
Apreensão de ouro dispara 830% e expõe nova rota do garimpo ilegal
No primeiro semestre deste ano, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu 51,75 kg de ouro ilegal – 830,76% a mais do que no mesmo período do ano passado, quando foram apreendidos menos de 6 kg do metal. Os dados foram cedidos pela PRF a pedido de g1.
Dois estados concentram a maior parte da apreensão: Pará (26,52 kg) e Roraima (15,64 kg). A região Norte, principalmente da fronteira, tem se tornado o epicentro da nova rota do garimpo ilegal após mudanças na legislação e a valorização do metal, segundo Larissa Rodrigues, diretora de pesquisa do Instituto Escolhas.
Apreensão de ouros nos primeiros seis meses do ano, desde 2024.
Bruna Azevedo/g1
Fim da “boa-fé” muda lavagem do ouro
A Lei 12.844, de 2013, garantia a “presunção de legalidade do ouro comprado” e a “boa-fé do comprador”. Na época, instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central não enfrentavam obstáculos jurídicos para comprar ouro sem comprovação de origem — o que facilitava que garimpeiros “lavassem” o mineral, que ganhava aparência legal no mercado interno.
Apreensão de 103,35 kg de ouro, na BR-401, em Boa Vista, Roraima, em agosto de 2025.
Reprodução/ Polícia Rodoviária Federal (PRF)
Dez anos depois, medidas endureceram o comércio do ouro no Brasil. Em março de 2023, a Receita Federal tornou obrigatória a emissão de nota fiscal eletrônica para as operações com ouro de garimpo e, em abril, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a presunção de legalidade e a boa-fé do comprador da Lei 12.844/2013.
Em 2025, a produção oficial dos garimpos foi de cerca de 5.800 kg— redução de 81% em relação a 2022, de acordo com dados do Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) coletados pelo instituto. Rodrigues entende que parte da produção de fato caiu, com o recuo dos garimpeiros ilegais, e outra se manteve, mas como extração ilegal — e, agora, é escoada para fora do país.
Apreensão anual de ouro no Brasil, desde 2020.
Bruna Azevedo/g1
“Até 2022, como o ouro ilegal era ‘lavado’, saía do país pela porta da frente com o ouro legal, pelos principais aeroportos. Essa porta foi fechada a partir de 2023. As rotas mudaram e, hoje, o ouro ilegal sai do país por contrabando, pela Venezuela, passando por Roraima”, analisa Larissa Rodrigues, diretora de pesquisa do Instituto Escolhas.
De 2020 a 2023, cerca de 253 kg de ouro foram apreendidos em quatro anos — valor inferior ao total em 2024 e 2025, com 261,76 kg em apenas dois anos. A apreensão não apenas aumentou, mas os estados onde as operações aconteceram também mudaram.
Mapa mostra mudança na rota do ouro ilegal no Brasil
Bruna Azevedo/g1
Neste ano, a PRF também registrou recorde na apreensão de mercúrio, em Roraima. No garimpo, metal é usado para extrair o ouro: junta as partículas de ouro e, quando aquecido, evapora. Até junho, mais de uma tonelada foi apreendida no estado. O uso clandestino preocupa pela toxicidade do metal no meio ambiente.
A Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu 253 quilos de mercúrio transportados ilegalmente na BR-401.
Divulgação
“Devido à sua posição geográfica, Roraima acabou se tornando um corredor estratégico para as rotas de escoamento transfronteiriço das riquezas do garimpo ilegal. A PRF está em constante vigilância quanto a esse movimento de migração das rotas pelo crime organizado”, disse Marcelo Aguiar, superintendente da PRF em Roraima.
Valorização do ouro
Nos 5 anos até janeiro deste ano, o ouro foi impulsionado por tensões globais até a sua alta histórica, acima de US$5.400 por onça troy, unidade padrão para precificação de metais preciosos. Nos meses seguintes, o metal perdeu cerca de 26% do valor de mercado.
Apesar da queda, a valorização histórica e a expectativa entorno do metal deixam o ouro brasileiro na mira do garimpo.
“Sempre que há uma valorização no preço do ouro a busca pelo metal se intensifica, seja de forma legal ou ilegal. Por isso, precisamos seguir avançando no combate ao crime sempre mais rápido e de forma mais inteligente que os criminosos. Ainda precisamos de um sistema de rastreabilidade de origem para o ouro e estruturar melhor o mercado”, disse Rodrigues.
