Dívidas de R$ 220,9 bilhões pressionam crédito corporativo no Brasil

A inadimplência das empresas atingiu um patamar recorde no Brasil e passou a pressionar a forma como o mercado avalia crédito corporativo. Segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas, divulgado em junho, 9 milhões de CNPJs estavam negativados em abril de 2026, o maior volume da série histórica. No mesmo período, as companhias acumulavam 63,7 milhões de dívidas em atraso, somando R$ 220,9 bilhões, com média de 7,1 contas inadimplidas por empresa. O cenário ocorre em meio a uma Selic de 14,50% ao ano, após a decisão do Copom de abril, patamar que mantém elevado o custo de capital para companhias que dependem de giro, rolagem de passivos e financiamento da operação.

O crédito corporativo continua relevante para a economia, mas passou a exigir filtros mais rigorosos. Em abril, o crédito ampliado destinado às empresas chegou a R$ 7,1 trilhões, equivalente a 54,3% do PIB, com alta de 6,6% em 12 meses, puxada principalmente pelo crescimento de 17,2% nos títulos de dívida. O movimento mostra que o capital segue disponível, mas em uma dinâmica mais seletiva, na qual a análise deixa de depender apenas da fotografia contábil e passa a observar capacidade real de pagamento, qualidade das garantias e comportamento operacional ao longo do tempo.

Um levantamento interno da Intra Asset, realizado a partir do histórico de análise da gestora nos últimos 6 anos, mostra a dimensão desse filtro. Cerca de 1.500 grupos empresariais passaram por avaliação técnica no período. A média de aprovação ficou próxima de 50%, aproximadamente 500 grupos chegaram a operar com a casa e, atualmente, cerca de 100 grupos empresariais permanecem ativos. As análises envolvem companhias com faturamento anual superior a R$ 120 milhões, com cerca de 60% da exposição concentrada em empresas com receita acima de R$ 1 bilhão por ano. A carteira tem maior presença na indústria, com aproximadamente 45% da exposição, seguida por comércio, varejo, atacado e distribuidores, com cerca de 30%, e agronegócio, com aproximadamente 20%.

Para Fernando Moreira, Diretor de Gestão de Fundos da Intra Asset, a leitura de risco precisa considerar elementos que nem sempre aparecem de forma clara nos demonstrativos financeiros. “O balanço mostra uma parte importante da história, mas não mostra tudo. Em crédito corporativo, o ponto central é entender o movimento da empresa, o setor em que ela está inserida, a pressão sobre o caixa e os sinais que aparecem antes do problema se tornar inadimplência. Uma companhia pode parecer saudável nos demonstrativos e, ao mesmo tempo, carregar fragilidades que só aparecem quando se observa a operação de perto.”, afirma Moreira.

A análise passa por indicadores como geração de caixa, liquidez, alavancagem, estrutura de capital, qualidade das garantias, governança, comportamento em bureaus de crédito, concentração de dívidas, dependência de capital de curto prazo, qualidade dos recebíveis, recorrência da receita, margens operacionais e capacidade de cobertura dos encargos financeiros. A diferença está no acompanhamento contínuo. Muitas empresas não entram em default de forma repentina. Antes disso, surgem sinais como deterioração de margem, alongamento de pagamentos, perda de previsibilidade nas receitas, concentração em poucos clientes, atraso com fornecedores, encurtamento de prazo bancário e necessidade recorrente de capital de giro para cobrir desequilíbrios operacionais.

Esse acompanhamento ajuda a explicar a evolução da carteira da gestora. Dos cerca de 500 grupos empresariais que já operaram com a Intra Asset, aproximadamente 100 seguem ativos. Entre os demais 400 grupos, cerca de 70% deixaram a carteira após piora de risco e saída preventiva da exposição, enquanto 30% melhoraram sua condição financeira, quitaram as operações e voltaram a acessar crédito junto a grandes bancos. “Em crédito, aprovar a operação é só o começo. O risco precisa ser acompanhado durante toda a vida da exposição. Uma empresa pode melhorar, pagar e voltar ao mercado bancário tradicional, mas também pode deteriorar rapidamente e exigir uma saída preventiva. O ponto central é não esperar o default aparecer para agir. A gestão de crédito precisa identificar o risco antes que ele se transforme em perda.”, afirma Moreira.

Para as empresas, o novo ambiente muda a preparação antes da tomada de recursos. Porte, faturamento e histórico bancário continuam relevantes, mas já não bastam. Companhias com informações consistentes, governança mínima, fluxo de caixa monitorado e estratégia clara para uso dos recursos tendem a atravessar melhor o processo de análise. Já negócios que buscam capital apenas quando a pressão de caixa se tornou urgente encontram um mercado menos disposto a financiar desequilíbrios recorrentes.

A mudança também reposiciona o crédito privado. Com juros altos, inadimplência elevada e empresas em busca de fontes alternativas de financiamento, investidores passaram a valorizar estruturas capazes de combinar dados, governança, garantias e acompanhamento próximo. “O produto de crédito só funciona bem quando a análise vem antes da operação. O papel da estrutura é oferecer capital de forma compatível com o risco, com garantias, prazos e acompanhamento adequados. Não se trata de negar crédito por cautela excessiva, mas de direcionar recursos para empresas que conseguem transformar financiamento em continuidade, eficiência e crescimento sustentável.”, afirma Moreira.

O histórico da Intra mostra que a seletividade não representa fechamento do mercado. O crédito estruturado pode financiar empresas com capacidade real de pagamento e, ao mesmo tempo, retirar exposição quando o risco deixa de fazer sentido. Para companhias que buscam capital, o recado é direto: organização financeira, transparência e previsibilidade deixaram de ser diferenciais e passaram a ser condições para acessar crédito em um ambiente mais rigoroso.

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