Além dos rankings: o que os dados revelam sobre a gestão pública

Além dos Rankings: O que os Dados Revelam sobre a Gestão PúblicaMagnific

Você provavelmente já viu manchetes como “Pesquisa aponta a melhor cidade do Brasil” ou “Município lidera ranking de desenvolvimento“. Nos últimos anos, índices, percentuais e gráficos passaram a ocupar espaço permanente nos noticiários e nas redes sociais. Para muitos gestores públicos, esses números acabam se transformando em peças de divulgação institucional. Para quem vive a cidade no dia a dia, porém, a sensação de qualidade de vida nem sempre acompanha o entusiasmo dos rankings.

A ideia de uma cidade perfeita ou de um modelo único de gestão é, na prática, uma simplificação excessiva. Municípios são estruturas complexas, formadas por realidades distintas que dificilmente cabem em um único indicador. Por trás de cada posição em um ranking existem pessoas, famílias e histórias que dependem do funcionamento de uma creche, de uma unidade de saúde, do transporte público e da segurança nas ruas.

Quando observamos conjuntamente algumas das principais ferramentas de avaliação disponíveis no país, como o Índice de Efetividade da Gestão Municipal (IEGM), do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, o Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades (IDSC-BR) e o recém-divulgado Índice de Progresso Social (IPS), surge uma conclusão importante: os números não devem ser encarados como troféus, mas como instrumentos para orientar decisões.

Educação infantil: quando a média esconde o problema Um exemplo claro aparece na Educação Infantil da Região Metropolitana de Campinas. Dados recentes que cruzam informações do Censo Escolar e projeções populacionais do IBGE mostram que municípios como Holambra, Pedreira e Vinhedo alcançaram a universalização do atendimento às crianças de 4 e 5 anos na pré-escola. À primeira vista, o desafio parece superado.

Mas a realidade muda quando o foco se volta para as crianças de zero a três anos. É justamente na oferta de vagas em creches que surgem os principais obstáculos relacionados à estrutura, ao orçamento e ao planejamento de longo prazo.

A falta de vagas gera impactos que vão muito além da educação. Muitas famílias têm sua renda comprometida porque pais, especialmente mães, precisam permanecer fora do mercado de trabalho para cuidar dos filhos. O resultado afeta diretamente a autonomia econômica das famílias e a igualdade de oportunidades.

Esse cenário ilustra uma realidade observada em diversas regiões do país: avanços em determinados indicadores convivem com pontos cegos em áreas essenciais. Quando existe uma grande diferença entre o atendimento da pré-escola e o das creches, há um sinal evidente de que políticas públicas precisam ser ajustadas.

O que medem o IEGM e os ODS

Avaliar uma gestão pública exige mais do que analisar resultados isolados. Há uma década, o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo utiliza o IEGM para medir a efetividade das administrações municipais em áreas como Planejamento, Gestão Fiscal, Educação, Saúde, Meio Ambiente, Defesa Civil e Tecnologia da Informação. O objetivo é verificar se o planejamento se transforma em ação concreta e se os recursos públicos estão sendo utilizados de forma adequada.

Em outra frente, o IDSC-BR acompanha o desempenho dos municípios em relação aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU. O índice reúne aproximadamente cem indicadores ligados a temas como desigualdade, acesso a serviços, segurança, emprego e sustentabilidade ambiental.

As duas ferramentas se complementam. Enquanto o IEGM avalia a capacidade de gestão da máquina pública, o IDSC-BR ajuda a compreender se essa estrutura está produzindo uma cidade mais equilibrada, inclusiva e sustentável.

IPS: o olhar sobre a vida real das pessoas

O Índice de Progresso Social acrescenta uma perspectiva diferente a esse conjunto de avaliações. Ao contrário do PIB, que mede a atividade econômica, ou do IDH, que combina renda, educação e saúde, o IPS concentra sua atenção nos resultados efetivamente percebidos pela população. O foco não está no volume de recursos arrecadados nem na quantidade de equipamentos públicos construídos, mas no impacto que essas ações geram na ponta.

O índice procura responder a perguntas simples e objetivas: a população tem acesso ao saneamento? As pessoas vivem com segurança? Os estudantes conseguem concluir sua formação? Os direitos fundamentais são respeitados?

Organizado em três grandes dimensões — Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-Estar e Oportunidades —, o IPS evidencia que crescimento econômico e progresso social nem sempre caminham juntos. Municípios com níveis semelhantes de riqueza podem oferecer condições de vida muito diferentes aos seus moradores. O resultado depende das escolhas feitas pelos gestores e da capacidade de transformar recursos em bem-estar coletivo.

O ranking de 2026 traz como destaque Gavião Peixoto, no interior paulista. O desempenho do município demonstra que cidades de menor porte podem alcançar excelentes indicadores sociais quando há foco, continuidade administrativa e políticas públicas eficazes.

Gestão baseada em evidências

A leitura conjunta desses indicadores mostra que não existe fórmula pronta para construir uma cidade melhor. Uma administração pode apresentar equilíbrio fiscal, boa arrecadação e eficiência administrativa, mas ainda enfrentar dificuldades em áreas como inclusão social, geração de oportunidades para jovens, proteção às mulheres ou combate às desigualdades.

Por isso, o principal valor dos indicadores públicos está menos na classificação obtida e mais na capacidade de revelar problemas e apontar prioridades. Quando utilizados de forma integrada, IEGM, IDSC-BR e IPS permitem identificar com maior precisão onde estão os avanços e onde permanecem os desafios mais urgentes.

Servir bem à população exige ir além das médias e dos rankings favoráveis. Cidades mais justas e serviços públicos mais eficientes surgem quando os dados deixam de ser apenas números e passam a ser compreendidos como retratos da realidade que precisam orientar decisões concretas.

Eduardo Gurian

Eduardo GurianEduardo Gurian

*Eduardo Gurian é  jornalista, com pós-graduação em Marketing e Negócios Internacionais e experiência na gestão de comunicação tanto na área público como privada. Professor universitário, já escreveu diversos artigos sobre o tema de Comunicação

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