A geração Z, na verdade é a geração M, dos mimados

Outro dia ouvi alguém dizer que a Geração Z é a mais preparada da história. Discordo. Talvez seja a mais conectada, a mais monitorada, a mais protegida e certamente a mais exposta. Mas preparada? Basta observar alguns comportamentos que se tornaram cada vez mais comuns. Uma parcela crescente dos jovens não quer tirar carteira de motorista, não quer comprar imóvel, não quer construir patrimônio, não quer permanecer muito tempo em um emprego e, frequentemente, não demonstra pressa para sair da casa dos pais.

Segundo o Pew Research Center, 57% dos americanos entre 18 e 24 anos viviam com os pais em 2023, acima dos 53% registrados em 1993. O problema não é apenas econômico. É também comportamental. Criamos uma geração que aprendeu a evitar desconfortos em vez de enfrentá-los. Uma geração que cresceu ouvindo que era especial, mas que raramente ouviu que a vida exige esforço, disciplina, responsabilidade e capacidade de lidar com frustrações. Chamo esse fenômeno de Geração M, dos mimados. Jovens que reivindicam direitos com facilidade, mas têm dificuldade para aceitar deveres, limites, hierarquias e consequências.

Os números mostram que existe algo mais profundo acontecendo. Um levantamento Gallup divulgado pela Annie E. Casey Foundation apontou que 47% da Geração Z relatam sentir ansiedade frequentemente ou o tempo todo, enquanto 22% convivem frequentemente com sintomas depressivos.

Outro estudo da Gallup mostrou que a taxa de depressão entre americanos com menos de 30 anos mais que dobrou desde 2017, saltando de 13% para 26,7%. Na Austrália, uma pesquisa publicada no Australian & New Zealand Journal of Psychiatry, com quase 15 mil participantes, identificou que a Geração Z apresenta os maiores índices de ideação suicida, automutilação e tentativas de suicídio quando comparada às gerações anteriores. O paradoxo é evidente.

Nunca houve tanto acesso à informação, tecnologia, terapia e ferramentas de desenvolvimento pessoal, mas uma parte relevante dos jovens parece menos preparada para lidar com rejeição, competição, cobrança e fracasso. Transformamos qualquer desconforto em trauma, qualquer crítica em agressão e qualquer contrariedade em injustiça. O resultado são adultos emocionalmente frágeis para um mundo que continua funcionando sob princípios antigos: mérito, esforço, resiliência e capacidade de ouvir “não”.

O problema não está apenas nos jovens, mas nos adultos que os formaram. Pais que resolvem todos os problemas dos filhos, escolas que evitam conflitos para não perderem o cliente, empresas que precisam flexibilizar processos básicos para profissionais incapazes de lidar com pressão e uma sociedade que vende sucesso instantâneo pelas redes sociais.

A consequência aparece no mercado de trabalho e na vida financeira. Multiplicam-se profissionais que trocam de emprego ao primeiro sinal de desconforto, que enxergam qualquer cobrança como abuso e que desejam reconhecimento imediato sem aceitar a construção necessária para alcançá-lo. Muitos parecem querer independência sem responsabilidade, liberdade sem consequência e prosperidade sem sacrifício.

Evidentemente existem exceções brilhantes e algumas delas inclusive trabalham comigo, e elas se destacam justamente porque aprenderam algo que deveria ser regra: a vida não recompensa quem evita dificuldades. A vida recompensa quem aprende a atravessá-las. Talvez o maior erro da nossa geração tenha sido tentar proteger seus filhos da dor. Porque foi justamente a dor, a frustração e os fracassos que ensinaram quase tudo o que realmente vale a pena aprender.

*Coluna escrita por Fabrizio Gueratto, especialista em investimentos com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro. Foi sócio do Banco Modal, é professor de MBA em Finanças, autor do livro “De Endividado a Bilionário”, fundador da Gueratto Press e criador do Canal 1Bilhão, que soma quase 21 milhões de visualizações no YouTube.

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