Comunidade indígena no Amazonas recebe energia solar mais de 30 anos após chegada de primeiros moradores


Usina elétrica solar vai ajudar cerca de 120 pessoas que vivem na comunidade indígena.
Rodolfo Pongelupe/FAS
Mais de três décadas após a chegada dos primeiros moradores, em 1991, a Comunidade Indígena Três Unidos, no interior do Amazonas, passou a contar com energia elétrica contínua, gerada por placas solares. A usina fotovoltaica, inaugurada nesta sexta-feira (22), atende cerca de 45 famílias da comunidade, localizada na Área de Proteção Ambiental do Rio Negro.
O projeto recebeu apoio do Ministério Federal da Alemanha para o Meio Ambiente, por meio da International Climate Initiative (IKI) e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), e foi implementado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS).
Segundo a FAS, a usina garante o fornecimento contínuo de energia às famílias da comunidade e deve reduzir o consumo de combustíveis fósseis, com economia estimada em mais de 35 mil litros de diesel por ano. A iniciativa também prevê a redução de aproximadamente 111 toneladas anuais de dióxido de carbono, gás associado ao efeito estufa.
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Além da instalação da estrutura, o projeto incluiu a capacitação de moradores para acompanhar o funcionamento do sistema. Nove comunitários receberam treinamento para identificar possíveis falhas, auxiliar no monitoramento local e realizar cuidados, como a limpeza das placas solares, para manter a eficiência da geração de energia.
Ao todo, a usina atende 50 casas, seis infraestruturas sociais e seis empreendimentos comunitários.
A cerimônia de inauguração foi realizada no Centro Social da comunidade. Durante o evento, crianças indígenas, alunas da escola local, entoaram o Hino Nacional em língua indígena. A programação também contou com apresentações de danças tradicionais e pronunciamentos de representantes da comunidade, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e da Alemanha.
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Indígena relata mudanças após chegada da energia
Em entrevista ao g1, o tuxaua da comunidade, Waldemir Santana, afirmou que a implantação do sistema trouxe mudanças para o funcionamento da unidade de saúde local. Segundo ele, antes da instalação da usina, atendimentos realizados durante a noite eram prejudicados pela falta de energia elétrica.
“À noite não tinha. Chegava um paciente, e como fazer uma sutura? Um senhor de idade precisando tomar um soro. Era um sacrifício, uma luta e uma correria. Hoje não, a unidade de saúde está com energia de qualidade. Consultas on-line? Não tinha como fazer, mas hoje tem. Só tenho a agradecer pelo grande projeto”, disse.
A liderança indígena afirmou ainda que o sistema atualmente atende cerca de 70% da demanda da comunidade, enquanto aproximadamente 30% ainda permanecem sem cobertura. De acordo com ele, antes da operação definitiva, foram realizados dois meses de testes para avaliar o funcionamento da estrutura e a distribuição de energia na localidade.
Comunidade indígena Três Unidos, no Amazonas.
Rodolfo Pongelupe/FAS
Projeto começou após visita de representante alemão
A superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Valcléia Solidade, afirmou ao g1 que o projeto teve início em 2023, após a visita de um representante do governo alemão à comunidade.
Durante a agenda, os moradores relataram que a falta de energia elétrica era uma das principais demandas da localidade. Após a visita, a FAS foi acionada para desenvolver e implementar a iniciativa.
“Aqui é uma comunidade que trabalha com turismo. Tem pousada, restaurante, centro de artesanato, e eles recebem pessoas com frequência. E o tempo de energia gerada a partir de gerador era insuficiente para atender com qualidade. Então, o governo alemão atendeu à demanda e buscou uma organização que tivesse relação com a comunidade. Então, nós fomos acionados para participar do projeto, porque a gente já atende esse território”, afirmou.
O professor Raimundo Cruz, da etnia Kambeba, definiu a chegada da usina solar como “qualidade de vida”. Segundo ele, o acesso à energia ampliou as possibilidades de conexão da comunidade com outros lugares, além de fortalecer o acesso à internet e ao ensino on-line.
“Precisávamos de uma energia? Sim. Como disse o nosso tuxaua, não só para assistir à televisão, mas para ligar a internet, conservar a nossa alimentação, fazer faculdade on-line e mostrar para o mundo como é a nossa vivência e como estão os povos indígenas na Amazônia. Então, a gente tem ligação de saberes entre o Brasil e o mundo. Isso é qualidade de vida, porque diminui também a discriminação sobre os povos indígenas”, disse.
Indígenas da comunidade Três Unidos, localizada na margem esquerda do Rio Negro, durante inauguração de usina fotovoltaica.
Jadson Lima/g1 AM
Painéis solares vão ajudar a levar energia elétrica contínua para comunidade indígena no Amazonas.
Jadson Lima/g1 AM
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