Risco fiscal limita queda dos juros e amplia incertezas para 2027

A queda do petróleo após o anúncio de um acordo entre Estados Unidos e Irã trouxe alívio inicial aos mercados globais, mas não eliminou as dúvidas sobre a trajetória dos juros. No Painel BM&C, apresentado por Paula Moraes, os economistas Roberto Dumas e Carlos Honorato e o analista Miguel Daoud avaliaram que o impacto positivo da commodity mais barata pode ser limitado diante de pressões fiscais, incertezas geopolíticas e atividade ainda resiliente nos Estados Unidos.

Para Dumas, o alívio externo ajuda a reduzir parte da pressão sobre os bancos centrais, mas não altera completamente o cenário. Ele avalia que, nos Estados Unidos, a combinação de inflação acima da meta, mercado de trabalho aquecido e crescimento econômico reduz o espaço para cortes imediatos. No Brasil, a discussão se concentra menos no corte pontual da Selic e mais na comunicação do Copom sobre os próximos passos da política monetária.

“Nos Estados Unidos, o que eu espero é que é uma manutenção da taxa de juros e no Brasil já tá contratada uma queda de 25 points. Eu acho que isso não seria um aspecto pra gente ver, é saber como vai ser a ata do Copom”, projeta Roberto Dumas.

Fiscal limita espaço para queda da Selic

No plano doméstico, Honorato avaliou que um corte marginal de juros não muda de forma relevante a realidade de empresas endividadas nem altera o diagnóstico fiscal. Para ele, o problema central está na ausência de medidas claras para conter despesas, reorganizar expectativas e reduzir o custo estrutural da dívida pública.

“No momento 0,25, 0,5 não muda expectativa. A expectativa é muito ruim no sentido de que a gastança continua. Não há ninguém com responsabilidade de dizer que não há essa gastança”, afirma Carlos Honorato.

Banco Central tenta preservar previsibilidade

Daoud situou a atuação do Banco Central dentro de um ambiente eleitoral polarizado. Na avaliação dele, a autoridade monetária busca evitar surpresas e preservar a previsibilidade da curva de juros, reduzindo o risco de que decisões técnicas sejam lidas como movimentos políticos em favor de um lado ou de outro da disputa.

“O Banco Central, de uma certa forma, dentro de um princípio de não mudar o mercado, de não alterar o mercado, ele vai fazer o papel dele”, avalia Miguel Daoud.

Discurso político ocupa o debate econômico

O uso político da taxa de juros também entrou no centro da discussão. Dumas afirmou que presidentes tendem a culpar os juros por problemas econômicos mais amplos porque essa narrativa é mais simples para o público. Para ele, uma explicação técnica envolveria demanda agregada, PIB potencial, gasto público e inflação, mas esse debate costuma ter menos apelo político.

“É melhor você culpar a taxa de juros por qualquer problema que você tem. Então, ele está jogando para arquibancada”, observa Roberto Dumas.

Valuation das big techs reacende alerta sobre bolhas

Além do cenário fiscal brasileiro, o painel discutiu a valorização de grandes empresas de tecnologia nos Estados Unidos. O avanço de companhias como SpaceX e Nvidia foi citado como exemplo de um mercado que pode estar cada vez mais descolado dos fundamentos tradicionais, especialmente quando a precificação passa a depender mais de expectativas futuras do que de ganhos concretos de produtividade.

“O que ela fez efetivamente de produtividade que seja no campo da inteligência artificial? Quais os fundamentos para isso? Não há”, questiona Carlos Honorato.

Renda, dívida e consumo sustentam preocupação global

Daoud destacou que a valorização financeira precisa ser confrontada com a capacidade real de geração de renda. Para ele, o problema não está apenas no tamanho das empresas, mas no descompasso entre mercado financeiro, endividamento e renda disponível para sustentar consumo, dinâmica que amplia riscos em um ambiente de dívida elevada e juros ainda altos.

“Quando você olha a diferença, o crescimento do sistema financeiro e o crescimento da renda, você vê que não tem sentido, porque o que que vai sustentar esse crescimento? É a renda”, alerta Miguel Daoud.

Eleição aumenta cobrança por plano econômico

Na parte final do painel, os participantes discutiram o impacto da disputa eleitoral sobre expectativas econômicas. A avaliação foi que qualquer governo eleito em 2026 terá de lidar com uma herança fiscal relevante, marcada por dívida elevada, juros altos e baixa coordenação institucional. Sem um plano de Estado para enfrentar gastos, reorganizar prioridades e sinalizar previsibilidade, empresas, investidores e consumidores tendem a operar em lógica defensiva, ampliando a percepção de risco para 2027.

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