Ministro diz que tarifas dos EUA “não têm lastro na realidade”

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quinta-feira (16) que o governo brasileiro considera injustificada a decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Em declaração à imprensa, o chanceler disse que as alegações utilizadas por Washington para justificar a medida “não têm lastro na realidade” e classificou a investigação comercial conduzida pelo governo norte-americano como unilateral.

Segundo o ministro, o Brasil buscou negociar com os Estados Unidos durante mais de um ano antes do anúncio das novas tarifas. De acordo com Vieira, o governo brasileiro realizou mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e por telefone com autoridades norte-americanas desde março de 2025, envolvendo representantes dos dois países nos níveis presidencial, ministerial e técnico.

O chanceler afirmou que houve 11 contatos apenas com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, e com o secretário de Estado, Marco Rubio, incluindo conversas entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Para ele, o governo brasileiro sempre demonstrou disposição para discutir temas comerciais e buscar uma solução negociada.

Vieira lembrou ainda que, quando os Estados Unidos anunciaram o primeiro pacote de tarifas, em abril de 2025, o Brasil recebeu a menor alíquota aplicada pelo governo norte-americano, de 10%. Segundo o ministro, a posterior elevação para 50% ocorreu por motivação política, após a carta enviada por Trump ao presidente Lula em julho do ano passado.

Durante a declaração, Mauro Vieira também rebateu críticas feitas pelos Estados Unidos ao Pix, às políticas ambientais brasileiras e às práticas comerciais do país. Segundo ele, os argumentos apresentados por Washington não encontram respaldo na realidade e foram usados para justificar uma medida que, na avaliação do governo brasileiro, tem caráter político.

Governo diz que tarifas têm motivação política

Ao comentar a carta enviada por Donald Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Mauro Vieira afirmou que o documento condicionava a suspensão das tarifas à interrupção do processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Para o chanceler, a exigência representou uma tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro.

“O presidente Lula buscou o diálogo desde o primeiro momento e enfatizou sua disposição de negociar qualquer tema”, afirmou.

Vieira também criticou declarações divulgadas pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, nas redes sociais.

Segundo o ministro, as manifestações foram “inaceitáveis” e “ofensivas” ao governo e ao povo brasileiro. Ele afirmou ainda que Rubio atacou “de forma grosseira e arrogante” o chefe de Estado brasileiro.

Na avaliação do chanceler, o incômodo dos EUA decorre da recusa do Brasil em aceitar exigências consideradas excessivas durante as negociações.

Como exemplo, Mauro Vieira afirmou que o governo norte-americano defendia uma abertura “total, irrestrita e exclusiva” de setores da economia brasileira para empresas dos Estados Unidos, sem oferecer contrapartidas aos produtos brasileiros.

Brasil rebate críticas ao Pix e ao desmatamento

Durante a coletiva, Mauro Vieira também respondeu às acusações feitas pelos Estados Unidos envolvendo o Pix.

Segundo o ministro, o sistema de pagamentos instantâneos é uma infraestrutura pública criada pelo Banco Central e está disponível para todas as instituições financeiras que atuam no país.

“As alegações e declarações de autoridades americanas sobre o Pix são descabidas. O Pix é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central e está disponível a todas as instituições financeiras que atuam no Brasil. Não é sério falar em competição desleal gerada pelo Pix”, afirmou.

O chanceler também classificou como “absurdas” as acusações relacionadas ao desmatamento.

Segundo ele, o Brasil reduziu significativamente os índices de desmatamento na Amazônia e no Cerrado desde 2022 e as justificativas utilizadas pelos Estados Unidos para aplicar as tarifas “não têm lastro na realidade”.

Chanceler cita superávit dos EUA no comércio com o Brasil

Ao defender a posição brasileira, Mauro Vieira destacou que os Estados Unidos acumulam US$ 424 bilhões em superávit no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos.

Segundo ele, somente em 2025, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagamento de imposto de importação, incluindo oito dos dez principais produtos norte-americanos comprados pelo país.

O ministro também ressaltou que, apesar de considerar a investigação baseada na Seção 301 injustificada, o Brasil participou de todas as etapas do processo aberto pelos Estados Unidos. O governo apresentou duas defesas formais ao Escritório de Comércio norte-americano, em agosto e setembro de 2025, além de enviar uma delegação de alto nível para reuniões em Washington, em abril deste ano.

Para Mauro Vieira, os dados da relação comercial entre os dois países demonstram que não há justificativa econômica para a adoção das tarifas e reforçam a posição do governo brasileiro de que a medida foi motivada por razões políticas.

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