
Essa singela carta é para você, amiga querida que observa, às vezes de perto e às vezes de longe, os acontecimentos que se desenrolam nesse louquíssimo Oriente Médio enquanto rói as unhas por conta da tensão e perde noites de sono diante da aparente confusão em que vivemos por aqui mesmo que, claro, sejam impulsos que fazem sentido por um lado, mas não por outro, pois, afinal de contas, quando foi diferente, me diga, quando o Oriente Médio passou por qualquer tipo de momento que remeta mesmo que remotamente à paz que cada vez mais raramente assistimos em outros lugares do mundo, nos quais não há esse montão de petróleo sob os pés de um amontoado de tribos, correntes, etnias, religiões ou visões de mundo tão díspares e muitas vezes, infelizmente, tão habituadas ao uso da violência para impor seus desejos desde sempre (e lembrando que esse é um princípio humano, mesmo que hoje procuremos esquecer que até mesmo a Europa, que hoje quer ser vista como o bastião da coexistência dentre os continentes, passou por guerras que não duraram três anos, como está durando a nossa aqui, mas três séculos), ainda mais a partir do início do século 20, depois que um bando de estrangeiros pegou uma régua e um lápis para criar fronteiras e determinar quem vai para onde e o que pertence a quem, acreditando, ou ligando o f-se, que drusos, curdos, xiitas, sunitas, azeris, baluchis e outras gentes que nem vou citar porque tampouco as conheço ou saberia descrevê-las, poderiam aprender a conviver pacificamente em Estados-nação, o que já seria bem difícil, convenhamos, mesmo que não se tivesse adicionado aqui, nos anos 1940, no meio dessa tremenda bagunça, uma nação judaica que também é formada por seu próprio bando de tribos e uma miríade de correntes religiosas com ou sem o solidéu-kipá, com ou sem lenço ou peruca na cabeça, todos eles convivendo com uma gigante minoria muçulmana, muitos deles ressentidos à beça, além de diferentes culturas como a drusa, a beduína, a ortodoxa grega, a armênia, a bahá’í, a circasiana e a samaritana e por aí vai, convivendo em um espaço ínfimo que provoca uma claustrofobia doida em pessoas como eu, que precisam tomar um avião quando resolvem visitar um outro país já que todos ao meu redor não me aceitam como israelense que sou (como a Síria ou o Líbano) ou, quando me aceitam, não gostam de mim (como o Egito ou a Jordânia); e com tudo isso ainda é surpreendente que mantenhamos algum mínimo de sanidade mental inclusive naqueles momentos, como nos anos anteriores ao ataque horripilante e de uma violência vulgar que deixou o Tarantino não só no chinelo como o transformou em um sionista, em que achávamos que tudo estava tranquilo, que vivíamos um clima de paz quando, na verdade, estávamos apenas perdidos em nossos próprios sonhos inconsistentes e concepções enquanto nossos vizinhos se preparavam para arrancar nossas cabeças e nossos corações, como de fato fizeram.

Por tudo isso, mas também por tudo o que nem coloquei aqui porque quem tem tempo para cartas longas nos dias de hoje?, me pergunto quem está com o juízo alterado, se sou eu, que assisto ao que acontece aqui como a uma novela de infinitos capítulos, na qual o objetivo não é a paz, mas algum tipo de equilíbrio sutil quando muito e que nos deixe descansar, rir e acreditar que estamos seguros até a chegada de um novo conflito; ou se é você, que sonha em ver Israel vivendo uma minissérie com um final claro, feliz, iluminado, esperançoso, definitivo, promissor, pacífico, equilibrado, solidário, inclusivo e que, quanto mais se busca, mais ele se afasta; porque, e essa é uma possibilidade que precisamos enfrentar, talvez não seja esse o destino dessa parte do mundo (onde justamente Israel está, e não à toa), em que a fé, a honra, a tribo, a dúvida, a busca, a força bruta e a paciência falam uma língua própria, à qual eu e você precisamos aprender a conhecer e a falar para conseguirmos, de alguma forma, acompanhar os eventos sem roer as unhas demais ou perder noites de sono demais.
É um desafio e tanto, querida. Mas é possível.
