CEO da SLC Agrícola vê agro mais competitivo e defende eficiência como chave para crescer

A SLC Agrícola, uma das maiores produtoras agrícolas do Brasil, tem buscado combinar escala, tecnologia, diversificação geográfica e gestão de riscos para atravessar os ciclos de alta e baixa das commodities. Em entrevista ao programa Business, da BM&C News, o CEO da companhia, Aurélio Pavinato, afirmou que a trajetória da empresa acompanha a própria transformação do agronegócio brasileiro nas últimas décadas.

Fundada em 1977, em Horizontina, no Rio Grande do Sul, a SLC Agrícola nasceu ligada ao grupo SLC, que inicialmente atuava na fabricação de máquinas agrícolas. A companhia avançou para a produção no campo e, em 1980, comprou sua primeira fazenda em Goiás, iniciando a expansão para o Cerrado.

A abertura de capital, em 2007, ampliou essa estratégia ao permitir a captação de recursos para compra de terras e desenvolvimento de novas áreas produtivas.

Na época do IPO, o mercado vivia um ciclo de valorização das commodities, enquanto as terras agrícolas no Brasil ainda eram negociadas a preços mais baixos do que em regiões consolidadas do mundo. Com os recursos captados, a SLC aumentou rapidamente sua base de terras próprias e passou a acelerar também a expansão por arrendamentos.

Hoje, a empresa planta cerca de 830 mil hectares, distribuídos em 26 unidades produtivas em oito estados: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Minas Gerais, Maranhão, Piauí e Pará. O modelo atual da SLC Agrícola combina terras próprias, arrendamentos, parcerias e joint ventures. De acordo com o CEO, cerca de dois terços da operação estão em áreas arrendadas ou em parcerias, enquanto um terço corresponde a terras próprias.

A companhia atua principalmente na produção de soja, milho e algodão. A soja representa aproximadamente metade da área plantada, enquanto o algodão responde por cerca de 25% a 27%. O milho aparece como terceira cultura em área, com aproximadamente 160 mil hectares. “O segredo do sucesso da produção de commodities agrícolas é você ter um menor custo unitário”, explicou Pavinato.

Gestão de riscos é pilar para enfrentar clima e mercado

A volatilidade das commodities e os riscos climáticos fazem parte da rotina do agronegócio. Para reduzir esses impactos, a SLC adota uma estratégia baseada em diversificação geográfica, diversificação de culturas e vendas futuras.

A distribuição das fazendas em diferentes estados permite reduzir a exposição a eventos climáticos específicos. Em determinados anos, uma região pode enfrentar seca enquanto outra registra excesso de chuvas. Na média, essa diversificação ajuda a estabilizar a produtividade.

A companhia também busca casar custos e receitas por meio de vendas antecipadas. À medida que começa a formar o custo de produção da safra seguinte, a empresa também inicia a fixação de preços de venda, com o objetivo de proteger margens. “A receita de sucesso existe, ela está acessível a todos, mas a execução dessa receita exige habilidades”, afirmou Pavinato.

Segundo o CEO, copiar uma estratégia no agronegócio não garante o mesmo resultado, porque a operação depende de pessoas, cultura, localização, clima e execução. Para ele, o setor exige uma combinação entre planejamento técnico e capacidade de adaptação.

Receita recorde em 2025 e política de dividendos

A SLC Agrícola encerrou 2025 com receita recorde de R$ 8,6 bilhões, alta de 23% em relação ao ano anterior. O volume faturado chegou a 3,59 milhões de toneladas, avanço de 42%. O milho registrou produtividade recorde, de 8.300 quilos por hectare.

Apesar do cenário de commodities em patamares mais baixos, a companhia entregou EBITDA próximo de R$ 2,7 bilhões e margem acima de 30%.

A companhia também manteve sua política de remuneração aos acionistas. Desde 2017, a SLC trabalha com payout de 50% do lucro, distribuído em dividendos e juros sobre capital próprio. Em 2025, foram distribuídos R$ 400 milhões em dividendos e JCP, com dividend yield citado no programa de 5,6%. “A nossa estratégia é continuar com esse pagamento de dividendo de 50% do lucro todos os anos ao longo dos próximos anos”, afirmou Pavinato.

Expansão contracíclica orienta aquisições

A estratégia de crescimento da SLC também passa por movimentos de expansão em períodos de baixa no setor. Segundo o CEO, a lógica é crescer quando ativos, insumos e oportunidades estão mais baratos, evitando aquisições em momentos de euforia. “O racional principal é crescer contra ciclo”, declarou Pavinato.

Em 2021, a companhia cresceu com aquisições como Terra Santa e Agrícola Xingu, elevando a área plantada de cerca de 450 mil para 650 mil hectares. Já em 2022 e 2023, quando o setor operava com preços mais altos e custos também elevados, a empresa decidiu não acelerar novos movimentos de expansão.

Com a queda das commodities e dos insumos em 2024, a SLC voltou a crescer, passando de 650 mil para 730 mil hectares. Em 2025, alcançou 830 mil hectares plantados.

Fertilizantes e custos pressionam safra 2026/27

A entrevista também abordou os impactos do aumento dos custos de fertilizantes no agronegócio brasileiro. Segundo Pavinato, o setor deve enfrentar uma safra 2026/27 mais desafiadora, especialmente para produtores que ainda não travaram parte relevante dos insumos.

A SLC, no entanto, já havia comprado todo o fósforo da safra nova antes da escalada de preços. Após o início da crise geopolítica citada no programa, a empresa também comprou potássio. Com isso, chegou a cerca de 70% do volume total de fertilizantes da safra 2026/27 já adquirido.

“A gente está bem posicionado, já com praticamente 70% do volume dos fertilizantes para a safra 26/27 já comprados”, afirmou Pavinato.

O nitrogênio, segundo o executivo, ainda exigirá acompanhamento, por ser o produto mais volátil e ter maior relação com os preços internacionais de energia. Ainda assim, no caso da SLC, parte da alta de custos vem sendo compensada pela recuperação recente das commodities.

Demanda global e papel do Brasil no agro

Pavinato também analisou a demanda global por alimentos, fibras e biocombustíveis. Para ele, o crescimento populacional mundial será menor nas próximas décadas do que foi nos últimos 50 anos, mas a expansão do PIB, a urbanização e o aumento do consumo de proteínas em países emergentes ainda devem sustentar a demanda.

O CEO afirmou que o Brasil tem condições de ampliar sua participação na produção mundial de grãos, especialmente pela disponibilidade de áreas já abertas, como pastagens degradadas, além de tecnologia, mão de obra e estrutura produtiva.

“O Brasil é um país que está preparado para atender essa demanda crescente por alimentos, por fibras e por biocombustíveis”, disse Pavinato.

Na avaliação do executivo, o próximo ciclo do agro exigirá ainda mais foco em produtividade e eficiência. A expansão de área deve ter peso menor do que no passado, enquanto o ganho tecnológico tende a ser o principal vetor para atender a demanda global.

Sustentabilidade entra na estratégia da SLC

Na parte final da entrevista, Pavinato rebateu a visão de que o agronegócio atual seria incompatível com sustentabilidade. Segundo ele, a agricultura moderna dispõe de tecnologia para manter matéria orgânica no solo, repor nutrientes, usar plantio direto, coberturas vegetais e sistemas produtivos sustentáveis.

A SLC tem política de desmatamento zero desde 2021 e, segundo dados apresentados no programa, cultiva 100% de suas commodities em áreas sem desmatamento. A companhia também preserva 131 mil hectares, equivalentes a 36% da área plantada, e passou a integrar listas do CDP relacionadas à segurança hídrica e florestas.

“Hoje existe tecnologia para ter um sistema de produção sustentável”, afirmou Pavinato.

Além do eixo ambiental, o CEO destacou iniciativas sociais, como a oferta de educação de jovens e adultos nas fazendas. Desde 2017, a companhia mantém programas de formação para colaboradores que não concluíram o ensino fundamental ou médio.

Para Pavinato, a produção agrícola moderna deve ser avaliada dentro de uma visão ampla de segurança alimentar, eficiência produtiva e preservação ambiental. “Nós estamos vivendo hoje o mundo da abundância e não o mundo da escassez”, concluiu Pavinato.

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