
Não tem nada mais perigoso para um ser humano do que as horas seguintes a uma eliminação traumática em Copa do Mundo. Em qualquer competição de futebol, na verdade, mas Copa é um pouco mais complexo porque só vamos ter chance de sermos humilhados de novo daqui a quatro anos.
Um sujeito mordido por uma derrota como a de domingo pode queimar de uma vez o arsenal de fogos comprados para durar até pelo menos a semifinal. Pode fazer o mesmo com o estoque de bebidas pensado para o mês de julho. Pode curar a depressão resolvendo tirar as camisetas penduradas na esteira e passar o resto da noite correndo para lugar nenhum. Pode adiantar um relatório do trabalho para sexta-feira. Pode fazer planos de dieta e mudar de vida. Pode fazer promessas para se curar do vício. Qualquer vício. Futebol, por exemplo. Pode pedir alguém em namoro. Ou botar ponto final no que não tem mais sentido. E pode zapear na TV e buscar qualquer coisa para desgraçar de vez a cabeça.
Foi o que fiz ao notar que no catálogo da Netflix estava o filme “Foi Apenas um Sonho”, de Sam Mendes. Vi aquela desgraça em 2008 e tenho sequelas até hoje.
O filme conta a história de um casal lindo, transante e promissor que vê a vida a dois desabar sem motivo aparente. O título original, “Revolutionary Road”, é menos pornográfico que o spoiler autoexplicativo da legenda em português – além de fiel à ironia macabra do livro de Richard Yates. Não há nada de revolucionário, afinal, na rua para onde April e Frank, o casal interpretado por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, se mudam no subúrbio de Connecticut em meados dos anos 1950. Aquele era só um lugar de gente distinta e diferenciada. Como tantos.
Não é preciso mais de dez minutos para saber que o filme é a demolição sem anestesia daquilo que se convencionou a chamar de “sonho americano”. Mesmo tema, aliás, do trabalho anterior de Sam Mendes, “Beleza Americana”.
Em 2008, quando assisti ao filme pela primeira vez, eu tinha só 25 anos e não tinha ideia do que era o sonho da casa própria. Mesmo assim acreditava ser esperto demais para sair da sessão convicto de que filmes como aquele eram um spoiler de efeito retroativo para duvidar no futuro de tudo o que me oferecessem na vida adulta. A começar pelos folhetos das empreendedoras da minha cidade no subúrbio que incutiam um vislumbre de felicidade em cada sorriso de criança projetado nas fotos dos anúncios. Mas ó, comigo, não. Esse filme eu já vi.
Mas assistir ao mesmo filme aos 43 anos é outra coisa. Ele ele é melhor do que eu imaginava. E diferente do que eu lembrava.
Na minha memória, o barraco daquela família começa a desabar quando o sonho almejado é alcançado e eles descobrem que não há pote de ouro ao fim do arco-íris. Só um vazio. Na verdade é outra a cenoura pendurada no focinho daquela gente honesta, boa e corrompida.
April nunca quis aquela vida estável dentro de uma bela casa de paredes brancas. Aquilo, para ela, só era suportável como um projeto provisório. O que atrai o casal até a casa na Rua da Revolução (risos) é a ideia, vendida pela corretora de imóveis, de que aquele era um lugar de gente diferenciada. Eles não são idiotas a ponto de acreditarem naquilo por muito tempo. Bastava sentar para jantar com os vizinhos.
Escaldada, April passa, então, a alimentar o sonho de que não é uma daquelas pessoas na sala de jantar ocupadas em nascer e morrer e beber até morrer entre um momento e outro.
Ela alimenta ambições artísticas, mas entra em parafuso quando descobre que não tem o talento necessário para brilhar como atriz de teatro. Desfeito, de novo, o sonho, ela passa a lembrar o que a levou a se apaixonar por Frank – um menino promissor, brilhante, rebelde, leitor voraz (“a pessoa mais interessante que eu já vi”), que havia sobrevivido à guerra e, na volta, se negava a ser mais um na multidão. Corta a cena e o jovem adulto com seu terno e chapéu cinzas já não se destaca na multidão de homens de terno e chapéu cinzas na fila do trem em direção ao centro da cidade, onde todos ganham a vida como um funcionários-padrão de um emprego sem grandes emoções em escritórios rodeados por gente sem pretensão na vida a não ser nascer e morrer e beber até morrer.
April e Frank sobrevivem àquela vida sob a o devaneio de que não são como todo mundo. Apenas aceitaram aquela vida para sair dela com alguma grana e o que sobrou dos grandes desejos – tem uma expressão em inglês intraduzível para isso: Wanderlust.
O plano de fuga é uma estratégia simbólica de sobrevivência que envolve largar todo aquele grande nada e se aventurar em Paris para ondem querem se mudar para correr risco, correr perigo, e encontrar pessoas igualmente diferenciadas, longe daqueles protótipos de animais suburbanos bestializados pelo sonho americano – basicamente um conto de fadas para vender bens de consumo como geladeira e fogão.
Na capital francesa April trabalharia como secretária e daria espaço para o marido ser o que prometeu um dia: um sujeito de ideias e possível romancista. Ele não tinha o trabalho nem ele o tamanho para isso, mas, como dizia o meme, o legal (na verdade, o fundamental) é se enganar.
Um visitante improvável, filho da corretora que acaba de sair do hospital psiquiátrico e é apresentado ao casal 20 do bairro, é quem entende tudo sem que alguém tenha de fato coragem de dizer em voz alta. Paris, para aqueles dois, não é só um plano antimonotonia. Um casal pode suportar uma vida vazia, diz o personagem vivido por Michael Shannon. Mas não uma vida sem esperanças. E Paris, para eles, era a esperança de que aquela vida vazia fosse apenas transitória. Bingo.
Um dia Frank recebe uma proposta de promoção no trabalho que odeia. O conflito entre a estabilidade e o sonho de não ser mais um em outra multidão (uma multidão que já não pega metrô, mas ainda assim uma multidão) rompe o último laço que o unia a April. Ela até suporta o fracasso como atriz – há muitas variáveis fora dos palcos para explicar um insucesso, como os filhos, os cuidados com a casa, a sombra insensível do marido provedor e talhado para brilhar. Mas lidar com o revés da projeção de que o Frank não era só mais um imbecil na multidão é demais.
Na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza, toda aquela vida só faz sentido se houver uma espera anterior: se a casa não é suficiente, vamos para uma maior. Ou passamos os próximos anos na esperança de que a reforma ocupe corações e mentes. Se não, botamos outro filho na conta. Ou então uma viagem. Uma mudança. Um projeto de reencontro com aquilo que fomos um dia: meninos e meninas que sonhavam ser qualquer coisa que não fosse todo mundo. Que não fossem os mesmos nem vivessem como os próprios pais (a ironia, para Frank, era poder se destacar na mesma empresa onde o pai morreu sem ser lembrado).
A projeção do passo seguinte é a esperança de que falava o personagem incômodo de Michael Shannon. É preciso esperança para aguentar uma vida vazia. A de que ela não será vazia sempre.
A espera justifica tudo. É a fé de que a montanha se moverá que torna suportável a ideia de que é possível passar a vida no mesmo lugar sem se mover – a mesma sala de jantar, ocupados em…bem, vocês já sabem.
April perde as esperanças quando perde a muleta da alteridade, essa projeção de um outro que se não indeniza nossos fracassos ao menos os explica porque nos destitui de sonhos, rotas e projetos originais trocados por algo maior (risos, muitos risos).
Num dos diálogos mais duros de todo o filme, ela questiona o timing do marido para contar uma traição (eu, inocente, puro e besta em 2008, achava mesmo que aquele era um grande problema entre eles). “Por que você está me contando agora? Para que eu sinta ciúmes e tente reconquistar você? Isso não vai acontecer. Eu não te amo. Na verdade, eu te desprezo. Você é só um homem que um dia me fez rir numa festa”, ela diz, inconformada apenas pela traição de quem prometia implodir o american way of life até perceber que o american way of life era tudo o que ele tinha a dar a ela.
Como todo mundo, aquele casal acreditou que era bom demais para viver como todo mundo. A ponto de tornar suportável a ideia de viver como todo mundo, e fugir como todo mundo dos grandes questionamentos humanos guardados nas gavetas da sala de jantar onde todos estão ocupados demais em revirar gavetas. Melhor só jantar e dormir.
Na ressaca, aquela vida a dois voltou com algumas verdades (oi, vocês não são especiais), muito medo e algum desejo de estagnação – o que é bem diferente da estagnação forçada por falta de opção. E é aí que a coisa implode.
Todos, inclusive April e Frank, que um dia foram Rose e Jack e tiveram os sonhos congelados, mas preservados por um iceberg, são capazes de viver uma vida vazia. Desde que acreditem que ela tenha sentido e seja composta por rotas de fuga. As existentes e as imaginárias.
