Confúcio dizia: “Um homem que comete um erro e não o corrige incorre em outro ainda maior”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria estudar a frase do filósofo chinês. Ele está prestes a repetir o mesmo erro do mês passado e reapresentar a candidatura de Jorge Messias à vaga que está aberta no Supremo Tribunal Federal.
Como se sabe, Messias foi personagem de uma derrota histórica, ao ter seu nome rejeitado pelo Senado. Oficialmente, Lula vai reapresentar o nome do titular da Advocacia-Geral da União porque viu uma quantidade expressiva de aplausos quando Messias foi citado pelo mestre de cerimônias na posse de Kassio Nunes Marques à presidência do Tribunal Superior Eleitoral. Para o presidente, essa salva de palmas revelaria a percepção de que o AGU foi vítima de um jogo político.
A percepção de Lula não deixa de estar certa: Messias foi, de fato, vítima de uma artimanha engendrada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Mas, ao mesmo tempo, atual Advogado-Geral da União é jovem demais, o que significaria um mandato de três décadas, e teve uma atuação muito ligada à agenda de esquerda, longe da ideologia do Centrão, o fiel da balança no Congresso Nacional.
Extraoficialmente, Lula insiste em Messias porque está prestes a se acertar (ou já acertou) com Alcolumbre. Mas os senadores continuam achando que o indicado não atende às expectativas que os parlamentares têm para uma vaga ao Supremo. Além disso, dificilmente colocariam uma azeitona na empada de Lula em plena campanha eleitoral.
O PT acredita que a divulgação do áudio de Flávio Bolsonaro mostrando uma proximidade que dizia não existir em relação ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro seria uma razão para os senadores mudarem de voto. Messias obteve 34 votos favoráveis, quando precisava de 41. Irá conseguir sete votos extras? É possível, mas improvável.
Mesmo com o desgaste que a candidatura de Flávio Bolsonaro venha a sofrer com a divulgação do áudio, o Senado continua um ninho dominado pela oposição. Dificilmente faria qualquer movimento que pudesse ser considerado uma vitória para Lula, especialmente neste momento delicado para os oposicionistas. Portanto, a decisão de Lula de reapresentar o nome de Messias ao Senado é mais baseada em sua própria teimosia do que em explicações racionais.
Isso deverá abrir um campo de incertezas dentro do próprio governo. Essa insistência pode até fortalecer a imagem de lealdade de Lula aos seus aliados mais próximos, mas neste comportamento também há um risco de desgaste prolongado. Messias se tornou um símbolo de disputa entre o Planalto e o Senado e recolocá-lo no tabuleiro pode reacender tensões que o governo não conseguiu administrar na primeira tentativa.
Messias, por sua vez, enfrenta um dilema pessoal e institucional. Sua permanência como AGU é confortável e estratégica, mas a rejeição no Senado o colocou em uma posição delicada. Se aceitar ser novamente indicado, assume o risco de uma segunda derrota, que o deixaria ainda mais fragilizado. Se recusar, por outro lado, pode ser visto como alguém que desistiu diante da pressão.
O governo também precisa considerar o impacto dessa decisão sobre futuras negociações com o Congresso. A relação entre Executivo e Legislativo já é tensa e a reapresentação de Messias pode ser lida como um gesto de confronto. Dizem que Lula é um político que se guia pelo instinto. Mas, desta vez, parece bastante claro que ele está se guiando por outra voz — a da vaidade.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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