As aspas que silenciam o Irã

Entre aspas e silênciosImagem gerada por I.A

Por Nira Broner Worcman*

Há momentos em que o jornalismo erra não no que afirma, mas na forma como escolhe enquadrar a questão. As aspas, o símbolo máximo da fidelidade às palavras de outrem, também podem se tornar instrumentos de distorção quando desprovidas das condições em que essas vozes existem: medo, coerção e silêncio imposto.

Recentemente, o jornal britânico The Guardian, um dos veículos de comunicação mais influentes do mundo, publicou a seguinte declaração de um homem em Teerã: “Nada de bom pode resultar disso, já que obviamente os EUA e Israel não se importam com o povo iraniano”.

Apresentada entre aspas, a frase adquire um ar de legitimidade. Mas o que não está entre aspas é justamente o que mais importa: quem pode falar livremente dentro do Irã.

A declaração apareceu em um artigo cujo título, por si só, já era um alerta: “Irã convoca jovens a formarem correntes humanas em torno de usinas de energia enquanto o prazo de Trump se aproxima”.

O artigo descrevia um apelo oficial para que jovens cercassem usinas de energia à medida que se aproximava o prazo estabelecido pelos Estados Unidos, sob ameaça de ataque. Este não era um detalhe marginal, mas o cerne da reportagem: civis sendo convocados para ocupar fisicamente alvos potenciais uma prática que, ao expor deliberadamente a população ao risco, viola não apenas o direito internacional, mas qualquer noção básica de humanidade.

A reportagem observou que ataques à infraestrutura civil podem constituir crimes de guerra, uma afirmação correta, mas incompleta. Omitiu o fato de que o uso de civis como escudos humanos, ou a colocação deliberada de populações na linha de fogo, é igualmente uma grave violação do direito internacional humanitário. Esta não é uma prática isolada: o regime iraniano e seus aliados têm se baseado repetidamente na exposição e, em última instância, no sacrifício de civis como método de guerra, tanto em defesa quanto em ataque. Em seu sentido mais literal, isso é terrorismo.

A questão, portanto, não é apenas o que esse homem disse, mas em que circunstâncias ele poderia ter dito algo diferente.

A realidade é inequívoca. Estimativas de organizações independentes indicam que o número de mortos nos protestos de 2026 no Irã pode ter chegado a 43.000 pessoas mortas por ousarem desafiar o regime. Isso faz parte de uma política sistemática de repressão.

As execuções de jovens manifestantes continuam, frequentemente sob acusações como “guerra contra Deus” uma formulação vaga que, na prática, transforma a dissidência em um crime capital. No Irã, discordar não é apenas perigoso. É, diariamente, uma sentença de morte.

Esse padrão não é novo nem acidental. Há anos, o regime iraniano exerce um controle rígido sobre a informação, suprimindo a dissidência não apenas pela força, mas também pelo medo, que molda o que pode ser dito e o que deve permanecer em silêncio.

Jornalistas trabalham sob severas restrições, e cidadãos comuns enfrentam prisão ou algo pior por declarações consideradas desleais. Em um ambiente como esse, até mesmo a opinião pública aparentemente espontânea torna-se inseparável das fronteiras impostas pelo Estado. O que é apresentado ao mundo exterior como uma voz civil pode, na realidade, ser um reflexo da sobrevivência.

Essa dinâmica é ainda mais agravada pela estratégia mais ampla do regime, frequentemente espelhada por seus aliados regionais, de inserir objetivos militares em espaços civis. O resultado é uma confusão sistemática entre combatente e não combatente uma confusão que não só coloca vidas em risco, como também distorce a forma como essas vidas são representadas nas narrativas globais. No Irã, o que é dito não pode ser levado ao pé da letra nem deveria ser apresentado como tal.

Portanto, é legítimo tratar uma declaração coletada sob um sistema que pune a dissidência com a morte como uma expressão autêntica da opinião pública? Ou estamos, ainda que involuntariamente, amplificando a narrativa de um regime que controla as palavras?

Quando a imprensa internacional publica citações sem reconhecer o clima de coerção em que são proferidas, corre o risco de se tornar um veículo de propaganda.

As aspas não são neutras. Elas carregam o peso de tudo o que pode ser dito e de tudo o que foi silenciado.

Em regimes autoritários, a questão não é apenas se estamos ouvindo, mas o que, exatamente, nos é permitido ouvir. Ao ignorar o contexto, estamos criando as condições para que os iranianos um dia possam falar livremente ou estamos contribuindo para silenciá-los para sempre?

*Jornalista, CEO da Art Presse Comunicação e autora de Enxugando Gelo (2025 – edição hors commerce), sobre a cobertura midiática da guerra entre Israel e grupos terroristas.

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