
Felipe Espinosa Wang
Um parasita que muitas vezes associado apenas aos gatos, que são seus hospedeiros, pode representar um problema de saúde pública muito maior do que se imaginava. Trata-se do Toxoplasma gondii, causador da toxoplasmose, uma infecção que, segundo diferentes estimativas, afeta cerca de um terço da população mundial (aproximadamente 2,4 a 2,7 bilhões de pessoas).
Apesar dos números impactantes, a doença ocupa pouco espaço nas agendas internacionais de saúde pública. E é justamente isso que um grupo de pesquisadores pretende mudar. Uma equipe internacional liderada pelos oftalmologistas Justine Smith, da Universidade de Flinders, da Austrália, e João Furtado, da Universidade de São Paulo (USP), defende que chegou o momento de deixar de perceber a toxoplasmose como um problema menor.
Em um artigo de opinião publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases no final de junho, os cientistas pedem que a Organização Mundial da Saúde (OMS)reconheça oficialmente a toxoplasmose como uma Doença Tropical Negligenciada (DTN).
Segundo os autores, essa classificação costuma resultar em mais financiamento para pesquisas, campanhas de prevenção e programas de saúde pública, áreas que hoje praticamente não recebem atenção para uma infecção tão disseminada.
Como o parasita é transmitido
A toxoplasmose é transmitida pela exposição a fezes contaminadas de gatos, pela ingestão de alimentos mal cozidos, como carne crua ou mal passada, e água que contenham o quisto do parasita, ou ainda durante a gravidez se a gestante contrair o protozoário nesse período.
Uma vez no organismo, o parasita geralmente permanece ali por toda a vida, na maioria dos casos latente, ou seja, sem causar sintomas da doença. No entanto, essa aparente discrição tem exceções importantes.
Quando a infecção ocorre durante a gravidez, o parasita pode atravessar a placenta e causar abortos espontâneos ou danos neurológicos e oculares permanentes ao feto. Segundo um estudo de 2013 citado pelo portal Science Alert, cerca de 190 mil bebês nascem todos os anos com toxoplasmose congênita.
A toxoplasmose pode ainda causar problemas de visão. O parasita também pode atingir a retina de infectados, provocando uma inflamação que, se evoluir, pode deixar sequelas permanentes. Essa manifestação da doença constitui a infecção intraocular mais comum do mundo e representa uma importante causa de perda de visão.
Embora as evidências continuem sendo debatidas, vários estudos sugerem que uma infecção latente pelo protozoário pode alterar de forma sutil o comportamento e a personalidade, tanto de animais quanto de seres humanos, podendo até estar associada a um maior risco de transtornos como a esquizofrenia.
Nos roedores, esse fenômeno está bem documentado: o parasita reduz o medo natural dos ratos em relação aos gatos e os torna mais ousados, uma manipulação biológica tão eficaz quanto impressionante, que pode favorecer a conclusão do ciclo de transmissão do parasita.
Uma carga desigual
O estudo também destaca que o impacto da doença está longe de ser distribuído de maneira equilibrada. Segundo o portal Gizmodo, estima-se que cerca de 10% da população dos Estados Unidos já tenha contraído o parasita. Em algumas áreas altamente endêmicas do Brasil, por outro lado, a prevalência pode chegar a 80% das comunidades mais pobres.
Essa desigualdade é um dos principais argumentos apresentados pelos pesquisadores. Para que uma doença seja classificada pela OMS como uma DTN, ela deve afetar de forma desproporcional as populações mais vulneráveis. E, segundo os autores, a toxoplasmose cumpre claramente esse requisito.
“A toxoplasmose é uma das principais infecções oculares e uma importante causa de perda de visão em todo o mundo, mas recebe atenção limitada nas agendas globais de saúde”, afirmou Smith em um comunicado da Universidade de Flinders.
João Furtado, por sua vez, argumenta que a doença continua sendo amplamente mal compreendida. “Muitas vezes, a toxoplasmose é considerada inevitável, mas suas formas de transmissão são bem conhecidas e ela pode ser prevenida e controlada”.
Mudança do cenário global
Outros critérios para que a OMS classifique uma doença como tropical negligenciada são estar concentrada em áreas de pobreza, ser amplamente disseminada em regiões tropicais e subtropicais, ser passível de prevenção e controle e, ao mesmo tempo, receber pouca atenção em pesquisas e políticas públicas.
Segundo os autores do artigo, a toxoplasmose atende a todos esses critérios. Ainda assim, atualmente, recebe menos financiamento do que outras doenças com impacto semelhante ou até menor. Além disso, não existe vacina nem tratamento capaz de eliminar completamente o parasita. Os medicamentos disponíveis apenas permitem controlar os surtos da doença.
Furtado enfatiza que o objetivo não é gerar pânico nem transformar os gatos em vilões. “Medidas simples são importantes: cozinhar bem a carne, lavar frutas e verduras, lavar as mãos após manusear carne crua, terra ou areia de gatos, evitar o consumo de água não potável e tomar cuidados especiais durante a gravidez”.
Da mesma forma, ele ressalta que a responsabilidade não pode recair apenas sobre os indivíduos. Segurança alimentar, acesso à água potável, saneamento básico e assistência pré-natal são, em última análise, responsabilidades coletivas.
Os pesquisadores concluem que o reconhecimento da toxoplasmose como Doença Tropical Negligenciada poderia mudar esse cenário. Essa classificação abriria caminho para a incorporação de medidas preventivas no pré-natal e nos serviços básicos de saúde, além de favorecer o financiamento de pesquisas para vacinas, diagnósticos e tratamentos, áreas que ainda permanecem como desafios importantes.
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Autor: Felipe Espinosa Wang
