Hilário: Michelle divulgou carta de amor que recebeu de Bolsonaro

Michelle Bolsonaro e Jair BolsonaroReprodução: youtube – 12/08/2022

Talvez tenha passado batido pra você, mas a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou esses dias uma carta escrita por Jair Bolsonaro poucos dias depois de ele ter a prisão decretada pelo STF.

O bilhete comemora os 18 anos de casamento e traz declarações de carinho. Se você ainda não viu, é isso aqui:

Oi Mi, • Obrigado por você existir • Suas mensagens me confortam • Hoje 28/nov, 18 anos juntos • Sou 100% fiel ligado a você • Dias difíceis, mas com esperança • Ansioso para te ver novamente • Te amo • Para sempre (assinatura) Jair Bolsonaro

Michelle Bolsonaro compartilha carta recebida de Jair Bolsonaro no 18º aniversário de casamentoReprodução/Instagram

Quando li isso, imediatamente lembrei de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa que escreveu o poema “Todas as cartas de amor são ridículas”.

Obviamente, Fernando Pessoa escreveu isso no melhor dos sentidos. Para ele, “cartas de amor, se há amor, são ridículas”, justamente pela fragilidade do autor.

Quem escreve se expõe, se fragiliza, perde o controle, fala demais, passa vergonha. O ridículo, ali, é justamente a prova de que existe amor.

A carta de Bolsonaro é ridícula por outro motivo. Ela não se entrega. Ele organiza numa lista como quem escreve um lembrete colado na geladeira.

Trazer

• 4 Pães • 1 L de Leite • 5g de amor

Seis dias preso e a carta tem mais cara de ata de reunião do que de desespero amoroso. Belíssimo inventário de sentimentos numerados, organizados e prontos para conferência.

Talvez o amor em forma de bullet point é uma tendência e eu não tô sabendo. Eu acho que ele só não enviou isso num PowerPoint porque ele não tem computador na cela.

Juro que imaginei um ator mirim interpretando Romeu numa peça de escola, tentando parecer profundo enquanto recita frases que ele decorou cinco minutos antes de entrar no palco.

“Obrigado por você existir”, “100% fiel”, “dias difíceis, mas com esperança”. Dá pra confundir com um relatório sentimental para fins de arquivamento e futura averbação em cartório.

O auge do lirismo burocrático vem no final, quando ele, além de assinar como se assinasse um inventário, escreve nome e sobrenome, atestando que foi ele mesmo o autor. Uma carta tosca de um homem tosco. Nem precisava assinar. A gente saberia que era dele.

Jura mesmo que não cabia um “do seu eterno imbrochável”? Um “do seu Johnnyzinho Bravo”? Faltou carinho de verdade aí, hein? É talvez a primeira carta de amor da história que termina com cara de ofício.

Não sei o que é pior: escrever uma carta dessa ou divulgar! A Michele leu isso e pensou. “Lindo, vou postar!”. Ou ela nunca recebeu uma carta de amor ou ela não quis mostrar o amor de Bolsonaro, mas a humanidade dele. Que estratégica ela, hein?

Fernando Pessoa dizia que só quem nunca amou é que nunca escreveu cartas ridículas.  Bolsonaro escreve uma carta que tenta não parecer ridícula e é justamente aí que ela fracassa como carta de amor.

Porque amar, no fundo, exige isso: abrir mão do controle. E ali, o afeto veio em forma de carimbo.

Ou falta amar mais, ou escrever melhor. E pra escrever melhor, precisa ler. Portanto leia, Bolsonaro. Não sei se ajuda no amor, mas pelo menos melhora o texto.

Além de ajudar a reduzir a pena.

Todas as cartas de amor são ridículas

Álvaro de Campos

Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas.

As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas.

Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.

A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)

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