Fauna silvestre pode indicar avanço de superbactérias fora de hospitais, diz pesquisa


Raposas e pássaros transitam por ambientes urbanos, rurais e naturais ao mesmo tempo — e é exatamente isso que os torna úteis para esse tipo de monitoramento.
Kay Nietfeld/AP
Raposas e pássaros que circulam entre cidades, fazendas e áreas naturais podem estar carregando — e espalhando — bactérias resistentes a antibióticos sem adoecer por isso.
É o que aponta um estudo publicado na última semana na revista científica Frontiers in Microbiology.
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Os pesquisadores propõem que monitorar esses animais pode ser uma forma de detectar, com antecedência, o avanço dessas bactérias para além de hospitais e criações de animais.
A pesquisa foi conduzida por Mauro Conter, professor da Universidade de Parma, na Itália, e colegas. A equipe analisou quase 500 amostras de fezes de raposas-vermelhas, corvos e aves aquáticas coletadas em diferentes regiões do norte da Itália.
A escolha das espécies não foi aleatória. Raposas e pássaros transitam por ambientes urbanos, rurais e naturais ao mesmo tempo — e é exatamente isso que os torna úteis para esse tipo de monitoramento.
“Focamos em raposas e pássaros porque eles são muito móveis e frequentemente vivem na interface entre ambientes dominados por humanos e ambientes naturais”, disse Conter ao g1.
“As raposas-vermelhas podem forragearem perto de assentamentos, locais de resíduos e áreas agrícolas, enquanto os pássaros podem se mover por longas distâncias e conectar diferentes habitats.”
Nenhum desses animais recebe antibióticos. Mesmo assim, eles acabam entrando em contato com resíduos humanos, esgoto, descargas hospitalares e dejetos de criações de animais — fontes que podem liberar bactérias resistentes no ambiente.
Assim, ao circular por esses locais, os animais captam essas bactérias e as redistribuem.
Corvo repousa sobre cerca em frente ao Arco da Índia em meio a poluição de Nova Delhi
Adnan Abidi/Reuters
O que foi encontrado
Os pesquisadores detectaram a bactéria Klebsiella pneumoniae — capaz de causar pneumonia, sepse e meningite em humanos — em amostras de raposas e aves aquáticas. Embora a prevalência tenha sido de 2%, o dado preocupa.
“Isso representa contaminação ambiental por cepas de alto risco”, explica Conter. “K. pneumoniae se dissemina facilmente por rotas de água e resíduos, criando um ciclo contínuo de resistência entre humanos, animais e ambiente.”
O achado mais alarmante, porém, foi o nível de resistência dessas bactérias.
Todas as amostras da bactéria encontradas nos animais eram resistentes a duas classes de antibióticos importantes para a medicina humana.
Na comparação, os dados europeus de vigilância clínica de 2024 mostram que menos de 20% das amostras da mesma bactéria em pacientes humanos na Itália apresentavam esse mesmo tipo de resistência.
Isso não significa que a fauna silvestre é ‘mais resistente’ em sentido biológico, mas sim que as bactérias que isolamos carregavam características de resistência em alta frequência. Interpretamos isso como evidência de que bactérias resistentes e genes de resistência estão circulando no ambiente e podem se acumular em animais silvestres expostos à contaminação proveniente de atividades humanas.
Colônias de K. pneumoniae.
CDC
Um alerta antes que chegue aos hospitais
Para os pesquisadores, o principal valor do estudo está no que ele sugere para a saúde pública: incluir animais silvestres nos programas de vigilância de resistência a antibióticos pode antecipar problemas antes que eles cheguem às clínicas e hospitais.
“A principal implicação é que a fauna silvestre deve ser incluída na vigilância de resistência antimicrobiana porque pode revelar a circulação ambiental de bactérias resistentes clinicamente importantes antes que sejam plenamente reconhecidas em contextos humanos ou de animais de criação”, alerta Conter.
O pesquisador aponta como próximos passos ampliar o monitoramento e reduzir a poluição por antibióticos — o que passa por melhorar o tratamento de esgotos e limitar o uso desses medicamentos em contextos não humanos, como a pecuária.
Os próprios autores, contudo, reconhecem limitações: o estudo não foi desenhado para identificar transmissões diretas entre animais e humanos, e a diversidade real de bactérias no ambiente pode ser maior do que a captada pelas amostras coletadas.
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