
O Oscar Schmidt morreu ontem. 68 anos. Tumor cerebral. Quinze anos brigando com isso em silêncio, com a mesma teimosia com que ele ficava sozinho na quadra treinando cestas de três pontos.
Sozinho. Ou às vezes com alguém pegando a bola pra ele. Mas basicamente sozinho.
Ele não saía da quadra enquanto não fizesse 20 cestas de três pontos consecutivas. Errou na 19? Começava tudo de novo…
Aliás, ele odiava o apelido Mão Santa. Preferia Mão Treinada. Porque para ele não era dom, era trabalho. A santidade era consequência do treino, não o contrário.
É que o Oscar era de uma geração onde o mérito fazia a fama, não o contrário. A gente sabia o nome dele porque ele era bom, não porque ele era famoso. Parece óbvio quando eu falo assim, mas hoje em dia isso é raridade.
Com meu 1m68, eu não jogava futebol na adolescência, era basquete. E por também me chamar Oscar, as brincadeiras eram inevitáveis. Qualquer enterrada que eu não fizesse era motivo de piada. Qualquer arremesso que eu errasse. Você sabe como é.
Anos depois, num show de stand-up, eu estava contando uma história sobre o meu pai quando um maluco gritou da plateia:
“Isso, meu filho. Fala de mim.”
Era ele. Era o Oscar Schmidt!
Todo mundo riu. Ele disse que era o meu pai de verdade e eu perguntei porque ele me deixou. Ele disse:
É que eu precisava ganhar umas olimpíadas.
Todo mundo riu, inclusive eu. Eu disse que uma bola de basquete era mais importante do que eu e ele confirmou. Todo mundo riu mais.
Aí eu comentei sobre como eu não acreditava que ele fosse meu pai pelo tamanho dele comparado com o meu. A resposta dele foi:
– É que você foi resultado da terceira transa da noite.
A plateia foi ao delírio.Eu ofereci o show daquele dia pra ele.
Ele tinha pagado ingresso. Não pediu nada, não avisou que ia. Chegou, assistiu, gritou da plateia, fez uma das melhores participações especiais da minha carreira e foi embora sem me cumprimentar.
Eu achei que ele não tinha gostado das brincadeiras.
No dia seguinte, recebi um recado no celular dele se desculpando por ter ido embora sem falar comigo.
Não tenho foto com ele. Por culpa dele.
É, bobagem minha achar que ele não gostou das piadas. Acho que ele não gostou do show inteiro e me deu uma desculpa educada. Nunca vou saber. E agora nunca vou poder perguntar, saco!
Tem algo muito especial em crescer admirando alguém pelo que ele faz, virar comediante, e um dia fazer piadas com esse alguém enquanto ele ri do seu lado. É um tipo de conexão que a vida oferece quando ela está de bom humor.
O Oscar Schmidt era o maior cestinha da história do basquete até o LeBron James passar ele ano passado. Recusou a NBA porque quis jogar pela seleção brasileira. Cinco olimpíadas. Recordista de pontos em Jogos Olímpicos até hoje.
E mesmo assim, quando entrou num show de stand-up, virou plateia como qualquer um.
Isso é grandeza de verdade.
Dez dias antes de morrer, ele entrou no Hall da Fama do Comitê Olímpico do Brasil. Quem recebeu o troféu foi o filho dele.
Que bom que deu tempo.
Descansa, Mão Santa…
Digo, Mão Treinada!
