
Estudo da USP revela a presença de poluição nas águas profundas do Brasil
Divulgação/Governo do Estado de São Paulo
Um estudo do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) encontrou microplásticos e poluentes persistentes em sedimentos, peixes e invertebrados que vivem em águas profundas do Brasil. As coletas foram realizadas na Bacia de Santos, entre 400 e 1.500 metros abaixo da superfície.
As amostras foram coletadas durante duas expedições a bordo do navio oceanográfico Alpha Crucis. Os pesquisadores usaram equipamentos capazes de retirar porções intactas de sedimentos marinhos e redes de arrasto para capturar peixes e invertebrados.
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Em nota divulgada pelo Governo de São Paulo, o orientador do estudo, Paulo Sumida, explicou que o mar profundo tem difícil acesso e exige um custo alto para pesquisa, mas é importante ser monitorado.
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“A presença de microplásticos e poluentes persistentes mostra parte do impacto das atividades humanas e como este ambiente não está tão distante das pessoas como se pode pensar”, disse o orientador, que também é coordenador do Laboratório de Ecologia e Evolução de Mar Profundo.
Poluentes encontrados
No laboratório, os profissionais analisaram os sedimentos e os peixes em busca de duas categorias de poluentes orgânicos persistentes (POPs): bifenilas policloradas (PCBs), que são isolantes elétricos, e éteres difenílicos polibromados (PBDEs), que atuam como retardantes de chamas, que têm longa duração no ambiente e acumulam-se nos organismos.
Nos sedimentos, os únicos poluentes detectados foram os PCBs. Já no conteúdo digestivo dos peixes, as duas classes de POPs foram encontradas nas seguintes espécies:
🐟Parasudis truculenta;
🐟Coelorinchus marinii;
🐟Hoplostethus occidentalis;
🐟Neoscopelus macrolepidotus.
Fibra plástica de poliacrilonitrila (canto superior esquerdo) ingerida por pepino-do-mar (canto inferior esquerdo). Amostra foi analisada pelo primeiro autor do estudo (à direita), Gabriel Stefanelli-Silva
Gabriel Stefanelli-Silva e Marcelo Roberto Souto de Melo/Agência Fapesp
Gabriel Stefanelli-Silva é o primeiro autor do estudo, realizado com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Também por meio de nota, ele destacou que a descoberta é importante para entender a ocorrência desses poluentes no mar profundo do Brasil.
“O maior desafio, porém, é determinar a origem dos compostos, já que tanto microplásticos quanto POPs são transportados na atmosfera, e como eles impactam a fauna de profundidade”, ressaltou Gabriel.
Microplásticos
Enquanto a análise dos sedimentos e dos peixes buscou os poluentes orgânicos persistentes, o objetivo dos invertebrados foi avaliar a presença de microplásticos, que são fragmentos de plástico com menos de cinco milímetros de comprimento.
“Mesmo quando a origem da poluição plástica é a costa, em algum momento essas partículas chegam ao mar profundo, como é chamado todo o ambiente marinho a partir de 200 metros de profundidade. Organismos detritívoros, que se alimentam de detritos no leito marinho, e filtradores são especialmente propícios a ingerir microplásticos”, explicou Stefanelli-Silva.
Áreas em que foram coletados organismos e sedimentos de profundidade, na Bacia de Santos, no litoral de São Paulo
Gabriel Stefanelli-Silva/Agência Fapesp
Para evitar contaminação das amostras por microplásticos presentes no ambiente de pesquisa, os profissionais seguiram um protocolo que incluía o uso de roupas e instrumentos sem fibras sintéticas. Veja abaixo quais microplásticos foram encontrados nos invertebrados:
👚Poliamida e a poliacrilonitrila, usadas na indústria têxtil;
🗑️Poliariletercetona e o poliestireno, que são plásticos resistentes com diversas aplicações;
🚢Polissulfeto, uma borracha sintética. Neste caso, é levantada a possibilidade de que a fonte da contaminação seja proveniente da indústria offshore (base de apoio para abastecimento em alto-mar) na Bacia de Santos. “Cinco plataformas atuam na área e seis outras estão previstas para 2027”, destacou o governo estadual.
Entre as nove espécies de invertebrados analisadas, a que mais continha microplásticos no sistema digestório era o pepino-do-mar (Deima validum). Os nomes dos outros oito animais não foram divulgados.
Publicação
O estudo foi publicado no Marine Pollution Bulletin por pesquisadores do IO-USP e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Ele integra o projeto “Diversidade e evolução de peixes de oceano profundo (Deep-Ocean)”, apoiado pela Fapesp no âmbito do Programa Biota e coordenado por Marcelo Roberto Souto de Melo, professor do IO-USP que também assina o trabalho.
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