Uma fratura no rosto, outra no crânio: as histórias por trás das proteções usadas por Cáceres e Raúl Jiménez


O jogador uruguaio Sebastián Cáceres e o mexicano Raúl Jimenez
AP Photo/Natacha Pisarenko e Rebecca Blackwell
O gol de Raúl Jiménez na estreia do México teve um peso que vai além da Copa do Mundo. Em 2020, o atacante sofreu uma fratura de crânio, passou por uma cirurgia de emergência e viu a carreira ficar em risco após um choque de cabeça durante uma partida do Campeonato Inglês. Seis anos depois, segue entrando em campo com a proteção que se tornou uma marca de sua recuperação.
Nos gramados do torneio, ele não é o único jogador a atuar com um equipamento desse tipo. O uruguaio Sebastián Cáceres estreou na segunda-feira (15) usando uma máscara preta que cobre parte do rosto, adotada após uma pancada sofrida em maio que resultou em concussão cerebral, trauma ocular e uma fratura na maçã do rosto.
Embora os acessórios pareçam semelhantes à primeira vista, eles foram criados para proteger lesões diferentes —e ajudam a contar como o futebol passou a tratar com mais cautela os traumatismos na cabeça e na face.
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Máscara protege enquanto osso cicatriza
A principal diferença está na região que cada equipamento tenta preservar.
A máscara usada por Cáceres protege os ossos da face, enquanto a faixa utilizada por Jiménez tem como objetivo reduzir o impacto sobre uma área do crânio que já foi submetida a uma cirurgia. Nenhuma delas, porém, é capaz de impedir uma concussão cerebral.
Sebastian Caceres (3), do Uruguai, joga com máscara de proteção
AP/Lynne Sladky
Cáceres sofreu uma fratura no arco zigomático, estrutura óssea que forma a chamada maçã do rosto.
Além de ajudar a definir o contorno facial, esse osso participa da proteção da órbita ocular e serve de apoio para músculos envolvidos na mastigação. Dependendo do tipo de fratura, o tratamento pode ser conservador, sem necessidade de cirurgia, desde que a região permaneça alinhada e protegida de novos impactos.
Segundo o neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e pós-doutor pela Unifesp, a máscara utilizada pelo uruguaio funciona como uma barreira mecânica.
Produzida com materiais rígidos, como termoplástico ou fibra de carbono, ela distribui a força de uma pancada por uma área maior da face, reduzindo a carga exercida diretamente sobre o local lesionado. A lógica é semelhante à de um capacete: absorver parte da energia e evitar que ela se concentre em um único ponto.
Isso permite que atletas retornem às atividades antes da consolidação completa da fratura, desde que a lesão esteja estável e sob acompanhamento médico.
A proteção, no entanto, tem limites. Em impactos de alta energia, a força ainda pode ser transmitida ao osso e provocar novos deslocamentos ou fraturas.
A faixa de Jiménez
O mexicano Raúl Jiménez comemora após marcar o segundo gol de sua equipe durante a partida do Grupo A da Copa do Mundo entre México e África do Sul
AP/Natacha Pisarenko
O caso de Raúl Jiménez foi mais grave.
Em novembro de 2020, durante uma partida entre Wolverhampton e Arsenal, o atacante mexicano se chocou de cabeça com o brasileiro David Luiz. O impacto provocou uma fratura de crânio acompanhada de hemorragia intracraniana, uma condição potencialmente fatal.
Quando ocorre um sangramento dentro da caixa craniana, o volume de sangue acumulado aumenta a pressão sobre o cérebro. Sem tratamento rápido, estruturas responsáveis por funções vitais podem ser comprimidas, levando a sequelas graves ou até à morte.
Jiménez precisou ser operado de forma emergencial e ficou meses afastado dos gramados.
Diferentemente da máscara usada por Cáceres, a proteção do mexicano não foi desenhada para cobrir os ossos da face. Como a lesão ocorreu no crânio, o equipamento envolve a cabeça e funciona como uma camada extra de proteção sobre a região que sofreu o impacto e passou pela cirurgia.
Segundo Picarelli, assim como a máscara, o acessório ajuda a absorver parte da energia de choques leves e moderados e a distribuir essa força por uma área maior.
A faixa, porém, não impede que o cérebro se movimente dentro do crânio após uma pancada. Por isso, também como a máscara de Cáceres, ela não é capaz de evitar uma concussão cerebral. Seu papel é proteger a estrutura óssea que foi lesionada, e não o cérebro em si.
Proteções têm limitações
Ao ver jogadores utilizando esse tipo de equipamento, é comum imaginar que eles funcionem como um escudo contra qualquer lesão cerebral. Não é o caso.
A concussão acontece quando a energia do impacto faz o cérebro se movimentar dentro do crânio, provocando uma alteração temporária no funcionamento dos neurônios. Esse mecanismo depende da intensidade e da aceleração do movimento da cabeça, e não apenas da existência de uma proteção externa.
Por isso, um atleta pode sofrer uma concussão mesmo usando máscara facial, faixa protetora ou capacete.
A preocupação com a concussão vai além dos sintomas imediatos. Logo após o trauma, o jogador pode apresentar perda de consciência, confusão mental, dificuldade de concentração, amnésia do evento, tontura, dor de cabeça, náuseas e alterações do equilíbrio. Em situações mais graves, o impacto pode estar associado a contusões cerebrais ou sangramentos dentro do crânio, que exigem avaliação médica urgente.
Os efeitos também podem aparecer semanas, meses ou anos depois. Estudos com atletas expostos a traumatismos repetidos mostram maior risco de problemas de memória, alterações cognitivas, mudanças de comportamento e quadros neurodegenerativos.
Um dos exemplos mais conhecidos é a encefalopatia traumática crônica (ETC), doença associada a impactos repetidos na cabeça e descrita em ex-jogadores de futebol americano, boxeadores e outros atletas de esportes de contato.
Segundo Picarelli, foi o acúmulo de evidências sobre essas consequências que levou entidades esportivas a endurecer os protocolos de avaliação após pancadas na cabeça.
Hoje, a preocupação não se limita à lesão visível ou à capacidade de o atleta continuar jogando, mas também aos possíveis efeitos que podem surgir anos depois do trauma.
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