Brasileiro de SP é chamado de ‘herói da Maratona de Boston’ ao carregar corredor até reta final da competição nos EUA


Robson de Oliveira (à esquerda) e Aaron Beggs (de amarelo) ajudam corredor exausto Ajay Haridasse a cruzar a linha de chegada da Maratona de Boston
Reuters/Cj Gunther
O operador de máquinas brasileiro Robson Gonçalves de Oliveira, de 36 anos, ganhou a capa dos principais jornais do mundo no domingo (21) ao ajudar um corredor norte-americano a completar a Maratona de Boston, nos Estados Unidos.
Perto de bater sua melhor marca pessoal em corridas de rua, Oliveira ajudou a carregar o engenheiro Ajay Haridasse na reta final da competição, já na reta final da maratona, transportando o colega nas costas com a ajuda de outro corredor.
Os três cruzaram a linha de chegada juntos e o brasileiro e o corredor inglês Aaron Beggs – que parou para socorrer o colega – foram aclamados pelo público e estão sendo chamados pela mídia norte-americana de “heróis e superstar da Maratona de Boston”, pelo gesto de generosidade que correu o mundo.
Com dez maratonas no currículo ao redor do mundo, Robson Gonçalves desembarcou nesta segunda-feira (22) no Brasil direito para o trabalho, em uma indústria metalúrgica de São Bernardo do Campo, mas disse para o g1 e a TV Globo que o gesto generoso faz parte da filosofia dele de corredor.
“Foi um momento de decisão muito rápida. Eu precisava de alguns segundos para bater meu melhor tempo, mas vi o rapaz caído no chão e decidi ajudar. Naquele momento, precisava de ajuda de outra pessoa”, contou.
“Na hora pensei: ‘Meu Deus, se alguém parar, eu também paro e o ajudo’. E deu tudo certo. No final conseguimos carregar ele até o final”, afirmou.
“Esse é o espírito de Boston e da corrida, do esporte e é isso que eu procuro fazer. Eu até ia bater meu tempo pessoal. Mas faltando alguns metros, vi a pessoa caída no chão e pensei: não tenho força pra ajudar sozinho. Mas se alguém parace, eu pararia também, porque dois são mais fortes que um. Ainda mais depois de correr uma maratona. Mas Deus ajudou que o inglês parou também e juntos pudemos manter o espírito do esporte”, declarou.
Brasileiro ajuda corredor norte-americano durante a Maratona de Boston, nos Estados Unidos.
Reprodução/Redes Sociais
Trajetória de corredor
Robson Gonçalves é corredor há cerca de 10 anos. Ele corria apenas duas ou três vezes por semana, uma distância máxima de 5 quilômetros.
Ele contou ao g1 que ao longo do tempo foi se apaixonando pela corrida e, em 2019, fez sua primeira maratona em São Paulo.
A partir daí começou a treinar e sempre teve o sonho de correr a Maratona de Boston, considerada a maior do mundo entre os corredores amadores do mundo.
“É a maratona mais antiga do mundo. E para você chegar nela, precisa se classificar antes em outra maratona. E é tudo por faixa etária. E não consegui índice para correr Boston em 2023, em Brasília. Porque é uma corrida que além do seu desempenho, depende da quantidade de inscritos na sua faixa etária. E aí há um corte extra pra todas as faixas etárias”, contou.
Robson Gonçalves de Oliveira, de 36 anos, é corredor de maratona há dez anos e já fez várias provas no Brasil e ao redor do mundo.
Acervo pessoal
Então, de 2024 para cá ele vinha treinando com um ciclo mais focado, onde ele conseguiu finalmente o índice na Maratona do Rio de Janeiro, em 2024.
“Consegui fazer 17 minutos abaixo do índice de corte e já sabia que ia conseguir correr Boston. Fiz ano passado a minha primeira maratona lá, junto com um amigo. Ano passado finalizei a prova em 2 horas e 45 minutos. Foi uma prova muito boa e de emoção gigante”, declarou.
O foco para a Maratona de 2026 em Boston era superar as 2 horas e 43 minutos que ele conseguiu na Maratona de Buenos Aires, na Argentina.
“Treinei muito para bater esse meu tempo de Buenos Aires. Meu sonho é correr abaixo de 2 horas e 40. No final da prova deste ano em Boston eu comecei a sentir cansaço e não ia conseguir mais bater as 2horas e 39 que eu queria. Então, o plano era manter o índice de Buenos Aires”, disse.
Ele estava conseguindo manter o ritmo para superar em alguns segundos seu recorde pessoal, quando se deparou com a cena do engenheiro Ajay Haridasse sendo socorrido por Aaron Beggs na reta final da prova.
“O Ajay estava em colapso e não conseguia ficar em pé. A única maneira dele completar era se rastejar ou rolar até a linha de chegada. Faltavam apenas 200 a 300 metros, acho. Graças a Deus o colega inglês parou e eu não tive dúvidas em também ajudar. Porque individualmente nenhum de nós íamos conseguir fazer nada sozinhos”, lembrou.
Robson de Oliveira recebe atendimento médico após cruzar a linha de chegada carregando outro corredor na Maratona de Boston
Reuters/Cj Gunther
Sem falar inglês para se comunicar com os outros colegas, Gonçalves diz que só conseguiu dizer palavras de incentivo para que o engenheiro caído conseguisse forças para ao menos caminhar até o final do percurso.
“Eu disse pra ele: ‘up, up and walking’. Nós estávamos muito exaustos ali e eles não conseguiram dizer nada. Mas no momento que cruzamos a linha de chegada, já tinha uma equipe médica preparada para socorrê-lo. Mas eu também desabei após cruzar a linha, porque estávamos exaustos. E a cadeira de rodas pra ele acabou ficando pra mim e depois trouxeram outra pra ele”, contou.
O herói da Maratona de Boston disse que, após a corrida, ganhou todos os exames de saúde completo da organização da prova para ter certeza que podia voltar ao Brasil em segurança.
“É algo novo pra mim, mas que na Maratona do Rio eu já tinha feito com um amigo. Eu carreguei ele nos últimos 200 metros. E isso não tem nada a ver com herói. É força de Deus e Jesus. Toda honra e toda glória deve ser pra ele”.
Robson disse que já está preparado para a Maratona de 2027, mas antes vai tirar um período de 10 dias de descanso antes de iniciar o próximo ciclo de treinos.
Robson de Oliveira recebe atendimento médico após cruzar a linha de chegada carregando outro corredor na Maratona de Boston
Reuters/Cj Gunther
A próxima maratona dele é em julho. Os treinos são revesados com o trabalho em uma empresa de montagem de caminhões em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.
Os turnos de trabalho mudam a cada duas semanas, onde ele também tem que trabalhar nas madrugadas e ajudar a cuidar da filha que é deficiente auditiva, como a esposa.
“Eu treino quando dá. Quando trabalho de dia, treino antes do trabalho. Acordo 4 horas da manhã. Quando estou a tarde, o treino é quando as crianças estão na escola e as 16h entro no turno para o trabalho. E na madrugada só treino se o corpo permitir, as vezes às 08h da manhã ou a tarde, depois de dormir um pouco”, contou.
“Eu amo esse esporte e faço todo o sacrifício que for para correr. Em nome desse esporte, faria e farei isso de novo, quantas vezes for necessário. Amo esse esporte porque é um forma de cuidar da saúde. Apesar de corredor uma maratona é muito desfaste para o corpo, é importante. E eu quero passar esse legado para os meus filhos, pra que eles possam também fazer parte desse amor, pra que eles consigam construir seus sonhos também por meio do esporte”.
Robson disse que está surpresa com a repercussão internacional do ato que recebeu milhares de mensagens em inglês e não está conseguindo dar conta de responder todo mundo.
“Nunca recebi tanta mensagem. Estou usando o Google Tradutor pra responder algumas. Mas vou demorar dias pra conseguir falar com todo mundo. Eu não esperava, mas se Deus permitir, quero estar lá ano que vem de novo”, desabafou.
A repercussão internacional do ato de generosidade do brasileiro na Maratona de Boston, nos EUA.
Reprodução
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