Turnaround avança no Brasil e expõe fragilidade financeira das empresas, diz especialista

O avanço das reestruturações empresariais no Brasil tem revelado um descompasso cada vez mais evidente entre os indicadores macroeconômicos e a realidade enfrentada pelas empresas. Em meio a juros elevados, crédito restritivo e consumo enfraquecido, companhias de diferentes setores enfrentam pressão sobre margens, geração de caixa e capacidade de sobrevivência.

Durante entrevista ao programa Mercado & Beyond, da BM&C News, o especialista em reestruturação empresarial Estevão Seccatto avaliou que o aumento dos processos de turnaround, recuperações judiciais e renegociações financeiras evidencia uma deterioração mais profunda da economia real, muitas vezes não captada pelos dados agregados do PIB.

“O termômetro da economia, de fato, é o Serasa, é o aumento do nível de endividamento das empresas e das famílias. Se a economia está indo bem e as empresas estão saudáveis, você não precisaria passar por isso”, afirmou Seccatto.

Turnaround e o fim da lógica do crescimento a qualquer custo

Segundo o especialista, o ambiente econômico atual tem colocado em xeque modelos de negócios sustentados apenas por expansão acelerada e dependência contínua de capital. Para ele, a busca por crescimento sem foco em eficiência operacional e rentabilidade tornou empresas mais vulneráveis a oscilações econômicas.

Na avaliação de Seccatto, empresas com margens comprimidas possuem menor capacidade de absorver choques de receita, o que amplia riscos financeiros e reduz espaço de manobra em cenários adversos. O executivo argumenta que a geração consistente de caixa passou a ser mais relevante do que o aumento nominal de receita.

“Crescer por crescer não faz sentido nenhum. Quanto menor a sua margem, maior a sua suscetibilidade a variações, porque caiu um pouco a receita, sua margem vai para o negativo. Então, eu acho que a busca constante por eficiência e margem fazem muito mais sentido do que crescimento”, destacou Seccatto.

Crédito e alavancagem exigem alinhamento estratégico

Ao analisar o uso do crédito pelas empresas brasileiras, Seccatto destacou que a alavancagem, por si só, não representa um problema estrutural. O risco, segundo ele, surge quando o perfil da dívida não acompanha o ciclo operacional e financeiro do negócio.

O especialista afirmou que muitos empresários utilizam financiamentos de curto prazo para sustentar projetos de longo prazo ou até despesas correntes, gerando um descasamento financeiro que compromete a capacidade futura de pagamento. Para ele, esse tipo de erro frequentemente acelera processos de deterioração empresarial.

“A alavancagem não está errada, ela é boa, o crédito é fundamental para as empresas, mas a forma de tomar o crédito é que pode causar problema”, explicou Seccatto.

Gestão interna pesa mais do que fatores externos

Apesar do ambiente macroeconômico desafiador, Seccatto avalia que a maior parte das crises empresariais nasce dentro das próprias companhias. Segundo ele, decisões equivocadas de gestão, falta de monitoramento de riscos e ausência de planejamento estratégico costumam ter impacto maior do que fatores externos.

O especialista citou estudos do setor de reestruturação que apontam que a maioria das crises corporativas decorre de problemas internos. Na avaliação dele, muitos empresários ainda resistem a buscar ajuda especializada em momentos críticos, o que reduz as possibilidades de recuperação e preservação de valor.

“Tem um estudo do TMA antigo que mostra que 3/4 dos problemas empresariais das crises são geradas por fatores internos, fatores da companhia. Então, se você está conversando com alguém e ele fala que a crise é externa, em 75% dos casos essa pessoa vai estar mentindo ou ela vai estar se autoenganando”, argumentou Seccatto.

Crises exigem monitoramento constante e adaptação

Durante a entrevista, o especialista também destacou que o empresário brasileiro opera em um ambiente estruturalmente adverso, marcado por insegurança jurídica, mudanças regulatórias e volatilidade internacional. Nesse contexto, ele defende que a capacidade de adaptação passou a ser uma das principais ferramentas de sobrevivência corporativa.

Para Seccatto, empresas precisam monitorar continuamente hábitos de consumo, movimentações da concorrência, concentração de fornecedores e mudanças geopolíticas capazes de alterar cadeias produtivas globais. Segundo ele, a crise deve ser tratada como um evento inevitável dentro do ciclo empresarial.

“Saiba que a crise vai acontecer. Não tenha medo da crise. Ela vai acontecer, provavelmente, várias vezes. Então, é mais inteligente você tentar surfar a crise, buscar oportunidades e usar a crise como momento de liquidação de ativos”, avaliou Seccatto.

Turnaround envolve finanças, estratégia e preservação de valor

Ao explicar o conceito de turnaround, Seccatto afirmou que o processo vai além da renegociação de dívidas. Segundo ele, a reestruturação pode envolver mudanças operacionais, estratégicas, societárias e até a venda parcial de ativos ou participação acionária para preservar a continuidade da companhia.

Na visão do especialista, empresas que reconhecem seus problemas mais cedo conseguem preservar mais valor, acessar capital em melhores condições e ampliar as chances de recuperação. Já companhias que postergam decisões estratégicas tendem a perder competitividade, clientes, funcionários e valor de mercado.

“Se o empresário decide antes, ele captura valor. Se você decidiu que precisa de ajuda antes, você tem equity mais barato e dívida mais barata. Não conseguir fazer isso por restrições emocionais, apego e medo faz a empresa perder valor”, ressaltou Seccatto.

Crise também funciona como mecanismo de seleção

Na reta final da entrevista, o especialista avaliou que períodos de retração econômica acabam funcionando como um processo natural de seleção de mercado. Empresas mais eficientes e capitalizadas tendem a ampliar participação, enquanto negócios fragilizados enfrentam maiores dificuldades para sobreviver.

Segundo Seccatto, companhias com margens mais robustas conseguem reduzir preços, preservar rentabilidade e atravessar períodos de queda de demanda com maior resiliência. Já empresas excessivamente alavancadas ou dependentes de crescimento acelerado ficam mais expostas aos ciclos adversos da economia brasileira.

 

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