Observadora grava joão-de-barro usando piolho-de-cobra como ‘repelente natural’ em SC


VÍDEO: João-de-barro usa piolho-de-cobra como ‘repelente natural’
O que parecia ser apenas uma cena curiosa de um pássaro “desajeitado” tentando almoçar no quintal virou um curioso registro no litoral norte de Santa Catarina.
A empresária Luzia Provesi Trentini, que pratica a observação de aves há três anos, conseguiu filmar um joão-de-barro (Furnarius rufus) utilizando um piolho-de-cobra (também conhecido como gongolo) para fazer uma espécie de “higienização química” de suas penas.
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O flagrante, realizado no município de Barra Velha (SC), durou cerca de 40 segundos. Inicialmente, Luzia achou a situação engraçada e achou que a ave estava encontrando dificuldades para engolir a presa devido às defesas do animal.
“No momento, achei a cena muito engraçada, por isso resolvi gravar. Pensei que o joão-de-barro estava tentando predar o piolho-de-cobra, mas não conseguia por conta das toxinas que o gongolo estava expelindo”, conta a empresária.
“Nunca tinha visto e não sabia desse comportamento. Ao postar na rede social, alguns biólogos me enviaram mensagens dizendo que se tratava de um registro raro”, completa ela.
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O que diz a ciência?
Sbstâncias químicas dos artrópodes ajudam as aves a combater parasitas e aliviar irritações na pele.
Luzia Provesi Trentini
O comportamento observado por Luzia é conhecido no meio acadêmico como auto-ofuscamento (ou formicamento, quando realizado especificamente com formigas). Trata-se de uma estratégia onde as aves utilizam as defesas químicas de insetos e artrópodes em benefício próprio.
De acordo com o ornitólogo Fernando Igor de Godoy, esse é um comportamento já bastante conhecido na ciência, principalmente com o uso de formigas, mas que também envolve lacraias, centopeias, vespas e até caracóis.
O comportamento já foi documentado em diversas aves pelo mundo, como estorninhos e tentilhões na Europa, e em pica-paus-do-campo no Brasil.
“Não se sabe ao certo qual a frequência, pois aparentemente todos os registros são ocasionais”, explica Godoy. “Em geral, são observados com formigas, pois as aves costumam ‘esfregar’ ácido fórmico em suas penas, então aproveitam quando essas estão ativas. Geralmente as aves se aproximam de formigueiros e deixam as formigas subirem em suas penas e assim as esfregam para liberar o ácido. No caso do piolho-de-cobra, é algo similar, aproveitando outra substância.”
‘Repelente’ e alívio para a pele
Segundo o especialista, o principal objetivo da ave é combater parasitas indesejados, como ácaros e piolhos, usando o artrópode como um inseticida natural.
E a analogia com os seres humanos é direta: assim como nós passamos repelente na pele e sabemos que não devemos ingeri-lo, o pássaro faz o mesmo. Fernando Igor esclarece que provavelmente não há risco de envenenamento para as aves.
“Provavelmente não há risco, pois essas toxinas não são consumidas pela ave, já que são diluídas nas penas – assim como a gente passar um repelente no corpo e saber que não podemos tomar”, brinca o ornitólogo.
“Sobre a dose, esses artrópodes não liberam altas quantidades de substâncias, então o joão-de-barro vai pegando aos poucos e passando no corpo.”
A função do comportamento, contudo, pode ir além da proteção contra parasitas. O ornitólogo aponta que a ciência estuda outras possibilidades para o fenômeno:
“Apesar de a maioria dos estudos mostrar que o ácido fórmico atue principalmente como repelente, provavelmente a função pode variar entre as espécies. Há estudos que citam que podem aliviar irritação [na pele, como na época de muda de penas], ou até mesmo há a hipótese de que podem atuar de forma a alcançar um estado de euforia, como se fosse uma droga”, ressalta Godoy.
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