Assinatura recortada e sentença privada: como suspeitos montaram golpe bilionário na herança do fundador do grupo Objetivo


A história inventada para tentar roubar parte de uma fortuna bilionária.
Uma história construída com documentos falsos, decisões jurídicas controversas e personagens com passagens pela polícia levou autoridades a investigar uma tentativa de golpe de quase R$ 1 bilhão contra o espólio do empresário João Carlos Di Genio, fundador do grupo Unip/Objetivo.
Di Genio morreu em fevereiro de 2022, aos 82 anos, deixando uma herança estimada em R$ 16 bilhões. Três meses depois, uma empresa desconhecida da família apresentou uma cobrança milionária com supostos contratos que traziam a assinatura dele.
Segundo as investigações, o grupo teria usado contratos fictícios, assinaturas manipuladas digitalmente e até uma sentença arbitral para tentar dar aparência legal à cobrança milionária.
A base do esquema era um suposto contrato de compra de 448 lotes em Piraju, no interior de São Paulo. O documento indicava que Di Genio teria adquirido as áreas anos antes de morrer, com o objetivo de expandir uma universidade. O valor inicial da cobrança era de R$ 635 milhões.
Wagner Rossi Silva, dono da Fonamsp
Reprodução/TV Globo
Peritos, no entanto, identificaram indícios de fraude. De acordo com investigadores, a assinatura do empresário foi retirada de documentos autênticos e inserida digitalmente no contrato falso — uma técnica descrita como “recorte e colagem” com uso de tecnologia.
“Eles pegavam uma assinatura verdadeira e inseriam em um documento fictício, retroagindo a data para quando ele ainda estava vivo”, afirmou um dos investigadores do caso.
A cobrança foi apresentada à família por meio de uma empresa ligada a Luís Teixeira da Silva Júnior, que já havia sido investigado anteriormente por uso de documentos falsos. A defesa dele afirma que ele passou a integrar a empresa depois da assinatura do contrato e nega irregularidades.
Sem apresentar os documentos originais solicitados pela família, o grupo recorreu a outro caminho: acionou uma câmara arbitral para validar a dívida.
O ex-policial Rubens Maurício Bolorino
Reprodução/TV Globo
Após a família solicitar os documentos originais da suposta venda, que nunca foram apresentados, a Colonizadora entrou na Justiça para tentar receber o valor antes da partilha dos bens. O pedido foi negado.
Em seguida, os suspeitos recorreram a outro mecanismo: uma sentença de câmara arbitral que determinava o pagamento da dívida, agora elevada para quase R$ 1 bilhão.
⚖️ A câmara arbitral funciona como uma espécie de justiça privada. Em vez de levar o caso aos tribunais, mais demorados, as partes escolhem um árbitro para tomar a decisão. A sentença arbitral tem o mesmo valor de uma decisão judicial.
➡️ A câmara arbitral usada no esquema foi a Fonamsp (Fórum de Negócios e Finanças Internacionais e Nacionais por Arbitragem e Mediação), cujo dono é Wagner Rossi Silva, que tem passagens pela polícia por tráfico de drogas, estelionato e crimes contra o patrimônio.
A arbitragem é um mecanismo legal no Brasil e permite que conflitos sejam resolvidos fora da Justiça comum. A sentença arbitral tem o mesmo peso de uma decisão judicial.
João Carlos Di Genio, fundador do grupo Unip/Objetivo
Reprodução/TV Globo
Sequência do golpe
Segundo a investigação, a decisão foi tomada sem a participação da viúva de Di Genio. O grupo alegou que ela havia sido notificada três vezes, mas não compareceu. A polícia afirma, porém, que as notificações também foram fraudadas — incluindo a falsificação da assinatura de um porteiro.
Especialistas apontam que a falta de fiscalização prévia sobre câmaras arbitrais pode abrir brechas para fraudes.
Em nota, o Conselho Nacional de Justiça informou que essas entidades não são credenciadas pelo Judiciário, embora suas decisões possam ser revistas posteriormente pelos tribunais.
Para reforçar a aparência de legalidade, os documentos também incluíam testemunhas. Entre elas, estava Rubens Maurício Bolorino, ex-policial civil com histórico criminal e investigações relacionadas ao tráfico internacional de drogas.
De acordo com a polícia, o grupo atuava de forma organizada e explorou vulnerabilidades do sistema para tentar obter vantagem sobre uma herança estimada em R$ 16 bilhões. O inventário ainda não foi concluído.
Durante as buscas, agentes encontraram o que descreveram como uma estrutura de fachada ligada ao esquema. A sede da câmara arbitral, segundo os investigadores, funcionava como um “showroom vazio”, sem sinais de atividade real.
Os suspeitos são investigados por estelionato, falsidade ideológica, organização criminosa e tentativa de induzir a Justiça ao erro.
Segundo o Ministério Público, também são suspeitos:
Anani Cândido de Lara: sócio da empresa, teria participado da montagem dos documentos e contratos;
Patricia Alejandra Ormart Barreto: teria simulado notificações sem conhecimento do espólio;
Camila Mariana Alejandra Piaggio Nogueira Ormat: teria ajudado na formalização dos contratos;
Carlos Xavier Lopes: ligado ao núcleo financeiro, atuaria para esconder a origem dos valores;
Aline Cordeiro de Oliveira Boaventura: teria atuado como “juíza arbitral” em decisão simulada.
Até o momento, apenas um suspeito foi preso: Jorge Alberto Rodrigues de Oliveira, apontado como facilitador. Outros oito investigados estão foragidos.
O advogado da Fonamsp, Guilherme Amaral, afirma que procurou o Ministério Público e a Polícia Civil para esclarecer a situação.
A defesa de Luiz Teixeira disse que ele entrou na empresa imobiliária depois que o contrato dos terrenos teria sido firmado com Di Genio, e que a perícia nos documentos não é oficial, mas contratada pela família do empresário. Afirma ainda que ele segue à disposição da Justiça para todos os esclarecimentos.
A viúva de Di Genio afirmou, em nota, que confia nas investigações. A defesa dos demais citados não foi localizada ou não se manifestou até a última atualização desta reportagem.
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