Poucos ambientes no planeta são tão hostis quanto o Ártico no inverno: temperaturas de -50 °C, rios sem pontes e extensões de gelo fino que cedem sem aviso. O veículo russo Burlak, desenvolvido pela Makar Offroad, foi projetado especificamente para sobreviver a tudo isso, e ainda flutuar com até duas toneladas de carga a bordo.
De onde vem o nome Burlak e como surgiu o projeto?
“Burlak” designa os trabalhadores que puxavam navios rio acima nos rios russos à força braçal, do século XVI até o início do século XX, uma referência direta à capacidade de avançar em qualquer condição. O nome foi escolhido pelo engenheiro Aleksei Makarov, fundador da Makar Offroad, em Ecaterimburgo.
A ideia surgiu durante uma expedição de Makarov pelos Urais do Norte, quando ele percebeu que nenhum veículo existente conseguia atravessar rios e dunas de neve ao mesmo tempo. Os primeiros testes em campo ocorreram em fevereiro de 2016 no Mar de Kara, onde o Burlak percorreu 2.800 km em 16 dias sem nenhuma pane grave.

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Por que as rodas do Burlak conseguem flutuar sobre a água?
O segredo está nos pneus de baixa pressão multicamada, com 1.750 mm de diâmetro e 720 mm de largura, inflados a apenas 0,1 a 0,4 atmosfera, menos que um quarto da pressão dos pneus comuns. Cada roda tem capacidade de deslocamento de 1.200 kg, somando 7.200 kg totais com as seis rodas juntas.
Esse volume de flutuação é suficiente para manter o veículo à tona mesmo com 2 toneladas adicionais de carga. Quando entra na água, o motor dianteiro faz o Burlak mergulhar levemente à frente, mas ele se realinha automaticamente na superfície e avança com uma hélice a até 6 km/h.
As especificações dos pneus e do sistema de flutuação concentram boa parte da inovação do projeto:
- Diâmetro dos pneus: 1.750 mm, com 720 mm de largura
- Pressão de inflagem: 0,1 a 0,4 atmosfera por pneu
- Capacidade de flutuação por roda: 1.200 kg
- Flutuação total (6 rodas): 7.200 kg
- Carga útil flutuante: até 2 toneladas adicionais sem afundar
- Velocidade na água: até 6 km/h por hélice

Como o motor e a cabine funcionam em temperaturas extremas?
O motor do Burlak é um Cummins 2.8 ISF turbo-diesel de 150 HP e torque de 360 Nm, instalado na parte dianteira em uma caixa selada aquecida continuamente pelo próprio calor do motor. Toda a manutenção de sistemas críticos, como transmissão, freios e pressão dos pneus, é feita pelo interior da cabine, sem que a tripulação precise sair ao ambiente polar.
A cabine comporta até 10 pessoas em configuração de expedição, com camas, cozinha a gás, lavatório e chuveiro. Um sistema acoplado ao motor derrete neve e produz até 30 litros de água potável por dia, eliminando a dependência de abastecimento externo em regiões sem infraestrutura.
O canal Вездеход Бурлак, com mais de 24,4 mil inscritos no YouTube, registrou em vídeo a expedição completa de testes no Mar de Kara, mostrando o Burlak em operação real no Ártico ao longo dos 2.800 km percorridos em fevereiro de 2016:
Qual é o desempenho do Burlak em terra firme?
Na terra firme, o veículo atinge 80 km/h e tem autonomia de até 2.500 km com os tanques cheios, que comportam 360 litros de diesel. O Burlak mede 6,6 metros de comprimento, 2,9 metros de largura e 3,2 metros de altura, pesando 3,7 toneladas sem carga.
A tração é 6×6, com bloqueios de diferencial entre os eixos intermediário e traseiro, e suspensão independente com 200 mm de curso que mantém entre 720 e 750 mm de altura livre do solo. O modelo está disponível em três configurações: Expedição, Carga e Industrial.
O Burlak foi validado em condições reais no Ártico?
Segundo o registro da Universidade do Ártico sobre o veículo criado na Rússia, o Burlak completou os 2.800 km de rota de verificação no Ártico uma semana antes do prazo previsto, sem registrar nenhuma falha grave nos sistemas. Os testes confirmaram a operação estável a -50 °C, a flutuabilidade com carga total e a capacidade de atravessar gelo fino sem afundar.
Para um veículo polar, a validação em campo é o único critério que realmente importa. O Burlak passou pelo teste mais difícil possível no primeiro ciclo de expedições reais e saiu funcional, uma combinação de engenharia de baixa pressão, estrutura térmica integrada e tração de três eixos que, até hoje, poucos projetos do gênero conseguiram reunir em um único equipamento.
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