
O decreto de Pio XI que constituiu Nossa Senhora da Conceição Aparecida como Padroeira do Brasil completa 96 anos. Apesar do reconhecimento civil ter sido oficializado somente em 1980 pelo governo brasileiro, por meio da Lei 6.802, que declarou o dia 12 de outubro como feriado nacional, para a igreja católica, a história e o reconhecimento são bem anteriores, de 16 de julho de 1930.
De acordo com resgate histórico da Academia Marial de Aparecida, sediada no Santuário Nacional de Aparecida (SP), o pedido para constituir Nossa Senhora da Conceição Aparecida em Padroeira do Brasil nasceu na cidade de Aparecida, em 1929, em um Congresso Mariano, organizado pelos missionários redentoristas e pelo então arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, reunindo sacerdotes, teólogos, historiadores e bispos.
As conferências do primeiro grande evento de estudos mariológicos ocorrido em Aparecida foram sediadas na igreja de São Benedito, projetada e construída pelo Pe. Antônio de Lisboa. As missas eram celebradas na Basílica Velha e atraíam centenas de devotos de Nossa Senhora e da imagem encontrada no Rio Paraíba.
Pedido ao Papa
Neste congresso, foi decidido o encaminhamento de um pedido ao Papa Pio XI para a proclamação oficial do padroado de Nossa Senhora Aparecida sobre o Brasil.
Os bispos viram a necessidade de se legitimar, com o reconhecimento do Papa, o sentimento geral do povo que já tinha a Aparecida como Padroeira.
Coube então a Dom Sebastião Leme, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, capital federal na época, levar o pedido ao Papa , que o aceitou e assinou o decreto. que constituía Nossa Senhora Aparecida como Padroeira principal do Brasil em 16 de julho de 1930, na festa de Nossa Senhora do Carmo.
Do decreto à proclamação oficial
Embora o Papa tivesse assinado o decreto em 1930, segundo a Academia Marial de Aparecida, os bispos brasileiros optaram por preparar uma solenidade digna de sua Padroeira e fixaram a proclamação oficial do decreto pontifício para o dia 31 de maio do ano seguinte, no encerramento do mês mariano.
O evento foi comparado pelo vice-provincial dos redentoristas, Pe. Francisco Wand, à primeira missa celebrada na Terra de Santa Cruz.
A viagem do Trem da Padroeira
Para a solenidade, o arcebispo de São Paulo, Dom Duarte, o Pe. Antão e muitas autoridades eclesiásticas, civis e militares, se dirigiram à Basília Velha, na tarde do dia 30 de maio de 1931, retiraram a imagem e a levaram para a estação ferroviária de Aparecida para ser conduzida à capital do país.

O percurso foi acompanhado pela multidão nas ruas, entre lágrimas, aplausos e muita comoção. A saída emocionou os moradores de Aparecida, que pela primeira vez, desde 1889, viram a pequena imagem deixar a região em que foi encontrada.
“Na estação, aguardava o trem com um vagão-capela preparado para a Padroeira e, afixado à sua frente, ia um painel de madeira artisticamente pintado, representando a Imagem da Padroeira e as armas de sua basílica em Aparecida”, relata texto da Academia Marial de Aparecida.
O trem tinha quatro vagões: o primeiro foi transformado numa capela e os outros três levaram os convidados. E assim, a viagem que deveria levar seis horas, levou dez
Os relatos da época destacam ainda que, pelas cidades por onde o Trem da Padroeira passava, multidões se aglomeravam às margens dos trilhos para saudar a imagem.
Sinos e fogos
No fim do percurso solene, a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi recebida com honras de chefe de Estado na Estação Dom Pedro II, no Rio, com sinos e fogos. A santa foi conduzida em carro aberto até a porta da igreja de São Francisco de Paula, onde cerca de um milhão de pessoas a esperavam.
Dadas as dificuldades de transporte da época, a presença de uma multidão dessa proporção fez da cerimônia um dos maiores eventos públicos da história brasileira até então, diz texto da Academia Marial de Aparecida
Foi então realizada Missa Solene, seguida de procissão até a Esplanada do Castelo, onde Dom Sebastião Leme procedeu à leitura do decreto papal, seguida da consagração da nação à Senhora Aparecida.

Cerca de 25 bispos, centenas de padres, religiosos e religiosas, o corpo diplomático, o núncio apostólico Dom Aloísio Masella e o então presidente da República, Getúlio Vargas estavam presentes.
No dia seguinte, o Papa Pio XI recebeu um telegrama que o informava da solenidade e da presença de 1 milhão de pessoas, o que, na época, era totalmente fora do normal.
