A crítica à suposta omissão brasileira ignora um fator decisivo: diferentemente de outras economias, o Brasil chegou à disputa tarifária em posição de déficit comercial e com margem reduzida de barganha.
As tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros abriram um intenso debate sobre a condução da política externa e da estratégia comercial do Brasil. Para parte da imprensa e de diversos analistas, o governo brasileiro teria sido pouco atuante nas negociações ou deixado escapar oportunidades para evitar o agravamento das barreiras tarifárias.
Essa interpretação, entretanto, merece uma reflexão mais cuidadosa.
Antes de discutir se o Brasil está negociando pouco ou muito, é preciso responder a uma pergunta anterior: o país realmente possuía margem para negociar?
A resposta passa menos pela habilidade diplomática e mais pela posição econômica ocupada pelo Brasil na relação bilateral com os Estados Unidos.
Ao contrário do que ocorreu com a União Europeia, o Japão, a Coreia do Sul e até o mesmo Reino Unido, o Brasil entrou nessa disputa em uma condição estruturalmente menos favorável. Mais do que isso: o conflito deixou de ser apenas comercial e passou a incorporar interesses políticos, tecnológicos e geopolíticos que reduziram significativamente o espaço para uma negociação tradicional.
Como se chegou a esse impasse
O atual conflito comercial não surgiu de forma repentina. Ele foi construído ao longo de meses por meio de decisões sucessivas do governo americano.
Em abril de 2025, durante o chamado Dia da Libertação, o presidente Donald Trump utilizou a Lei dos Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) para impor uma tarifa global de 10% sobre centenas de países. O Brasil exerceu na menor faixa de tributação e, naquele momento, não figurava entre os principais alvos da política comercial americana.
A situação mudou poucos meses depois.
Em julho de 2025, Washington elevou para 50% a tarifa incidente sobre diversos produtos brasileiros. A justificativa apresentada extrapolou a economia e fez referência a questões políticas internas do Brasil, especialmente decisões do Supremo Tribunal Federal. Pela primeira vez, a disputa comercial assumia contornos claramente geopolíticos.
Na sequência, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) abriu uma investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A partir daquele momento, o debate deixou de envolver apenas tarifas e passou a examinar temas como comércio digital, sistema de pagamentos eletrônicos, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, políticas ambientais e outras questões consideradas estratégicas pelos Estados Unidos.
Em fevereiro de 2026, parte das tarifas impostas com base no IEEPA foi derrubada pela Suprema Corte americana, que obteve não haver autorização legal para sua adoção nessa modalidade.
A decisão, porém, teve efeito limitado.
Poucos meses depois, o governo Trump retomou a ofensiva utilizando justamente a Seção 301, instrumento jurídico muito mais consistente do ponto de vista legal. Foram propostas novas tarifas sobre produtos brasileiros, acompanhadas de uma sobretaxa adicional relacionada às investigações sobre trabalho solicitado.
Durante esse período, representantes brasileiros participaram de reuniões técnicas e diplomáticas com o USTR na tentativa de reduzir os impactos das medidas.
Foi nesse contexto que surgiram as críticas de que o Brasil teria negociado um pouco.
Mas haverá, de fato, espaço para uma negociação capaz de alterar esse cenário?
O dado que muda toda a análise
Para responder a essa pergunta, é preciso observar um aspecto frequentemente ignorado nas comparações feitas entre o Brasil e outros países.
O comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos é deficitário para o lado brasileiro.
Em 2024, o déficit era relativamente pequeno. Em 2025, porém, ele aumentou de forma expressiva, enquanto as exportações brasileiras perderam ritmo e as vendas americanas para o mercado brasileiro continuaram crescendo.
Essa característica altera completamente a lógica de qualquer negociação comercial.
Países que acumulam grandes superávits podem oferecer concessões rápidas parte desse excedente. Já há economias deficitárias disponibilizadas de um espaço muito menor para fazer esse tipo de troca.
Essa diferença ajuda a explicar por que comparar o Brasil com a União Europeia, o Japão ou a Coreia do Sul pode levar a interpretações equivocadas.
A questão central, portanto, talvez não seja uma disposição do governo brasileiro em negociar, mas uma margem econômica reduzida disponível para fazê-lo.
Por que outros países estão negociando?
Grande parte das críticas dirigidas ao governo brasileiro parte da comparação com países que pretendem reduzir ou amenizar as tarifas pelos Estados Unidos. À primeira vista, o argumento parece consistente. Mas uma análise mais detalhada revela uma diferença fundamental: esses países negociavam a partir de uma posição econômica muito distinta da brasileira.
A União Europeia chegou às negociações acumulando um superávit comercial superior a US$ 200 bilhões em bens nas trocas com os Estados Unidos. Isso permitiu ao bloco oferecer concessões relevantes, como aumento das compras de gás natural liquefeito (GNL), ampliação de investimentos em território americano e maior abertura em áreas regulatórias. Em outras palavras, a Europa negociava flexível parte de um excedente que já existia.
O Japão encontra-se em situação semelhante. Com uma superávit expressiva nas relações bilaterais, Tóquio conseguiu ampliar investimentos industriais nos Estados Unidos, flexibilizar parcialmente seu mercado agrícola e aumentar aquisições de equipamentos de defesa. Eram concessões importantes, mas feitas a partir de uma posição confortável.
A Coreia do Sul também utilizou sua condição superavitária para negociar novos investimentos em semicondutores, baterias e tecnologia de ponta, setores considerados estratégicos para a economia americana.
A China representa um caso ainda mais particular.
Além do elevado superávit comercial, Pequim controla parte significativa da produção mundial de minerais críticos, possui enorme influência sobre cadeias globais de suprimentos e administra um dos maiores mercados consumidores do planeta. Sua capacidade de negociação decorre não apenas do comércio exterior, mas do peso geopolítico conquistado nas últimas décadas.
O Reino Unido costuma ser citado como exceção por apresentar déficit na relação comercial com os Estados Unidos. Ainda assim, sua posição é qualitativamente diferente da brasileira.
Londres oferece ativos estratégicos de enorme interesse para Washington, como seu mercado financeiro, cooperação em defesa, inteligência, tecnologia e inteligência artificial. Trata-se de instrumentos de influência que vão muito além da simples troca de mercadorias.
O Brasil negociava em outra realidade
Nenhuma dessas características está presente na relação entre Brasil e Estados Unidos.
A pauta exportadora brasileira continua fortemente concentrada em produtos agropecuários, minerais e bens industriais de média intensidade tecnológica. São setores fundamentais para a economia nacional, mas que oferecem menor capacidade de influência em uma negociação cujo foco deixou de ser exclusivamente comercial.
Além disso, o Brasil já apresentava déficit crescente na balança bilateral.
Esse detalhe muda completamente a lógica das concessões.
Quem possui superávit pode abrir espaço para ampliar importações ou reduzir barreiras sem comprometer significativamente sua posição comercial.
Quem já compra mais do que vende dispõe de uma margem muito menor para fazer concessões adicionais.
É justamente essa diferença que torna inadequada a comparação entre Brasil e países frequentemente apontados como exemplos de sucesso nas negociações com Washington.
Muito além das tarifas
Outro aspecto pouco observado é que a investigação aberta pelo USTR ultrapassou a discussão tradicional sobre tarifas de importação.
Os questionamentos passaram a envolver temas ligados à economia digital, ao sistema financeiro, à propriedade intelectual, ao meio ambiente e à regulação de mercados.
Na prática, o debate deixou de tratar apenas de comércio exterior e passou a alcançar decisões estratégicas do Estado brasileiro.
Essa mudança de foco ajuda a explicar por que a negociação se tornou muito mais complexa.
A partir desse momento, qualquer eventual concessão deixava de ser apenas econômica e passava a envolver questões de soberania regulatória, política pública e interesses estratégicos de longo prazo.
É justamente nesse contexto que surgem os seis pontos centrais da investigação conduzida pelos Estados Unidos com base na Seção 301.
Os seis pontos que os Estados Unidos colocaram na mesa
Até aqui, vimos que a margem de negociação brasileira já era limitada pela própria estrutura da relação comercial entre os dois países. Mas, afinal, o que exatamente Washington exigia do Brasil?
A investigação aberta pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, foi muito além da discussão sobre tarifas. Ela alcançou áreas estratégicas da economia e da política pública brasileira, tornando a negociação muito mais complexa.
1. Comércio digital, plataformas e o Pix
O primeiro ponto refere-se ao ambiente digital brasileiro.
Os Estados Unidos questionam decisões judiciais relacionadas às plataformas digitais e também alegam que determinadas regras podem favorecer empresas nacionais de meios de pagamento, especialmente após a consolidação do Pix.
Independentemente da posição de cada governo sobre esse tema, trata-se de uma discussão que envolve soberania regulatória e organização do sistema financeiro nacional.
O Pix tornou-se uma das principais inovações do sistema de pagamentos brasileiro, reduzindo custos de transação, ampliando a inclusão financeira e modificando profundamente a forma como empresas e consumidores realizam pagamentos.
Qualquer alteração nessa estrutura deixaria de ser uma simples concessão comercial para se transformar em uma decisão de política econômica interna.
2. Tarifas preferenciais para México e Índia
Outro questionamento do USTR envolve acordos comerciais que concedem tarifas diferenciadas para produtos originários de México e Índia.
Do ponto de vista técnico, o Brasil poderia revisar esses acordos.
A questão é o custo dessa decisão.
Atender à demanda americana significaria reduzir preferências concedidas a parceiros comerciais relevantes, enfraquecendo relações construídas ao longo de décadas sem que isso garantisse, necessariamente, a retirada das tarifas impostas pelos Estados Unidos.
Seria uma concessão de resultado altamente incerto.
3. Propriedade intelectual
A investigação também propõe o fortalecimento da proteção a patentes, marcas e direitos autorais.
Embora o aperfeiçoamento da legislação seja um processo contínuo, mudanças aceleradas para atender exclusivamente a uma negociação comercial poderiam produzir impactos sobre o custo de medicamentos, acesso à tecnologia e diversos segmentos da economia brasileira.
Mais uma vez, a discussão extrapola o comércio exterior e alcança escolhas permanentes de política pública.
4. O mercado brasileiro de etanol
Outro ponto sensível diz respeito ao acesso do etanol americano ao mercado brasileiro.
Uma eventual redução das tarifas poderia ampliar a competitividade do produto produzido a partir do milho nos Estados Unidos.
Entretanto, o Brasil possui uma indústria consolidada baseada no etanol de cana-de-açúcar, altamente competitiva e estratégica para o setor sucroenergético nacional.
Qualquer flexibilização exigiria avaliar seus impactos sobre produtores, usinas e investimentos realizados ao longo de décadas.
5. Desmatamento ilegal
As questões ambientais também passaram a integrar a investigação.
Os Estados Unidos defendem medidas mais rigorosas de combate ao desmatamento ilegal e vinculam esse tema ao comércio internacional.
Independentemente da importância da preservação ambiental, aceitar condicionantes externas nessa área significa discutir soberania sobre políticas ambientais, fiscalização e gestão territorial.
Mais uma vez, trata-se de um debate muito mais amplo do que uma negociação tarifária.
6. Trabalho forçado: uma barreira regulatória de difícil negociação
O sexto ponto refere-se às investigações sobre trabalho forçado, que deram origem à proposta de uma sobretaxa adicional aplicada ao Brasil e a dezenas de outros países.
Ao contrário das tarifas convencionais, essa medida possui natureza predominantemente regulatória.
Isso reduz significativamente a margem para negociação política, pois o tema envolve padrões internacionais de fiscalização e compromissos assumidos pelos próprios Estados Unidos.
Na prática, trata-se de uma barreira cuja reversão depende muito mais de processos administrativos e avaliações técnicas do que de concessões comerciais tradicionais.
O que esses seis pontos revelam
Quando analisados em conjunto, fica evidente que a investigação da Seção 301 não tratava apenas de ampliar exportações americanas.
Ela envolvia tecnologia, sistema financeiro, propriedade intelectual, energia, meio ambiente e regulação econômica.
Em outras palavras, o centro da discussão deixou de ser exclusivamente comercial e passou a atingir áreas estratégicas do Estado brasileiro.
É justamente essa característica que ajuda a explicar por que a negociação encontrou limites muito mais estreitos do que aqueles observados em disputas comerciais convencionais.
Serra Verde e as terras raras
Há ainda um aspecto pouco debatido, mas que ajuda a compreender a dimensão estratégica dessa disputa.
Em abril de 2026, a empresa americana USA Rare Earth assumiu o controle da Serra Verde, em Goiás, uma das mais importantes produtoras de terras raras fora da Ásia. Esses minerais são fundamentais para a fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.
É importante esclarecer que não se tratou de uma venda realizada pelo governo brasileiro, mas de uma operação privada entre empresas.
Ainda assim, o episódio ilustra um fato relevante: um dos ativos mais estratégicos da cadeia global de minerais críticos passou para o controle de uma empresa americana sem que isso produzisse qualquer contrapartida na política comercial entre os dois países.
Isso reforça a percepção de que a disputa ultrapassava interesses puramente econômicos e estava inserida em uma estratégia geopolítica mais ampla.
Retaliar resolveria o problema?
Diante das novas tarifas, surgiu também a defesa de uma resposta proporcional por parte do Brasil.
Do ponto de vista político, essa posição encontra apoiadores.
Do ponto de vista econômico, entretanto, seus efeitos são bem mais limitados.
A Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 confere ao governo americano amplo respaldo jurídico para impor medidas comerciais após a conclusão de um processo administrativo, diferentemente do IEEPA, cuja utilização para tarifas acabou rejeitada pela Suprema Corte dos Estados Unidos.
Isso significa que uma eventual retaliação brasileira dificilmente encerraria o conflito. Ao contrário, poderia ampliar uma escalada em uma relação comercial na qual Washington dispõe de instrumentos significativamente superiores.
Além disso, a proposta americana preservou diversos produtos considerados estratégicos para sua própria economia, como aeronaves, café, carne bovina e minerais críticos. A estratégia demonstra que o objetivo não era interromper completamente o comércio bilateral, mas aumentar a capacidade de pressão sobre setores específicos.
Mais uma vez, percebe-se que a lógica predominante deixou de ser exclusivamente comercial.
A diferença entre negociar e ter poder de negociação
Toda negociação internacional depende da competência diplomática.
Mas ela depende, antes de tudo, do poder econômico relativo de cada país.
Nações que acumulam grandes superávits comerciais, lideram setores tecnológicos estratégicos ou exercem influência sobre cadeias globais de produção chegam à mesa de negociação em condições muito diferentes daquelas enfrentadas por economias deficitárias.
Foi essa assimetria que marcou a posição brasileira.
Isso não significa que a diplomacia seja irrelevante.
Significa apenas que nenhuma negociação consegue produzir resultados ilimitados quando a estrutura econômica oferece pouca margem de barganha.
Essa talvez seja a principal lição desse episódio.
Muito além das tarifas
O debate sobre as tarifas americanas acabou sendo conduzido, muitas vezes, como uma discussão exclusivamente política.
Na realidade, ele revela uma transformação muito mais profunda.
O comércio internacional passa, cada vez mais, a ser utilizado como instrumento de política externa, segurança econômica e competição tecnológica.
Tarifas, investimentos, cadeias produtivas, minerais estratégicos, propriedade intelectual e plataformas digitais passaram a fazer parte do mesmo tabuleiro geopolítico.
Nesse ambiente, negociar deixou de significar apenas discutir alíquotas de importação.
Passou a significar defender interesses nacionais em áreas cada vez mais sensíveis para a soberania e para a competitividade dos países.
Conclusão
É legítimo discutir se o governo brasileiro poderia ter adotado uma estratégia diferente ou buscado novos caminhos diplomáticos.
Esse debate sempre existirá e faz parte da vida democrática.
Entretanto, qualquer avaliação precisa considerar a posição concreta em que o Brasil se encontrava.
Ao contrário de outras economias frequentemente utilizadas como referência, o país chegou à mesa de negociação com déficit comercial, menor capacidade de influência econômica e diante de uma investigação que extrapola tarifas e alcançava temas estratégicos de política pública.
Por isso, a discussão não deveria se limitar a perguntar se o Brasil negociou um pouco ou muito.
A pergunta mais importante é outra.
O Brasil vem construindo, ao longo das últimas décadas, uma economia suficientemente competitiva, inovadora e estrategicamente relevante para negociar em condições de maior equilíbrio com as grandes potências?
A diplomacia continuará sendo essencial.
Mas a história mostra que ela produz resultados muito mais consistentes quando é sustentada por produtividade, tecnologia, competitividade e relevância econômica.
Tarifas passam.
A capacidade de influência de uma nação é construída ao longo de gerações.
*Coluna escrita por Miguel Daoud , comentarista de economia e política na BM&C News. Administrador de Empresas, com especialização autodidata em Economia e Política, construiu uma trajetória consolidada no mercado financeiro e no agronegócio brasileiro.
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