
Pedestres enfrentam calor e tempo seco na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo (SP), nesta tarde de domingo, 1º de setembro de 2024.
FÁBIO VIEIRA/FOTORUA/ESTADÃO CONTEÚDO
As temperaturas mínimas e máximas do ar na cidade de São Paulo aumentaram muito acima da média global nos últimos 125 anos, segundo estudos apresentados por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP).
Enquanto a temperatura média do planeta subiu cerca de 1,2°C desde 1900, a capital paulista registrou aumento de 2,4°C nas máximas diárias e de 2,8°C nas mínimas.
Segundo os pesquisadores, o principal motivo para o aquecimento mais intenso em São Paulo é o fenômeno conhecido como “ilha de calor urbana”, causado pela substituição de áreas verdes por asfalto, concreto e edificações.
Os dados foram apresentados pelo professor Humberto Ribeiro da Rocha, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP), durante o encontro “Eventos extremos de calor e água: Mitigando os efeitos adversos das mudanças climáticas na saúde das cidades”, promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pela Organização Neerlandesa para Pesquisa Científica (NWO).
A chamada ilha de calor acontece quando regiões urbanizadas acumulam e retêm mais calor do que áreas com vegetação. Materiais como concreto, alvenaria e asfalto absorvem energia solar ao longo do dia e liberam esse calor lentamente, dificultando o resfriamento da cidade, especialmente durante a noite.
No caso da capital paulista, os pesquisadores observaram que o aumento da temperatura mínima, normalmente registrada por volta das 6h, foi ainda maior do que o da máxima. Isso significa que as noites ficaram mais quentes ao longo das últimas décadas.
“Ao olhar a distribuição das ilhas de calor ao longo do Estado de São Paulo, notamos que há uma grande concentração na região nordeste, onde também há o cultivo em larga escala de cana-de-açúcar e, pontualmente, em algumas cidades, como as da Região Metropolitana de São Paulo, onde as áreas mais quentes são as com maior densidade populacional”, afirmou Rocha.
Consumidores em busca de ventiladores e produtos que amenizam o calor nas lojas do entorno da 25 de Março, na região central de São Paulo, na tarde de ontem, 14 de novembro de 2023. Vendedores de água, leques e piscinas infláveis aproveitaram para lucrar por esses dias de recordes de calor no país.
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO CONTEÚDO
Satélites mostram diferenças extremas
Os pesquisadores analisaram dados de 70 cidades paulistas usando imagens de satélite do programa Landsat, da Nasa, entre 2013 e 2025. As análises mostraram contrastes extremos de temperatura dentro da própria Grande São Paulo.
Nas áreas urbanizadas consideradas mais críticas, a temperatura da superfície chegou a atingir 60°C durante o verão, valor semelhante ao observado em telhados e galpões industriais expostos ao sol intenso.
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Já nas regiões com maior cobertura vegetal e presença de corpos d’água, a temperatura ficou em torno de 25°C.
Segundo os pesquisadores, a diferença média entre bairros mais quentes e áreas mais arborizadas variou de 7°C a 12°C durante o verão.
Noites quentes preocupam
Os pesquisadores também começaram a medir temperaturas em escala mais próxima do cotidiano da população, no nível das ruas, residências e escolas da Região Metropolitana de São Paulo. O trabalho faz parte de um projeto realizado em parceria com o programa municipal Sampa Adapta, da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente.
Para isso, foram analisados dados de 25 estações meteorológicas instaladas em ruas, casas e escolas, além de equipamentos do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE).
Os resultados indicam que, nos últimos 15 anos, as ondas de calor passaram a provocar tardes com temperaturas entre 30°C e 34°C em diferentes pontos da Grande São Paulo. À noite, por volta das 22h, os termômetros frequentemente ainda marcam 28°C.
“Esse dado é muito crítico, porque é nesse horário que a maioria das pessoas vai dormir”, afirmou Rocha. Segundo ele, muitas construções da capital não possuem isolamento térmico suficiente para impedir o acúmulo de calor.
“Várias edificações não tinham isolamento térmico suficiente contra o calor externo e, à noite, se comportaram como pequenos fornos aquecidos que retiveram o calor”, comparou.
Vegetação pode reduzir calor em até 7°C
Os pesquisadores também avaliaram possíveis soluções para reduzir as temperaturas urbanas.
De acordo com os estudos, áreas arborizadas conseguem produzir um “efeito oásis”, diminuindo significativamente a temperatura do ar nas ruas. Experimentos realizados na Grande São Paulo apontaram redução de até 7°C em locais com maior cobertura vegetal quando comparados a áreas densamente urbanizadas.
“Temos vários indícios de que a revegetação urbana na Região Metropolitana e, de forma geral, no Estado de São Paulo é não só uma oportunidade potencial, mas também viável para o resfriamento urbano nos eventos extremos”, disse Rocha.
Durante o encontro, a pesquisadora Thelma Krug, que foi vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) entre 2015 e 2022, afirmou que as cidades precisam se preparar para cenários ainda mais severos de aquecimento.
“A influência humana no aquecimento é inequívoca e rápida. Sem ela, não conseguiríamos explicar as mudanças observadas desde 1950”, afirmou.
Segundo Krug, o IPCC deve lançar em 2027 um relatório especial dedicado exclusivamente às cidades e aos impactos das mudanças climáticas em áreas urbanas.
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