo sem projeto nenhum, a família vive bem, obrigado, desde que transformou o ódio em plataforma política e passou a faturar o engajamento com voto, prestígio e bens adquiridos de maneira suspeita.

Quem leu o livro “O negócio do Jair”, de Juliana da Piva, sabe como o patriarca, e depois os filhos, fizeram da vida pública um grande empreendimento privado. A obra descreve o enriquecimento do clã através de um esquema sistemático de desvio de dinheiro público, como as “rachadinhas operadas ao longo de décadas. Uma técnica passada de pai para filho que depois só se sofisticou.

O livro detalha o uso de funcionários fantasmas, transações massivas em dinheiro vivo e a aquisição de imóveis para ocultar a origem ilícita dos valores. O primogênito, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por exemplo, já foi acusado de usar um operador, o ex-PM Fabrício de Queiroz, para recolher dinheiro vivo do salário dos funcionários do gabinete do então deputado estadual pelo Rio. A maioria dos contratados era “fantasma”, entre eles familiares do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, chefe de uma milícia carioca. O pai também mantinha funcionários fantasmas em seu gabinete, em Brasília. Uma delas batia ponto na capital e trabalhava como personal trainer no Rio. Um milagre da física quântica.

Flávio é suspeito de operar um esquema de lavagem de dinheiro por meio de uma franquia de lojas de chocolates e compras subfaturadas de apartamentos no Rio.

De lar em lar, ele comprou uma mansão no Lago Sul de Brasília por quase R$ 6 milhões, valor incompatível com seu patrimônio. Detalhe é que ele só adquiriu o imóvel graças a um empréstimo generoso, de R$ 3,1, obtido com o Banco de Brasília – o mesmo que, sob o comando do governador bolsonarista do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, ignorou os alertas e colocou em risco a própria saúde financeira da instituição ao adquirir o Banco Master, de Daniel Vorcaro. 

O mesmo Vorcaro, agora se sabe, atuou como uma espécie de mecenas do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro produzido pela nata da extrema-direita. Essa turma quer tirar logo seu chefe da cadeia para voltar aos tempos em que podia colocar no bolso presentes da monarquia saudita em troca de outros favores.

Em um telefonema, Flávio cobrou do banqueiro a liberação de recursos para viabilizar o filme sobre o pai – o cavalo do título, ao que parece, Coisa pouca, cerca de R$ 62 milhões – valor superior ao dos últimos sucessos brasileiros no exterior, “O Agente Secreto” (R$ 28 milhões) e “Ainda Estou Aqui” (R$ 45 milhões). 

Nem o mais declarado fã do pré-candidato a presidente acredita que, a essa altura, o Zero Um tenha se convertido em incentivador do cinema nacional. O empenho por um filme de nicho, que só os eleitores mais fanáticos teriam interesse em assistir, diz quase tudo.

Vorcaro, quando decidiu ajudar o amigo, já havia comprado metade de Brasília em busca de uma suposta imunidade para as trapaças do Banco Master. Inclusive o futuro marqueteiro de Flávio, acusado de receber dinheiro para promover uma campanha suja, nas redes, de ataques ao Banco Central quando os interesses da instituição foram barrados pela autoridade monetária.

Que ninguém duvide: ninguém ali tem projeto algum para o país ou o cinema nacional. Tirando a raiva de uma classe política que nunca chamou os pangarés para a festa (e agora chamam), o único elemento agregador da turma toda, é tomar conta das instituições, limpar o que atrapalhar no caminho, e sugar tudo o que tiver pela frente. É o que faz Donald Trump nos Estados Unidos e outros cleptocratas enrustidos de conservadores. 

A extrema-direita é um grande projeto de enriquecimento pessoal.

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