Perimenopausa e menopausa se tornam alvos de marketing agressivo


O filão da menopausa – e, principalmente, da perimenopausa – bate na casa das centenas de bilhões de dólares em consultas, medicamentos, procedimentos, produtos e serviços, como eu havia apontado em meu livro: Menopausa – o momento de fazer as escolhas certas para o resto da sua vida. O problema é que, como em toda corrida ao ouro, não há somente gente bem-intencionada nesse mercado que explodiu nos últimos anos. É ótimo que tenha aumentado a conscientização sobre essa fase e a segurança de tratamentos como a terapia de reposição hormonal (TRH). Entretanto, à medida que um número crescente de mulheres se depara com informações enganosas nas redes sociais, especialistas alertam que algumas possam ser levadas a conclusões falsas, capazes de mascarar dificuldades reais de saúde subjacentes.
Paula Briggs: “Vejo coisas absurdas no Instagram, como mulheres na faixa dos 30 anos sendo instruídas a exigir reposição hormonal se não conseguirem dormir ou se estiverem sofrendo com enxaquecas”
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“Todo mundo acha que está na menopausa”, ironizou a médica Paula Briggs, membro da Sociedade Britânica de Menopausa, ao jornal The Guardian. “Estamos vendo mulheres cada vez mais jovens demandando terapia de reposição quando o que precisam é de contracepção hormonal, já que ainda estão férteis”, completou.
De acordo com a entidade, mais de 80% das mulheres estarão na menopausa até os 54 anos – o que significa que não menstruam há 12 meses – com cerca de 5% atingindo tal marco antes dos 45 anos. Antes disso, vem a perimenopausa, que pode durar meses ou anos, período marcado por níveis hormonais flutuantes e sintomas com o potencial de afetar a qualidade de vida.
Briggs afirmou que a desinformação em torno da perimenopausa é preocupante: “Vejo coisas absurdas no Instagram, como mulheres na faixa dos 30 anos sendo instruídas a exigir reposição hormonal se não conseguirem dormir ou se estiverem sofrendo com enxaquecas; ou sendo orientadas a buscar tratamento com testosterona, quando é indispensável avaliar se há indicação para o caso. As mulheres produzem sua própria testosterona ao longo da vida, mesmo as que não têm ovários, então a ideia de que todo mundo tem que usar testosterona é uma loucura”.
Channa Jayasena, especialista em endocrinologia reprodutiva no Imperial College London, também expressou preocupação. “Acho que muitos médicos ignoram completamente o quão debilitantes podem ser os sintomas. No entanto, há o risco de algumas mulheres serem rotuladas incorretamente como estando na perimenopausa quando têm outros problemas de saúde”. Janice Rymer, professora de obstetrícia e ginecologia do King´s College London, concorda: “Se você está menstruando regularmente de forma natural, então não está na perimenopausa. Simples assim. Atualmente, existe uma percepção de que qualquer queixa entre os 40 e 60 anos se deve à perimenopausa ou à menopausa e que a TRH é imprescindível. A reposição é maravilhosa, mas não para quem não precisa dela”, resumiu. Ambos ressaltam que a desinformação pode levar mulheres ainda férteis a interromper o uso de contraceptivos, por acharem que não são mais necessários.
Nos EUA, médicos também vêm fazendo alertas sobre o marketing agressivo de produtos e suplementos que anunciam grandes promessas sem evidências científicas. Quem está nessa faixa etária já deve ter percebido: loções, séruns e máscaras de LED que garantem rejuvenescer o rosto e o pescoço; suplementos alimentares que afirmam fazer de tudo, de melhorar o humor a aliviar as ondas de calor; aparelhos que prometem neutralizar os sintomas. Em entrevista à CNN, Nanette Santoro, professora de ginecologia e obstetrícia na Universidade do Colorado Anschutz, recomendou: “Antes de gastar dinheiro em produtos, é importante que as mulheres conversem com seus médicos sobre o que foi comprovado que ajuda, e o que pode ser prejudicial. Realmente vale a pena ser muito, muito, muito cética”.
Adriane Fugh-Berman e Patricia Bencivenga, respectivamente diretora e gerente de projetos especiais no PharmedOut – organização ligada ao Centro Médico da Universidade de Georgetown cujo foco é investigar e expor as táticas de marketing da indústria farmacêutica – publicaram artigo na revista STAT no qual acusam o mercado de “vender a mentira de que as mulheres são governadas por seus hormônios”. Segundo as autoras, há uma expansão da medicalização da menopausa para a faixa dos 30 anos, sob o argumento de que os hormônios estão começando a ficar descontrolados e arruinarão sua saúde: cognitiva, física e mental.
“Artigos recentes e conversas aparentemente intermináveis nas redes sociais atribuem à perimenopausa todos os sintomas possíveis associados ao estresse, à maternidade, ao esgotamento (burnout), à depressão e ao envelhecimento normal. Também enquadram essa perspectiva como uma questão feminista. Na verdade, é exatamente o oposto. O enquadramento da perimenopausa como uma longa e assustadora na montanha-russa física e emocional, causada por nossos hormônios instáveis, está sendo moldado por influenciadores e médicos que estão não apenas transformando a meia-idade em doença, mas, invariavelmente, vendendo algum produto ou serviço”, escreveram.
Fugh-Berman e Bencivenga defendem que a maioria dos sintomas atribuídos à perimenopausa pode ser simplesmente decorrente do envelhecimento. Em 1994, pesquisadores holandeses compararam os sintomas na meia-idade entre homens e mulheres e descobriram que, exceto pelo suor excessivo, havia mais semelhanças do que diferenças entre os gêneros. Em 2018, cientistas coreanos encontraram resultados similares: tanto eles quanto elas apresentavam queixas como esquecimento, suor, diminuição do desejo sexual e aumento da circunferência da cintura na meia-idade.
“Se aceitarmos a lista de 100 sintomas atribuídos à perimenopausa, e que essa fase começa em algum momento na faixa dos 30 anos e dura até a menopausa, na idade média de 52 anos, então aceitamos a ideia de que as mulheres são vítimas indefesas de hormônios erráticos durante a maior parte ou a totalidade de suas vidas adultas. A narrativa ajuda o faturamento dos fabricantes, manipuladores e distribuidores de medicamentos e suplementos, mas não é baseada em evidências. E alimenta o clichê misógino de que não se pode confiar nas mulheres por causa de seus hormônios”, enfatizam as autoras, lembrando que adotar um estilo de vida saudável, zelar pela saúde mental e cultivar uma rede de apoio de amigos e familiares são ferramentas fundamentais para o bem-estar feminino.
Como enfrentar a menopausa?
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