Entre o luto e a celebração

Dia de lembrança dos mortos em guerras e atentados em Israel, no cemitério militar.Wikipedia

Nesta época, todos os anos, os israelenses executam um malabarismo emocional ao mesmo tempo comovente, inspirador e profundamente triste.

Por uma noite e um dia (no judaísmo, com seu calendário lunar, o dia começa com o surgimento da primeira estrela), estamos arrasados, lembrando e homenageando soldados e civis — judeus, muçulmanos, cristãos e drusos — que perderam a vida em guerras ou em ataques terroristas. Em Jerusalém, o governo organiza um evento de cortar o coração. Todas as cidades do país promovem homenagens cheias de música e lágrimas, com histórias familiares e uma prece criada  especialmente para essas vítimas. Os cemitérios se enchem de visitantes. Outros se reúnem em locais diferentes — a única regra é lembrar.

Quando o dia termina, é hora de celebrar o Dia da Independência do Estado de Israel. Jerusalém, novamente, é palco de um evento repleto de luzes, dança, música, alegria e gratidão. Doze pessoas, simbolizando as 12 tribos de Israel, são convidadas a acender uma tocha em homenagem à data. Neste ano, a estrela da noite foi, sem dúvida, o presidente argentino Javier Milei. Há tempos não se via um visitante tão histericamente emocionado.

Conto tudo isso para, quem sabe, conseguir transmitir o que é esse salto com triplo mortal e quatro giros, de costas, que esse país nos faz dar todos os anos. É preciso uma disponibilidade emocional que nem todos têm, ainda mais neste ano, após mais de 2,5 anos de guerra.

Nas palavras de Amit Segal

O jornalista israelense Amit Segal descreveu lindamente a sensação desses dois dias.

“Há dois anos, participei de um encontro de Shabat para famílias enlutadas em Tel Aviv. Em um Shabat típico, uma sinagoga cheia pode abrigar alguns viajantes que precisam recitar uma bênção especial, uma mãe que acabou de dar à luz recitando a mesma bênção, talvez um menino celebrando seu bar mitzvá e, pela primeira vez, subindo para abençoar a Torá, e três ou quatro enlutados recitando o Kadish dos enlutados [prece judaica pelos mortos].

O jornalista israelense Amit SegalReprodução

Mas, quando chegou a hora do Kadish naquela manhã, todo o espaço — com centenas de fiéis — levantou-se como um só. Um coro de vozes ecoou: “Yitgadal v’yitkadash shmei rabá” (Que Seu grande nome seja exaltado e santificado). Cada um deles estava de pé por um ente querido perdido no Simchat Torá [essa era a festividade que se celebrava no dia 7/10/23] daquele ano, ou nos meses extenuantes que se seguiram.

A intensidade avassaladora daquela dor trouxe de volta outra lembrança. Um ano antes, na sinagoga do Hospital Hadassah Ein Kerem, eu havia testemunhado o exato oposto. Ali, formou-se de repente uma fila: meia dúzia de pais esperando para dar nome às suas filhas recém-nascidas, ao lado de famílias que celebravam três circuncisões diferentes [segundo a tradição judaica, todo menino judeu é circuncidado no 8º dia de vida].

Pensei nesses dois espaços sagrados, aparentemente opostos. Pensei na distância dolorosamente curta entre o momento de nomear uma criança e o de recitar o Kadish. Os que partiram permanecem congelados no tempo, como adolescentes ou jovens de vinte e poucos anos, mas, para o resto de nós — aqueles que continuam a envelhecer — eles parecem, impossivelmente, dolorosamente, mais jovens a cada vez que nos lembramos deles.

Hoje, uma sirene soará, e todo o país parará — nas rodovias, nos prédios de escritórios e nas casas. A sirene, que nos últimos dois anos e meio tem nos alertado para o perigo, soará hoje para nos lembrar do custo dessa proteção.

Todos os anos, o Ministério da Defesa divulga os nomes dos soldados, policiais e membros de outros serviços de segurança que morreram no último ano, seja em serviço, seja em decorrência de acidente, doença ou, de forma mais trágica, suicídio. Cento e setenta soldados morreram desde o último Dia da Memória de Israel. Seus nomes agora se somam aos 25.648 que caíram desde 1860, quando judeus deixaram as muralhas da Cidade Velha de Jerusalém para estabelecer novos bairros na Terra Santa.

É uma tarefa impossível capturar a profundidade e a amplitude deste dia em Israel. Tentarei, à minha maneira modesta, honrar os 59.583 familiares em Israel que perderam algo insubstituível. Hoje, todo o país dedica um tempo para lembrar os 8.420 pais enlutados, 4.872 viúvas, 14.430 órfãos, 31.814 irmãos enlutados, 12 noivas e 35 guardiães legais que ficaram para trás.”

Seguimos.

 

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