Projeto de urbanização de R$ 1,6 bilhão em Paraisópolis prevê obras e serviços; lideranças citam remoções pontuais


Líder comunitário explica como será urbanização de Paraisópolis (SP) 
O Complexo Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, deve receber investimentos de R$ 1,6 bilhão de recursos arrecadados com a venda de títulos imobiliários (Cepacs) da Operação Urbana Consorciada Faria Lima (OUCFL), realizada pela Prefeitura em novembro de 2025.
A favela está dentro do perímetro da OUCFL, mecanismo que permite flexibilizar regras de construção em troca de pagamento ao município. A operação impulsionou a valorização imobiliária do entorno e, por lei, deve destinar recursos para habitação de interesse social.
Com recursos inéditos em caixa, obtidos no maior leilão da história das Operações Urbanas Consorciadas do município, a prefeitura elaborou um pacote de intervenções que pretende reorganizar parte do território e ampliar a oferta de serviços públicos em uma das maiores comunidades da cidade (leia mais abaixo).
O projeto contempla as comunidades de Paraisópolis, Porto Seguro e Jardim Colombo. Além disso, prevê obras de infraestrutura, habitação, mobilidade, saneamento e ampliação de serviços públicos, incluindo novas moradias, melhorias viárias, equipamentos de saúde e educação, além da canalização dos córregos Antonico e Itararé.
Favela de Paraisópolis, zona sul de São Paulo
Glória Maria
O programa será financiado com recursos obtidos no maior leilão da história das Operações Urbanas Consorciadas do município. Em novembro do ano passado, a Prefeitura arrecadou R$ 1,668 bilhão com a venda de Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepacs) da Operação Urbana Consorciada Faria Lima.
Embora as intervenções sejam vistas por parte dos moradores como uma oportunidade para ampliar a infraestrutura da região, o anúncio das obras também reacendeu um temor recorrente em Paraisópolis: o de novas remoções.
“Os moradores passaram uma vida inteira construindo seus comércios e suas casas. Não vai haver uma remoção em massa como estão amedrontando a comunidade”, afirma Janilton Oliveira, conhecido como China, vice-presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis.
Segundo a liderança, as discussões sobre o projeto vêm sendo realizadas com a comunidade há cerca de um ano e meio por meio do Fórum Multientidades de Paraisópolis, que reúne representantes de organizações e lideranças locais. Ele afirma que parte da preocupação dos moradores surgiu após a circulação de informações sobre a possibilidade de remoções em larga escala.
As discussões ganharam um novo elemento de urgência nesta quinta-feira (18), após um incêndio de grandes proporções atingir a comunidade Travinhas, na região de Paraisópolis, e deixar pelo menos 150 famílias desalojadas (leia mais abaixo).
Incêndio atinge região de Paraisópolis, na Zona Sul
Reprodução/TV Globo
China explica que a abertura de vias e a implantação de novos equipamentos urbanos poderão exigir intervenções pontuais em algumas áreas, mas ressalta que as lideranças têm defendido que o número de remoções seja o menor possível.
“A nossa luta é para garantir o mínimo de impacto para quem mora aqui e construiu sua vida dentro da comunidade”, afirma.
Segundo o projeto apresentado pela Prefeitura, está prevista a desapropriação de 18 lotes necessários para o prolongamento da Avenida Hebe Camargo, além da desapropriação de outros 25 lotes destinados à implantação de equipamentos públicos e habitações. Os processos de desapropriação deverão ser iniciados nas próximas semanas.
Durante o incêndio desta quinta, lideranças da comunidade afirmaram que a tragédia evidenciou problemas históricos do território. Segundo elas, a Defesa Civil já havia apontado situações de risco em diferentes áreas da comunidade, mas parte dos moradores ainda aguarda soluções definitivas de moradia.
As intervenções previstas vão além das mudanças viárias e incluem a criação de novos equipamentos públicos em áreas consideradas deficitárias pelos moradores.
O projeto prevê a construção de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24 horas, a reforma de Unidades Básicas de Saúde (UBSs), a implantação de um polo cultural, esportivo e ambiental e a criação de um novo Armazém Solidário para famílias inscritas no Cadastro Único.
Na área da educação, o plano prevê um Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA), uma Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) e quatro Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIs), distribuídas entre Paraisópolis e Jardim Colombo.
Desconfiança
Apesar disso, lideranças afirmam que parte da população ainda acompanha o projeto com cautela, especialmente por causa de experiências anteriores envolvendo obras públicas dentro da comunidade.
Para Gabriel Finamore, morador e liderança comunitária de Paraisópolis, parte da apreensão dos moradores está relacionada às intervenções realizadas no Córrego Antonico. Segundo ele, muitas pessoas acabam associando as duas obras e acreditam que a nova etapa de urbanização terá o mesmo impacto das remoções ocorridas para a canalização do córrego.
“Muita gente já foi removida de casa por obras anteriores da Prefeitura. Houve famílias que receberam indenizações consideradas baixas e outras que esperaram anos para acessar uma moradia definitiva. Por isso, as pessoas acabam confundindo o que aconteceu no Córrego Antonico com o que está sendo discutido agora. Mas são projetos diferentes, com recursos diferentes e regras diferentes”, afirma.
De acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb), está em fase final a construção do novo reservatório de contenção de cheias na Praça Roberto Gomes Pedrosa, como parte das intervenções no Córrego Antonico.
Com investimento de R$ 273,8 milhões, o reservatório terá capacidade de armazenamento equivalente a 53 piscinas olímpicas. O projeto também inclui a implantação de novas galerias de drenagem para ampliar o escoamento das águas pluviais. A previsão é que a estrutura entre em operação até o fim deste ano.
Prédio do Morumbi visto de Paraisópolis
Cíntia Acayaba/g1
Para Gabriel, a dimensão territorial e populacional de Paraisópolis também dificulta que as informações circulem de forma homogênea entre os moradores.
Segundo ele, nem todos os detalhes do projeto foram definidos e apresentados à população, o que contribui para dúvidas e inseguranças.
“Paraisópolis é muito grande. Nem todo mundo recebe a informação ao mesmo tempo e ainda existem pontos do projeto que estão sendo discutidos. Isso acaba gerando interpretações diferentes e preocupações legítimas da população”, diz.
Participação popular
Apesar das incertezas, ele afirma que o diálogo entre as lideranças comunitárias e o poder público tem ocorrido de forma constante. Entre as principais demandas dos moradores estão a ampliação de equipamentos públicos, especialmente nas áreas de educação, saúde e arborização.
Gabriel avalia, no entanto, que a participação popular pode ser ampliada. Segundo ele, é importante que consultas públicas e reuniões com representantes da Prefeitura ocorram em horários acessíveis para os trabalhadores da comunidade.
A Prefeitura abriu uma consulta pública para receber contribuições da população entre os dias 3 e 17 de junho.
“Esse tipo de consulta precisa acontecer de forma presencial e fora do horário comercial. Não adianta marcar uma reunião no meio da tarde se a maior parte dos moradores está trabalhando. Para que a população participe e tire suas dúvidas, é preciso levar os secretários e os responsáveis pelo projeto para dentro do território em horários que permitam a presença dos moradores”, afirma.
A expectativa das lideranças é que a urbanização represente não apenas melhorias na infraestrutura, mas também a ampliação do acesso a serviços essenciais para uma população que continua crescendo dentro da comunidade.
Paraisópolis e o prédio com uma piscina por andar ao fundo
Cíntia Acayaba/g1
Incêndio
Na manhã desta quinta, um incêndio de grandes proporções atingiu a região da comunidade de Paraisópolis.
Pelo menos 150 famílias ficaram desalojadas após as chamas atingirem cerca de 60 barracos. De acordo com lideranças da comunidade, diversas construções abrigavam mais de uma família em diferentes andares.
Não houve vítimas e as causas do incêndio ainda serão investigadas pelas autoridades.
De acordo com moradores da região, a Prefeitura de São Paulo iniciou, em 2021, um processo de remoção das famílias que viviam na área. A Defesa Civil classificou o local como área de risco para alagamentos e deslizamentos, mas, segundo os moradores, nenhuma intervenção definitiva foi realizada desde então.
“A Defesa Civil já mapeou a área mais de duas vezes. O risco foi identificado, mas não foi combatido. Hoje aconteceu esse incêndio. As famílias já deveriam ter sido retiradas e indenizadas”, afirmou uma liderança comunitária.
Após o incêndio, moradores retornaram ao local na tentativa de recuperar objetos e pertences que resistiram às chamas.
Dez caminhões dos bombeiros com cerca de 33 profissionais atuaram na ocorrência. O incêndio já foi controlado.
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