
A nova edição do Atlas da Violência 2026, divulgada nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), inclui diagnóstico inédito de violência contra idosos. Os dados apontam cenário agudo: disparou em 226,3% o número de caso de agressões físicas da parcela mais velha do país, com mais de 30 mil registros só em 2024.
Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde (MS), apontam que entre 2014 e 2024, as notificações de violências contra pessoas a cima de 60 anos teve maior ocorrência no ambiente doméstico, no núcleo familiar.
A marca exata de 30.097 casos levantados em 2024 foram de idosos agredidos e atendidos na rede de saúde, o que evidencia, segundo o relatório, um alerta permanente de segurança pública.
Um caso fatal revela esse cenário. Em março de 2026, um jovem de 18 anos viajou mais de 600 km para roubar e matar o avô. O caso aconteceu no Paraná, na cidade de Ubiratã.
Perfil dos agressores
O perfil dos abusadores domésticos tem gênero e raça discriminados pelo levantamento. Segundo o Sinan, o desenho dos abusadores do cotidiano, que abrange agressões físicas, psicológicas, negligência e exploração financeira segue um “padrão”:
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Preferência: aproximadamente 70% das vítimas de violências não letais são mulheres.
- Idade alvo: A faixa dos 80 anos ou mais concentra o maior volume de registros de violência. Período esse que confere maior dependência física e na maioria dos casos, econômica mais acentuada.
- O inimigo mora ao lado: o principal ator desses atos violentos é a figura do filho, aumentando ano após ano, as estatísticas.
Sobre a participação dos filhos como principais agressores, os dados mostram que em 2020, 2022 e 2024, de todos os casos declarados de violência contra esse público, 47,7%, 50,2% e 56,2% respectivamente, eram filhos que praticavam. Segundo especialistas do Ipea, os dados mostram uma crise de cuidado alarmante nas famílias brasileiras.

Racismo: combustível da violência
A violência contra o público da terceira idade também está fortemente marcada pelo racismo estrutural, conforma o Atlas da Violência. Este trata de preconceitos enraizados em organizações e na sociedade. O levantamento mostra que a cor da pele define o risco de morte mesmo no fim da vida.
Homens negros e idosos tiveram taxa de vitimização letal (morte) 1,7 vezes maior do que os não negros e da mesma idade. Só em 2024, o índice de homicídios desse grupo foi de 14,5 para cada 100 mil habitantes, enquanto entre os não negros a taxa foi de 8,3.
Realidades: a letalidade no Norte-Nordeste e o registro no Centro-Sul
A violência contra os idosos acontece de formas diferentes, dependendo da região do país. Em estados do Sul e do Sudeste — São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul —, há uma centralização acentuada de notificações de abuso financeiro e no ambiente doméstico.
Os pesquisadores ressaltam que os dados desses locais refletem uma rede de assistência social e saúde estruturada e que registra as denúncias, e não necessariamente cidades que são mais violentas no quesito.
Já as regiões Norte e Nordeste mostram que a violência contra o idoso se afasta do ambiente doméstico e migra para casos fatais nas ruas. Estados como Bahia, Ceará e Pernambuco tem índices elevados de homicídios na terceira idade, muitos como efeitos colaterais de disputas territoriais de organizações criminosas nas periferias.
Somente em 2024 a taxa de homicídios no Brasil foi de 5,9 a cada 100 mil idosos, o que corresponde a 2.007 pessoas com mais de 60 anos, mortas. Esses dados revelam uma redução de 13,3% se comparado aos últimos anos, conforme dados do Atlas da Violência.
Segundo o Ipea, a redução não diz respeito a uma queda nesse tipo de violência, mas sim que pelo “aumento acelerado da população idosa no Brasil”.
