
Em um país onde as crises políticas de um regime parlamentarista podem derrubar primeiros-ministros em questão de dias, existe um servidor público que permanece inabalável há mais de uma década. Ele não faz discursos, não participa de eleições e não enfrenta disputas dentro do Parlamento. Seu nome é Larry, um gato tigrado que se tornou uma das figuras mais curiosas da política britânica.
Em 2011, Larry entrou para a história ao se tornar o primeiro gato oficialmente escolhido para ocupar a função de Chief Mouser to the Cabinet Office (expressão que pode ser traduzida como “Chefe Caçador de Ratos do Gabinete“) e viver na residência oficial do primeiro-ministro britânico, o famoso número 10 da Downing Street.
Resgatado de um abrigo de animais, Larry foi escolhido pelo governo britânico para combater um antigo problema da sede do poder: os ratos que circulavam pelos prédios oficiais. Mas o que começou como uma missão prática acabou transformando o felino em uma celebridade nacional.
A história por trás dos Chief Mousers
É importante destacar, porém, que Larry não foi o primeiro gato a servir ao governo britânico. A tradição dos chamados Chief Mousers é muito mais antiga. Durante décadas, gatos foram utilizados em prédios públicos para controlar populações de roedores e proteger documentos e mantimentos. O cargo ganhou reconhecimento oficial em 1929, quando o Tesouro britânico autorizou uma verba para a manutenção de um gato responsável por essa função.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a presença de gatos em funções de controle de roedores tornou-se ainda mais comum. Muitos felinos foram mantidos em navios, instalações militares, armazéns e prédios públicos britânicos, ajudando a proteger alimentos e suprimentos contra ratos.
Como está larry hoje..
Hoje, com cerca de 19 anos, Larry já viu passar pela Downing Street uma sequência de líderes políticos. Durante sua longa carreira, acompanhou os governos de David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss, Rishi Sunak e Keir Starmer, tornando-se um dos poucos “servidores públicos” capazes de atravessar tantas mudanças de comando sem nunca precisar de uma campanha eleitoral.

Ao longo dos anos, Larry protagonizou momentos que misturam política e humor. Ele já apareceu durante entrevistas de jornalistas, foi fotografado diante da famosa porta preta do número 10 e virou presença obrigatória nas imagens de autoridades visitando o governo britânico.

Enquanto líderes mundiais discutem assuntos diplomáticos e questões de grande importância internacional, Larry permane indiferente à movimentação, circulando pela residência oficial como se fosse o verdadeiro dono do lugar. A imagem reforçou sua fama como o gato que parecia não se impressionar com nenhum chefe de Estado.

Larry também protagonizou uma espécie de “guerra felina” com Palmerston, o gato que trabalhava no Ministério das Relações Exteriores britânico. As disputas territoriais entre os dois animais foram acompanhadas pela imprensa, que transformou os encontros em uma divertida versão felina das rivalidades diplomáticas de Westminster.
Apesar das brincadeiras sobre sua eficiência como caçador de ratos, já que Larry muitas vezes parece mais interessado em dormir ao sol e brigar com outros gatos da vizinhança do que perseguir roedores, sua importância simbólica cresceu cada vez mais ao longo dos anos.
Afinal, enquanto primeiros-ministros são substituídos, governos enfrentam crises e o Parlamento britânico segue envolvido em suas tradicionais disputas políticas, Larry permanece no mesmo endereço de sempre: caminhando pelos jardins da Downing Street, observando o movimento do poder e recebendo visitas oficiais.
Sem discursos, campanhas ou votos, esse pequeno funcionário de quatro patas tornou-se uma testemunha privilegiada da história recente do Reino Unido. Poucos servidores públicos podem dizer que conheceram tantos líderes políticos, acompanharam tantas mudanças de governo e permaneceram no cargo por tantos anos sem jamais precisar disputar uma única eleição
