Com apenas 25 metros de altura, a montanha que se transforma num gigantesco livro de pedra abriga dezenas de poemas cravados por imperadores

Você consegue imaginar uma montanha de apenas 25 metros que guarda mais de 40 poemas cravados na rocha por imperadores e generais? Em Ninh Bình, no Vietnã, a Non Nước é exatamente isso. Ao longo de sete séculos, reis das dinastias Trần e , além de poetas como Nguyễn Trãi, deixaram versos no calcário que ainda podem ser lidos hoje, a céu aberto e sem vitrines.

O que é a montanha Non Nước e por que ela é chamada de museu de poesia?

A Non Nước acumula cinco nomes ao longo da história: Dục Thúy Sơn (Montanha do Pássaro Tomando Banho), Bang Sơn, Thúy Sơn e Hộ Thành Sơn. Apesar da modesta estatura de 25 metros, a montanha concentra 63 estelas, das quais 53 em escrita Han (clássico chinês) e 6 em quốc ngữ (escrita romanizada moderna do vietnamita), com 43 ainda intactas.

O primeiro a gravar versos na rocha foi o literato Trương Hán Siêu, no século XIV, que cunhou a expressão “cảnh tiên nơi cõi tục”, “paisagem de paraíso no mundo dos mortais”, verso que definiu para sempre a identidade do lugar. Após ele, geração após geração de figuras históricas parou diante da montanha e sentiu que era preciso deixar alguma coisa para trás, gravada na pedra.

A diversidade de dinastias representadas transforma o calcário da Non Nước num arquivo rupestre de séculos de cultura vietnamita

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Quais imperadores e poetas deixaram seus versos gravados na rocha?

A coleção de inscrições da Non Nước reúne nomes que definiram a história literária e política do Vietnã. O canal Tung Tăng Khắp Miền, com mais de 395 mil inscritos, percorreu a montanha inteira narrando a história de cada inscrição, das dinastias aos poetas individuais, e lendo os poemas gravados nas paredes:

Entre os autores identificados nas paredes da montanha estão o rei Trần Anh Tông (Dinastia Trần, século XIV), o estadista e poeta Nguyễn Trãi (século XV), o general literato Phạm Sư Mạnh, o rei Lê Thánh Tông, o poeta Cao Bá Quát e o mestre Nguyễn Khuyến. A diversidade de dinastias representadas transforma o calcário da Non Nước num arquivo rupestre de séculos de cultura vietnamita.

Qual é o papel histórico dessa montanha além da poesia?

A Non Nước não é apenas um monumento literário. Erguida no coração da antiga capital Hoa Lư, sede do reino Đại Cồ Việt nos séculos X e XI, ela foi palco de um dos momentos mais decisivos da história vietnamita: foi às margens do Rio Vân que a Imperatriz-Viúva Dương Vân Nga entregou o manto imperial a Lê Hoàn, marcando a transição pacífica da Dinastia Đinh para a Dinastia Lê Anterior sem derramamento de sangue.

Séculos depois, durante a resistência anticolonial francesa, a montanha voltou a ser estratégica. No auge da Campanha Quang Trung de 1951, o tenente-coronel Giáp Văn Khương lançou-se ao Rio Đáy para escapar das forças coloniais que o cercavam. A mesma rocha que guardava poemas de imperadores servia de referência geográfica para operações militares. A tabela abaixo resume os principais momentos históricos ligados à Non Nước:

Período Evento histórico
Séculos X e XI Posto avançado de vigia da capital Hoa Lư
Século XIV Trương Hán Siêu grava o primeiro poema na rocha
1961 (marco oficial) Classificada como monumento paisagístico nacional
1951 Ponto estratégico na resistência anticolonial francesa
31 de dezembro de 2019 Elevada à categoria de Patrimônio Nacional Especial

Como a Non Nước foi preservada e qual é seu status patrimonial hoje?

A montanha foi classificada como monumento paisagístico nacional em 1962 e elevada à categoria de Patrimônio Nacional Especial (Di tích Quốc gia Đặc biệt) por decisão do Primeiro-Ministro em 31 de dezembro de 2019, pela Decisão nº 1954/QĐ-TTg. As autoridades da província de Ninh Bình elaboraram um plano de conservação integrado com horizonte até 2050, que inclui também a montanha vizinha Canh Diều, para preservar o acervo rupestre e integrá-lo à narrativa histórica da antiga capital Hoa Lư.

O que diferencia a Non Nước de qualquer museu convencional é exatamente a ausência de vitrines e etiquetas. Os poemas estão gravados diretamente na rocha viva, sujeitos ao tempo, à chuva e à luz do dia. A conservação desse acervo é um desafio permanente: cada inscrição que resiste é um verso que sobreviveu a séculos de intempéries sem nenhuma proteção além da dureza do calcário.

Por que a Non Nước é uma visita que nenhum museu convencional consegue substituir?

A experiência de visitar a montanha Non Nước não tem equivalente: os poemas não estão emoldurados nem protegidos por vidro, estão na pedra que os imperadores tocaram com as próprias mãos. Caminhar pelos flancos da Non Nước é entrar num livro que levou séculos para ser escrito, por mãos que governaram impérios, lideraram exércitos ou apenas pararam diante de uma paisagem e sentiram que era preciso registrar aquele momento.

Com apenas 25 metros de altura e mais de 700 anos de poesia gravada nas paredes, a Non Nước prova que monumentos não precisam de escala para ser extraordinários. A grandeza da montanha não está na altura: está na densidade de história que cada metro quadrado de calcário carrega em silêncio.

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