A ação mais barata da Bolsa nem sempre é o melhor investimento

Uma das perguntas que mais recebo de investidores é relativamente simples: “Qual é a ação mais barata da Bolsa hoje?”

A pergunta parece lógica, mas parte de uma premissa equivocada. Afinal, investir em ações não significa simplesmente comprar empresas negociadas com os menores múltiplos do mercado.
É comum observar investidores montando carteiras apenas olhando indicadores como P/L (Preço/Lucro) ou P/VPA (Preço sobre Valor Patrimonial). Embora sejam métricas extremamente úteis, elas nunca deveriam ser utilizadas de forma isolada.

O mercado dificilmente “erra” por muito tempo. Quando uma empresa negocia com forte desconto, normalmente existe uma razão para isso.

O que é o P/VPA?

O P/VPA (Preço sobre Valor Patrimonial por Ação) mostra quanto o mercado está disposto a pagar pelo patrimônio líquido de uma empresa.

Se uma companhia possui patrimônio líquido equivalente a R$ 100 por ação e negocia a R$ 60, seu P/VPA será de 0,60x.

Em um primeiro momento, muitos investidores concluem que estão comprando “R$ 100 por apenas R$ 60”.

Mas essa interpretação pode ser extremamente perigosa.

O patrimônio de uma empresa só possui valor econômico se for capaz de gerar retornos consistentes aos acionistas. É justamente aqui que entra um indicador ainda mais importante: o ROE (Return on Equity).

O ROE explica o desconto

O ROE mede quanto lucro a empresa consegue gerar utilizando o patrimônio dos seus acionistas. Em outras palavras, ele responde uma pergunta simples:

A companhia está conseguindo transformar patrimônio em geração de riqueza?

Se o retorno é baixo, o mercado tende a atribuir um múltiplo menor ao patrimônio. Não porque a empresa esteja “barata”, mas porque aquele patrimônio produz pouco valor. Essa é uma distinção que muitos investidores ignoram.

Banco do Brasil: um exemplo clássico

O Banco do Brasil sempre foi lembrado como uma das ações mais baratas da Bolsa. Hoje continua negociando próximo de 0,6 vez o seu valor patrimonial, um dos menores múltiplos entre os grandes bancos brasileiros.

À primeira vista, parece uma enorme barganha. Mas o mercado olha além do patrimônio.

Após os resultados mais recentes, o banco apresentou forte deterioração na rentabilidade, com queda expressiva do lucro e um ROE próximo de 7%, muito inferior ao histórico da própria instituição e abaixo do custo de capital estimado para um banco desse porte.

Em outras palavras, o mercado não está simplesmente descontando o patrimônio. Está descontando a menor capacidade de gerar retorno sobre esse patrimônio. Enquanto o investidor enxergar apenas um P/VPA de 0,6x, estará ignorando justamente o principal motivo desse desconto.

Mitre: patrimônio sem rentabilidade

Outro exemplo interessante é a Mitre Realty. A companhia negocia historicamente com múltiplos bastante descontados em relação ao seu patrimônio líquido. Novamente, muitos investidores interpretam isso como oportunidade automática. Mas basta olhar para a rentabilidade.

Nos últimos trimestres, a empresa continuou enfrentando dificuldades para transformar seu patrimônio em lucro consistente, refletindo um ROE ainda baixo para os padrões do setor, mesmo com esforços para acelerar vendas e melhorar sua operação. A prévia operacional do 2T26, por exemplo, mostrou queda relevante nas vendas líquidas na comparação anual, evidenciando que a recuperação ainda enfrenta desafios.

Ou seja, o mercado não está ignorando o patrimônio da companhia. Está precificando a dificuldade de monetizar esse patrimônio de forma eficiente. O mercado compra retorno, não patrimônio

Existe uma máxima bastante conhecida entre investidores institucionais:

“Empresas não são negociadas pelo patrimônio que possuem, mas pelo retorno que conseguem extrair dele.”

É exatamente por isso que empresas com ROEs elevados frequentemente negociam acima do valor patrimonial.
E empresas com baixa rentabilidade costumam permanecer durante anos negociando abaixo dele. O desconto, muitas vezes, não representa uma oportunidade.

Representa apenas uma fotografia fiel da qualidade do negócio.

O investidor precisa fazer a pergunta certa

Ao encontrar uma empresa negociando a 0,5 ou 0,6 vez o patrimônio, a pergunta não deveria ser:

“Por que ela está tão barata?”

A pergunta correta é:

“O que está impedindo essa empresa de gerar mais valor para os seus acionistas?”

Essa mudança de perspectiva faz toda a diferença.Investir não consiste em comprar ativos baratos.
Consiste em identificar empresas cuja capacidade futura de geração de valor ainda não foi plenamente reconhecida pelo mercado.

E essa diferença separa quem apenas compra ações descontadas de quem realmente investe em negócios capazes de multiplicar patrimônio ao longo do tempo.

*Coluna escrita por Marco Saravalle, mestre em Economia e Finanças pela FGV/EESP, CIO da MSX e diretor de Investimentos da Krivo Capital. Sócio e estrategista-chefe da MSX Invest, é analista certificado CNPI, empreendedor, comentarista, educador e palestrante, com mais de 25 anos de experiência no mercado financeiro e passagens por algumas das maiores instituições financeiras do país.

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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