
Costuma ser mais fácil digerir um assunto quando o dividimos em capítulos. No caso da guerra iniciada em 7 de outubro de 2023, com o ataque do Hamas ao sul de Israel, essa estratégia falha. Este conflito não se deixa compartimentar. Ele se move como uma sequência de peças de dominó: ao empurrar uma, todas as outras inevitavelmente se deslocam.
Amanhã marcaremos o 850º dia da guerra em andamento sob um certo clima de suspensão em função do iminente ataque dos Estados Unidos — e talvez de Israel — ao regime islâmico do Irã. Enquanto isso, os diversos atores do Oriente Médio se movimentam, cada um à sua maneira, em busca de reposicionamento ou simples sobrevivência.
Conflitos entrelaçados
Está em jogo o futuro do Hamas e a reconstrução de Gaza; o destino do Hezbollah e a possibilidade de um Líbano menos sequestrado por milícias; a promessa sempre adiada de uma nova Síria que assiste ao massacre de suas minorias; a mudança de regime no Irã; a definição do papel ambíguo do Catar; e a postura duvidosa da Arábia Saudita, entre muitos outros temas. Não são aspectos paralelos, mas sim entrelaçados.
Ainda assim, há espaço para uma leitura menos sombria. Processos históricos de grande transformação raramente são suaves. Se por um lado esse momento carrega destruição, medo e incerteza, por outro também pode ser entendido como um período de transição — doloroso, mas potencialmente formador da ordem regional.
Existe um paralelo entre esse processo e a força simbólica do dia de hoje, quando se celebra Tu Bishvat, o chamado “ano-novo das árvores” no calendário judaico. À primeira vista, a ideia de celebrar árvores em pleno inverno (o ponto de referência das festividades do povo judeu é sempre Israel) parece incongruente. Mas é justamente aí que reside o sentido que pode nos oferecer esperança.
Segundo a tradição, estamos no momento exato em que o frio começa a perder força, o maior volume de chuvas já caiu e a seiva — invisível aos olhos — volta a circular nas árvores. Os frutos que um dia alimentarão a humanidade ainda não existem, mas sua existência futura está sendo nutrida agora.
Talvez essa imagem possa refletir o momento atual do Oriente Médio. Pouco do que se vê inspira otimismo, mas algo está em gestação, longe do olhar público, abaixo da superfície do longo conflito. A crença de que transformações reais nascem de movimentos silenciosos — como a seiva que sobe — não elimina o sofrimento presente, mas oferece uma receita para enfrentá-lo.
Em tempos de suspensão e incerteza, resta torcer para que aqueles que hoje empurram as peças do tabuleiro compreendam o peso de cada gesto. Para enxergar seus frutos, no entanto, precisaremos aguardar pelas próximas estações.
