
Dia do Orgulho: terapia afirmativa e o impacto da voz na saúde mental trans
O Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado em junho, traz à tona debates que vão além das conquistas jurídicas e do direito ao nome social. Um aspecto sutil, mas considerado vital para a população trans, tem ganhado destaque nos consultórios de saúde: a terapia vocal.
Sendo uma das expressões mais fortes da individualidade, fazer a voz dialogar com a identidade de pessoas travestis, mulheres, homens trans e não-binárias é uma questão de dignidade, saúde mental e segurança social.
Marcha da Visibilidade Trans de Sorocaba
Divulgação
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Em todo o estado de São Paulo, incluindo a região de Sorocaba, a atuação de um fonoaudiólogo é regulamentada e fiscalizada pelo Conselho Regional de Fonoaudiologia da 2ª Região (CREFONO-2), órgão que garante a aplicação de abordagens seguras e baseadas na ciência.
🗣️ Terapia vocal afirmativa
Ronielio Ribeiro de Sousa é fonoaudiólogo e conselheiro do CREFONO-2
Arquivo pessoal
O fonoaudiólogo e conselheiro do CREFONO-2, Ronielio Ribeiro de Sousa, de 31 anos, explicou que o termo “adequação vocal” vem sendo superado por um conceito mais acolhedor: a terapia vocal afirmativa.
“O objetivo central é expandir as possibilidades da voz e da expressividade para que reflitam a identidade da pessoa, promovendo conforto e autonomia, sem imposições normativas. A voz não dita o gênero; ela expressa a singularidade de cada corpo”, explicou.
Ele ressalta que, enquanto a testosterona expande a massa das pregas vocais e engrossa a voz dos homens trans, o estrogênio não tem o poder de afinar a laringe já desenvolvida das mulheres trans e travestis. É exatamente aí que a fonoaudiologia torna-se indispensável. Tentar forçar o trato vocal sem a coordenação muscular adequada gera uma sobrecarga severa, que pode resultar em:
Fadiga crônica;
Dor ao falar;
Rouquidão persistente;
Lesões estruturais graves, como nódulos ou fendas nas pregas vocais.
🏳️🌈 O Impacto na mente
Thaís Prestes Mazzotti é psicóloga de Sorocaba (SP)
Arquivo pessoal
O sofrimento gerado quando a voz não corresponde à identidade de gênero pode intensificar quadros de disforia. A psicóloga Thaís Prestes Mazzotti, de 33 anos, explica que esse desalinhamento atinge diretamente o posicionamento social do indivíduo.
“Quando a voz não corresponde à maneira como a pessoa se identifica, podem surgir sentimentos de frustração, desconforto e estranhamento em relação ao próprio corpo, afetando a autoestima e a autoconfiança”, afirmou a profissional, que é de Sorocaba (SP).
Esse sofrimento é ampliado pelo misgendering, ato de tratar a pessoa trans pelo gênero errado com base apenas no som da sua voz. Para a psicóloga de Sorocaba (SP), a necessidade constante de se corrigir e se explicar perante a sociedade gera um cansaço psicológico profundo.
“Essa repetição diária no trabalho, nos serviços de saúde ou em espaços públicos aumenta o sentimento de cansaço, invisibilidade e de não pertencimento. Quando essas vivências são persistentes, podem intensificar o sofrimento psíquico e agravar transtornos psicológicos.”
Quando o alinhamento vocal acontece, o impacto na qualidade de vida é imediato. Thaís destaca que os pacientes ganham maior espontaneidade, segurança e uma melhora significativa na inserção no mercado de trabalho, permitindo que participem de processos seletivos e dinâmicas sociais com menos medo de serem julgados ou invalidados.
🎶 Voz, arte e segurança
Victor Rocha, de 29 anos, fala sobre a terapia vocal
Arquivo pessoal
Para Victor Rocha, de 29 anos, a terapia vocal nunca foi apenas uma questão de adequação social, mas de sobrevivência artística e emocional. Sendo um homem trans e autista, ele usa o canto como a sua principal ferramenta de comunicação. Por anos, o pavor de que a hormonização pudesse silenciar sua música o paralisou.
O alívio veio há quatro meses, quando Victor iniciou a terapia vocal afirmativa. A fonoaudiologia mostrou ao paciente que era possível passar pelo processo preservando a saúde das pregas vocais. Hoje, ver a voz se transformando traz um misto de saudade do passado e a certeza do acerto.
“É uma sensação assustadora. É muito bom, mas, às vezes, me dá uma saudade daquela voz… Mas eu confio que vou conseguir voltar a cantar um dia. É só… certo. E é muito bom.”, afirmou.
Se no ambiente profissional o impacto foi leve, já que Victor atua como nutricionista quase exclusivamente com pacientes autistas e LGBTQIAPN+, nas ruas a nova voz revelou um peso social avassalador, escancarando as estruturas do machismo e da transfobia no cotidiano. A mudança no timbre trouxe, acima de tudo, proteção física e psicológica.
“É nítida a diferença de como me tratam dependendo da voz que eu falo ‘boa noite’. Eu já fiz o teste de mascarar e forçar a voz antiga para ver se era coisa da minha cabeça, mas não é. É muito triste e enfurecedor. Então a principal mudança foi a segurança.”
📢 O cenário do acesso no interior
Apesar dos benefícios evidentes, o acesso a esse tipo de tratamento ainda enfrenta barreiras estruturais no país. Ronielio aponta problemas graves como a centralização dos serviços especializados do SUS nas capitais, deixando o interior muitas vezes desassistido, além da falta de cobertura simplificada por convênios médicos.
Para quem vive na região de Sorocaba (SP), o caminho seguro é buscar profissionais devidamente registrados. O CREFONO-2 reforça que qualquer fonoaudiólogo registrado e devidamente capacitado na área de Voz está legalmente respaldado para realizar a abordagem afirmativa na região.
Garantir o direito à própria voz é, fundamentalmente, garantir o direito de existir com segurança. Como resume o conselheiro Ronielio, conquistar uma voz que dialogue com quem se é gera autonomia:
“O processo abre portas para a participação cidadã plena, permitindo que a pessoa ocupe espaços públicos e expresse seu potencial máximo no mundo.”
Dia do Orgulho: especialistas explicam importância da terapia afirmativa e como a voz impacta a saúde mental de pessoas trans
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*Colaborou sob supervisão de Gabriela Almeida
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