GCM: agentes denunciam abandono de bases na periferia de SP

Inspetoria da Vila Mariana da GCMFoto: Reprodução/Google Maps
Inspetoria da Sé da GCM, no Centro de São PauloFoto: Reprodução/Google Maps
Inspetoria do Ipiranga da GCMFoto: Reprodução/Google Maps

Enquanto a Prefeitura de São Paulo destaca investimentos na modernização das bases da Guarda Civil Metropolitana (GCM), uma lista obtida pelo iG junto ao SindGuardas aponta que oito unidades ainda não passaram por reformas estruturais. Dessas, sete estão localizadas em regiões periféricas da capital: Itaquera, Jaçanã-Tremembé, Brasilândia, Cidade Ademar, M’Boi Mirim, Campo Limpo e Parelheiros. A única exceção é a unidade do Butantã, na Zona Oeste.

Segundo o sindicato, essas inspetorias concentram algumas das principais reclamações relacionadas à infraestrutura. Os relatos envolvem desde infiltrações e falta de manutenção até problemas em banheiros, vestiários e alojamentos.

Um dos casos envolve a Inspetoria do Jaçanã-Tremembé. Segundo o ex-GCM e pré-candidato a deputado estadual Caio Santana, os agentes estão trabalhando provisoriamente em outra unidade há cerca de um mês e meio após a queda do telhado da base.

Inspetoria da Vila Mariana da GCMFoto: Reprodução/Google Maps
Inspetoria da Sé da GCM, no Centro de São PauloFoto: Reprodução/Google Maps
Inspetoria do Ipiranga da GCMFoto: Reprodução/Google Maps

Santana afirma que o desabamento ocorreu após a instalação de placas solares no prédio. A reportagem questionou a Prefeitura sobre as causas do incidente e aguarda resposta.

Inspetoria da Vila Mariana da GCMFoto: Reprodução/Google Maps
Inspetoria da Sé da GCM, no Centro de São PauloFoto: Reprodução/Google Maps
Inspetoria do Ipiranga da GCMFoto: Reprodução/Google Maps

Outra denúncia recebida pelo iG, acompanhada de fotografias, mostra problemas na Inspetoria de Ermelino Matarazzo. Segundo os relatos, a unidade está sem bebedouros em funcionamento, possui banheiros interditados, infiltrações, falta de manutenção e a circulação de ratos pelo local. 

Banheiros interditados na Inspetoria Regional Ermelino Matarazzo da GCM, antiga unidade de São Miguel PaulistaReprodução/Instagram @cop_santana

As reclamações não se restringem às condições físicas dos prédios. Na Inspetoria da Penha, guardas relatam redução do efetivo no período noturno, cancelamento frequente de folgas, transferências consideradas abusivas e restrições impostas aos servidores do turno da manhã para a realização de atividades físicas.

Segundo o diretor de comunicação do SindGuardas, Maurício Villar, as unidades que ainda não passaram por reformas são justamente as que apresentam os problemas mais graves.

Segundo Villar, embora todas as unidades recebam uma verba de aproximadamente R$ 500 para pequenos reparos, esse valor não é suficiente para solucionar problemas estruturais. Ele afirma que muitas dessas bases funcionam em imóveis adaptados e nunca passaram por uma reforma completa.

Nos últimos anos, a Prefeitura realizou reformas em bases da GCM em bairros como Jabaquara, Santo Amaro e Guaianases.

Centro x periferia

Inspetoria da Vila Mariana da GCMFoto: Reprodução/Google Maps
Inspetoria da Sé da GCM, no Centro de São PauloFoto: Reprodução/Google Maps
Inspetoria do Ipiranga da GCMFoto: Reprodução/Google Maps

Caio Santana trabalhou nas Inspetorias de Cidade Tiradentes e Itaquera. Segundo ele, durante o período em que esteve na unidade de Itaquera, a estrutura do prédio era precária e recebeu apenas intervenções superficiais.

“Os vestiários ou não tinham chuveiros ou os que tinham não funcionavam e, quando funcionavam, só tinha água fria. Faltavam bancos, não havia sala de reunião e era tudo muito apertado. Como dividíamos o prédio com o comando operacional, ficava superlotado. A gente não podia ficar dez minutos a mais na base para tomar um café porque simplesmente não cabia todo mundo. Chegou uma época em que faltava até papel higiênico.”

Santana afirma que também trabalhou na sede da GCM, na Sé, e percebeu diferenças entre as unidades centrais e as periféricas.

A percepção é compartilhada pelo inspetor aposentado Carlos Matos, que atuou durante 37 anos na corporação. Segundo ele, ao longo da carreira foi possível observar diferenças significativas na manutenção das unidades.

“Unidades como a Inspetoria da Sé, a Inspetoria de Defesa da Mulher e Ações Sociais (IDMAS) e o Comando Operacional Centro receberam maior atenção e investimentos ao longo do tempo. Já as regiões periféricas e a Zona Oeste permaneceram historicamente desamparadas.”

Segundo Matos, muitas bases da GCM funcionam em imóveis que não pertencem à corporação, instaladas em prédios alugados ou compartilhados com outros órgãos municipais.

Questionado sobre os critérios para definição das reformas, o inspetor aposentado afirma que as decisões eram influenciadas pelas prioridades de cada gestão.

As diferenças apontadas pelas fontes também aparecem, segundo elas, na distribuição de novos equipamentos. Em 2025, por exemplo, a Prefeitura anunciou a incorporação de viaturas elétricas destinadas às regiões do Centro e da Vila Mariana.

Impacto na saúde mental

Para representantes da categoria, as condições de trabalho também têm reflexos na saúde mental dos agentes. Segundo o SindGuardas, entre 2021 e 2025 foram registrados 14 suicídios de guardas civis metropolitanos em São Paulo. Em 2026, outros três agentes morreram. 

Na avaliação de Carlos Matos, a precariedade da estrutura contribui para esse cenário.

“O impacto é devastador. Trabalhar em um ambiente insalubre e precário afeta diretamente a autoestima do guarda civil, que se sente desprestigiado pela instituição. Isso contribui para o adoecimento mental e compromete, inclusive, a qualidade do atendimento prestado à população.”

No dia 6 de julho, o iG entrou em contato com a Secretaria Municipal de Segurança Urbana de São Paulo para solicitar informações sobre os investimentos e a distribuição de recursos entre as bases da Guarda Civil Metropolitana em diferentes regiões da cidade. Na quarta-feira (8), a reportagem também pediu uma entrevista com a secretária Juliana Lopes Bussacos. O pedido foi reiterado na última segunda-feira (13) e novamente na terça-feira (14), mas, até a publicação desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.

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