Quem vai financiar a infraestrutura que o Brasil precisa para crescer?

A necessidade de ampliar os investimentos em saneamento, energia, transportes e logística coloca o financiamento da infraestrutura entre os principais desafios da economia brasileira. Em um cenário de restrição fiscal, o avanço desses projetos depende cada vez mais da participação do mercado de capitais, de investidores privados e de instituições públicas atuando de forma complementar.

Nos cinco primeiros meses de 2026, o mercado de capitais movimentou R$ 283 bilhões em ofertas encerradas, crescimento de 14,1% em relação ao mesmo período de 2025. Ao todo, foram realizadas 1.156 operações, quantidade 11,3% superior à registrada no ano anterior, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

“Os dados de emissões locais e externas reforçam a percepção de um mercado de capitais mais completo e com capacidade de atender diversos cenários de apetite a risco por meio de diferentes estratégias de captação”, afirma Cesar Mindof, diretor da Anbima.

Para a ele, os resultados evidenciam a maturidade alcançada pelo mercado brasileiro.

Mercado de capitais amplia financiamento da infraestrutura

Entre os principais instrumentos utilizados para financiar projetos de longo prazo estão as debêntures, títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos diretamente com investidores.

Em 2025, as ofertas de debêntures incentivadas chegaram a R$ 177 bilhões, maior valor anual da série histórica iniciada em 2018, e resultado 31% superior ao registrado em 2024. Esses títulos contam com benefícios tributários e são direcionados a projetos considerados prioritários, principalmente nas áreas de infraestrutura.

“O Brasil avançou de forma expressiva na construção de uma arquitetura de financiamento mais diversificada e sustentável. Hoje, o mercado de capitais é um dos principais canais de funding para projetos de infraestrutura, como complemento indispensável à atuação dos bancos de fomento.”, afirma Mindof.

O desenvolvimento não ocorreu apenas no mercado de novas emissões. Em 2025, o volume negociado no mercado secundário de debêntures incentivadas alcançou R$ 343,81 bilhões, quase o dobro dos R$ 177 bilhões emitidos no mercado primário.

O aumento das negociações após a emissão contribui para ampliar a liquidez dos papéis, permitindo que investidores comprem e vendam os títulos antes do vencimento. O prazo médio das debêntures incentivadas chegou a 13,6 anos em 2025, característica compatível com projetos que exigem períodos prolongados de construção e retorno financeiro.

“Portanto, o Brasil já dispõe de uma base sólida e diversificada de instrumentos. O desafio agora é ampliar o número de investidores e fortalecer a previsibilidade regulatória para sustentar um ciclo prolongado de investimentos”, acrescenta Mindof.

No acumulado de janeiro a maio de 2026, as emissões totais de debêntures somaram R$ 146,3 bilhões. Apesar da redução de 5,9% em relação ao mesmo período de 2025, a infraestrutura continuou sendo o principal destino dos recursos captados, com participação de 43,1%.

Na sequência aparecem a gestão ordinária das empresas, com 19,2% dos recursos, e o pagamento de dívidas, com 15,2%.

O prazo médio das debêntures emitidas no período ficou em oito anos, ante 8,4 anos nos cinco primeiros meses de 2025.

Restrição fiscal aumenta participação do capital privado

A restrição orçamentária nas esferas públicas reduz a capacidade do Estado de financiar diretamente todos os projetos necessários para diminuir os gargalos de infraestrutura do país. Nesse ambiente, cresce a importância de investidores privados, fundos de investimento, seguradoras, instituições financeiras e entidades de previdência.

As debêntures incentivadas representaram 36% de todo o volume captado por meio de debêntures em 2025. Para a Anbima, o resultado demonstra que a participação privada no financiamento da infraestrutura deixou de ser apenas uma alternativa e passou a ocupar uma posição estrutural.

“O ambiente fiscal naturalmente impõe limites à capacidade de financiamento direto do Estado, o que torna inevitável o protagonismo do mercado de capitais no apoio a projetos estruturais”, afirma Mindof

Os números da Anbima mostram que o investidor privado tem sustentado parte do ciclo recente de investimentos, aproximando o modelo brasileiro do observado em economias nas quais o mercado de capitais possui participação maior no financiamento de projetos de longo prazo.

Entre os setores que mais captaram recursos por meio de debêntures incentivadas em 2025, transporte e logística lideraram, com 35% do volume emitido. Energia elétrica apareceu em seguida, com 32%, enquanto saneamento respondeu por 17,7% e tecnologia da informação e telecomunicações representaram 7,7%.

Esses segmentos concentram projetos de longa maturação, com necessidade elevada de capital e retorno distribuído ao longo de vários anos. Por essa razão, dependem de instrumentos que permitam prazos maiores e condições compatíveis com a geração futura de receitas.

Segurança jurídica influencia decisão dos investidores

Além da expectativa de retorno, fatores como segurança jurídica, qualidade técnica dos projetos, risco regulatório e estabilidade das regras influenciam a decisão dos investidores.

“O investidor de longo prazo busca previsibilidade, credibilidade e segurança jurídica, fatores determinantes para a decisão de alocação”, afirma Mindof. 

Segundo ele, a rentabilidade esperada não pode ser analisada separadamente dos riscos envolvidos. Projetos com contratos definidos, regras estáveis e estruturas financeiras consistentes tendem a apresentar maior capacidade de atrair capital.

“Embora o retorno financeiro seja relevante, ele depende diretamente da percepção de risco e da robustez do projeto. Assim, a qualidade técnica e regulatória tem tanto peso quanto a rentabilidade esperada”, acrescenta a associação.

O fortalecimento do mercado secundário também contribui para reduzir a percepção de risco. Quanto maior a possibilidade de negociação dos papéis, menor a necessidade de o investidor permanecer com o título até o vencimento.

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