A notícia da semana não é que a SpaceX está valendo quase US$ 2 trilhões. A notícia é que os Estados Unidos parecem não poder se permitir que ela valha menos. Existe uma diferença enorme entre as duas coisas. Não está em discussão a genialidade de Elon Musk. Poucos empresários da história conseguiram transformar simultaneamente a indústria automotiva, a exploração espacial, as telecomunicações e, mais recentemente, a inteligência artificial. O problema não é Musk. O problema é o sistema.
A SpaceX estreia na bolsa valendo mais do que a economia inteira de muitos países desenvolvidos. Ao mesmo tempo, continua apresentando prejuízos bilionários. Seus defensores argumentam que isso pouco importa porque a empresa representa o futuro. Talvez tenham razão. Mas toda bolha da história também foi vendida como o futuro. A diferença entre uma revolução tecnológica e uma bolha financeira normalmente só fica clara alguns anos depois.
O aspecto mais interessante da operação não está nos foguetes. Está nos bastidores. Corretoras flexibilizam exigências, gestores adaptam critérios, índices aceleram processos de inclusão e investidores institucionais se organizam para absorver a oferta. O mercado inteiro parece trabalhar para garantir que a operação seja um sucesso. Quase como se a pergunta não fosse mais quanto a empresa vale. A pergunta passou a ser quanto ela precisa valer.
É justamente aí que a história deixa de ser sobre Elon Musk e passa a ser sobre os Estados Unidos. Em 1999, no auge da bolha da internet, o mercado acionário americano representava cerca de 153% do PIB do país. Em 2007, antes da crise dos subprime, representava 137%. Hoje representa aproximadamente 238%. Isso significa que Wall Street deixou de ser apenas um mercado financeiro. Tornou-se uma peça estrutural da economia americana.
Milhões de famílias dependem da valorização dos ativos. Fundos de pensão dependem da valorização dos ativos. O consumo dos mais ricos depende da valorização dos ativos. Quando a bolsa sobe, todos se sentem mais ricos.
Quando a bolsa cai, a economia inteira sente o impacto. Metade da poupança financeira das famílias americanas está direta ou indiretamente ligada ao mercado acionário. Ao mesmo tempo, o 1% mais rico concentra uma parcela crescente do patrimônio e do consumo. Se a bolsa sobe, o consumo acelera. Se a bolsa cai forte, o consumo desacelera. E quando o consumo desacelera nos Estados Unidos, o mundo inteiro percebe.
Talvez seja por isso que a SpaceX seja muito mais importante para os Estados Unidos do que a própria SpaceX imagina. Ela não está chegando apenas como uma empresa. Está chegando como um símbolo. E símbolos não podem fracassar.
Existe ainda uma segunda questão pouco debatida. Musk manterá controle quase absoluto sobre a companhia através de uma estrutura acionária que lhe garante cerca de 85% dos direitos de voto. Os investidores entram com o dinheiro. Ele permanece com o poder. Os investidores assumem o risco. Ele mantém o comando. Tudo isso é perfeitamente legal. Mas também é uma lembrança interessante de que o capitalismo moderno parece cada vez mais confortável com estruturas de poder altamente concentradas, desde que o protagonista seja suficientemente brilhante.
A ironia é difícil de ignorar. Durante décadas, os Estados Unidos ensinaram ao mundo as virtudes da concorrência, da governança corporativa, da dispersão de poder e da disciplina de mercado. Hoje, entretanto, parecem cada vez mais dependentes da valorização contínua dos próprios ativos financeiros. Quando uma economia passa a depender da alta da bolsa para sustentar crescimento, consumo e confiança, surge uma pergunta desconfortável: o mercado ainda está refletindo a economia ou a economia passou a depender do mercado?
Talvez esta seja a verdadeira história por trás da SpaceX. Não a conquista de Marte, nem a criação da próxima gigante tecnológica. A verdadeira história talvez seja a transformação silenciosa da economia americana em um sistema cada vez mais dependente da valorização permanente dos ativos financeiros. Porque foguetes desafiam a gravidade. Mercados financeiros, não. E a história econômica mostra que, mais cedo ou mais tarde, toda avaliação precisa reencontrar algum ponto de contato com a realidade. Mesmo quando o foguete pertence ao homem mais rico do mundo. E mesmo quando a torre de controle parece torcer pelo voo.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
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