Mercúrio se acumula duas vezes mais rápido na Península Antártica, aponta estudo


Icebergs flutuam no mar próximo à costa oeste da Antártida.
Wanru Zhang
Mesmo distante dos grandes centros urbanos e industriais, a Península Antártica está acumulando mercúrio em um ritmo cerca de duas vezes maior que a média registrada em outras plataformas continentais do planeta.
A conclusão vem de um estudo publicado na revista científica “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS) nesta segunda-feira (27).
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A pesquisa também aponta que a velocidade desse acúmulo aumentou 160% desde o início da industrialização.
Para chegar aos resultados, os cientistas analisaram 16 amostras retiradas do fundo do mar em diferentes pontos da península e reconstruíram as mudanças ocorridas nos últimos 200 anos.
➡️ ENTENDA: O mercúrio é um poluente tóxico que pode viajar por longas distâncias pela atmosfera antes de chegar ao solo ou ao oceano. Na Antártida, ele pode entrar na cadeia alimentar e se concentrar aos poucos em animais marinhos.
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Os pesquisadores calcularam que a plataforma continental ao redor da Península Antártica recebe aproximadamente 93 microgramas de mercúrio por metro quadrado a cada ano.
Embora a quantidade pareça pequena, ela se espalha por uma área extensa e pode permanecer no ambiente por muito tempo.
O estudo aponta dois caminhos principais para explicar esse aumento. O primeiro é a chegada de mercúrio transportado pelo ar, que acaba absorvido pela água do mar.
Com a redução do gelo e a expansão das áreas de oceano aberto, uma superfície maior fica exposta para receber o poluente.
O segundo caminho está no próprio continente. O derretimento das geleiras e a erosão liberam o mercúrio acumulado durante décadas ou séculos no gelo e no solo, fazendo com que o contaminante volte a circular no ambiente.
“As geleiras e os solos congelados podem ser comparados a um enorme depósito. Durante décadas ou até séculos, o mercúrio transportado até a Antártida ficou armazenado no gelo, na neve, nos solos e na vegetação”, explicou ao g1 Maodian Liu, pesquisadora da Universidade de Pequim e autora do estudo.
A Ilha Coulman, à direita, aparece ao lado do iceberg encalhado, à esquerda.
Myeongho Seo
Segundo Liu, o aumento das temperaturas está liberando parte desse material. “O aquecimento do clima está, na prática, abrindo esse depósito. A água do degelo arrasta o mercúrio armazenado na neve e no gelo, enquanto o recuo das geleiras expõe solos e rochas e aumenta a erosão.”
Segundo os cálculos, a liberação de mercúrio associada à água do degelo aumentou 550%, enquanto a absorção do poluente atmosférico pelo oceano cresceu 350%.
“A Península Antártica deixou de funcionar apenas como um ‘armazém’ que recebe e guarda mercúrio. Ela também está se tornando um ponto de transferência, que devolve ao ambiente o mercúrio acumulado no passado”, afirmou a pesquisadora.
Isso significa que a região não apenas recebe o contaminante produzido em outros pontos do planeta, mas também passa a liberar novamente parte do mercúrio que acumulou no passado.
Na prática, o processo cria um ciclo no qual a poluição atmosférica e o aquecimento global se reforçam, aumentando a circulação do metal entre o ar, o gelo, o solo e o oceano.
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