O maior ser vivo terrestre de 400 milhões de anos desafia a ciência há 165 anos e ninguém consegue explicar o que ele é até hoje

O Prototaxites foi o maior ser vivo terrestre de sua época: uma estrutura colunar de até 8 metros de altura e mais de 1 metro de diâmetro que dominou a paisagem da Terra muito antes dos dinossauros ou das primeiras árvores. Descoberto em 1859, o organismo segue sem classificação definitiva na ciência.

O que era o Prototaxites e como ele dominava a paisagem terrestre?

Entre 420 e 370 milhões de anos atrás, durante o período Devoniano, o Prototaxites erguia-se sobre terrenos que ainda não conheciam florestas nem grandes animais. Sem concorrentes de porte semelhante, essas colunas gigantes eram o elemento mais visível da paisagem terrestre do planeta.

A estrutura interna do organismo é composta por um sistema denso de tubos entrelaçados, sem raízes, folhas ou qualquer outra estrutura reconhecível nos grupos biológicos modernos. Essa ausência de características familiares é exatamente tornando o Prototaxites tão difícil de classificar.

Essa ausência de características familiares é exatamente tornando o Prototaxites tão difícil de classificar

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Como esse ser vivo foi descoberto e por que a ciência não consegue classificá-lo?

O primeiro fóssil de Prototaxites foi identificado em 1859, há mais de 165 anos. Desde então, o organismo foi provisoriamente enquadrado como árvore primitiva, alga marinha gigante e, mais recentemente, como fungo colossal. Cada hipótese foi descartada à medida que novas análises revelavam contradições anatômicas e químicas incompatíveis com os grupos propostos.

Segundo o registro histórico do organismo na Wikipédia, nenhuma das classificações propostas ao longo de um século e meio resistiu ao escrutínio das técnicas analíticas mais avançadas. O caso do Prototaxites é um dos mais longos debates taxonômicos da história da paleontologia.

O que o estudo revelou sobre o Prototaxites?

Em janeiro, pesquisadores da Universidade de Edimburgo e do Museu Nacional da Escócia publicaram a análise mais detalhada já realizada do Prototaxites taiti, espécie preservada no depósito fossilífero de Rhynie Chert, na Escócia, datado de cerca de 407 milhões de anos.

O estudo publicado na Science Advances comparou a anatomia microscópica e a composição molecular dos fósseis com fungos fósseis do mesmo depósito. Os resultados mostraram componentes alifáticos, aromáticos e fenólicos semelhantes a produtos de fossilização de lignina, mas nenhum traço das substâncias diagnósticas de fungos.

Os resultados mostraram componentes alifáticos, aromáticos e fenólicos semelhantes a produtos de fossilização de lignina, mas nenhum traço das substâncias diagnósticas de fungos

Por que a ausência de quitina muda tudo na análise desse ser vivo?

A quitina é a substância que compõe a parede celular de todos os fungos conhecidos, vivos ou extintos. Sua ausência no Prototaxites elimina de vez a hipótese fúngica e aponta para algo sem equivalente na biologia moderna. Conforme reportagem da CNN, a pesquisadora Laura Cooper, coautora do estudo, destacou que a ausência de evidências compatíveis com qualquer grupo conhecido torna prematuro qualquer enquadramento definitivo. As substâncias analisadas nos fósseis revelam um padrão único:

  • Componentes alifáticos, aromáticos e fenólicos: presentes, semelhantes a produtos de fossilização de lignina
  • Quitina e quitosana: ausentes, descartando definitivamente a hipótese fúngica
  • Celulose: ausente, eliminando a classificação como planta
  • Estruturas fotossintéticas: ausentes, afastando a hipótese de alga
  • Correspondência com qualquer eucarioto moderno: nenhuma identificada até o momento

Como esse ser vivo se compara aos grandes grupos da vida conhecida?

Se a conclusão do estudo for confirmada, o Prototaxites ocuparia uma posição independente na árvore da vida, sem equivalente entre os seis reinos já reconhecidos pela ciência. A comparação abaixo mostra por que nenhum grupo existente consegue abrigá-lo:

Reino Característica diagnóstica Presente no Prototaxites?
Fungos Quitina na parede celular Não
Plantas Celulose e estruturas fotossintéticas Não
Animais Tecidos diferenciados e mobilidade Não
Protistas Organização unicelular ou colonial simples Incompatível com o porte de 8 metros
Linhagem extinta Sem equivalente moderno Hipótese atual mais sustentada

Para aprofundar o debate, selecionamos o episódio do podcast Os três elementos, com mais de 194 mil inscritos. Os apresentadores Mila Massuda, Emilio Garcia e Carlos Ruas discutem o estudo e o que a composição química do Prototaxites revela sobre os limites do nosso entendimento da vida na Terra:

O que esse ser vivo significa para a nossa compreensão da árvore da vida?

A evolução não é uma escada linear, mas uma árvore com muitos ramos que surgem e desaparecem. O Prototaxites é um lembrete concreto de que o registro fóssil guarda formas de vida que a Terra experimentou e abandonou, sem deixar descendentes modernos. Se confirmado como linhagem independente, o organismo ocuparia um lugar comparável aos reinos já reconhecidos, o que representaria uma das maiores revisões taxonômicas das últimas décadas.

Após 165 anos de debate, o maior ser vivo terrestre de 400 milhões de anos ainda não tem nome de grupo. Isso não é uma falha da ciência. É a ciência funcionando: reconhecer os limites do que se sabe e resistir à tentação de encaixar o desconhecido em categorias que não foram feitas para ele.

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